
Arte: Rodinei Crescêncio/Rdnews
“A beleza da maternidade não está na perfeição, mas na conexão entre mãe e filho.” Com essa reflexão, a psicóloga Helaine Lopes fala sobre repensar a romantização da maternidade e quanto isso impacta na saúde mental das mulheres. Para ela, a sociedade muitas vezes retrata a maternidade como uma fase naturalmente plena e gratificante, mas afirma que a realidade pode ser muito diferente. Em entrevista ao , Helaine aborda como essa idealização pode gerar culpa, frustração e sobrecarga emocional às mães, reforçando a importância de um olhar mais realista e acolhedor sobre a experiência materna.
Confira, abaixo , os principais pontos da entrevista:
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Arquivo Pessoal
A sociedade frequentemente retrata a maternidade como uma experiência divina, plena e naturalmente gratificante para todas as mulheres. Como essa idealização pode afetar a saúde mental das gestantes, especialmente quando suas vivências não correspondem a essa expectativa?
Eu vejo que toda essa idealização, essa romantização em torno da maternidade, de fato, traz prejuízos muito significativos tanto para a saúde mental dessa mãe, quanto para a própria construção da maternidade dela. Primeiramente, eu gosto de trazer isso: ser mãe é um chamado, é uma experiência. E essa experiência pode enriquecer e transformar em muito a vida dessa mulher. Mas, é claro que é extremamente importante ressaltar que esse chamado não é uma anulação, nem um sofrimento, e até mesmo a sobrecarga, que é o que a gente percebe muito aqui em atendimento, sobre essa sobrecarga materna. Então, quando se romantiza essa maternidade, se traz uma visão extremamente distorcida desse chamado. É o que impede essa mãe de compreender a verdadeira essência da maternidade. Isso é bem comum de ser observado quando eu estou em atendimento com a gestante ou durante o puerpério, que ela passa por isso mesmo no pós-parto. Então, isso vai fazer com que as mães acreditem que elas devem ser sempre plenas, realizadas e capazes de lidar com todas essas demandas que chegam a partir desse filho. Diante disso, é muito comum se instalar nessa maternidade a culpa. Muitas mães não conseguem expressar o cansaço, as suas dificuldades, porque acreditam que serão julgadas. Então, vejam o quanto é impactante na vida dessa mulher ter essa idealização que, muitas vezes, é propagada para ela e chega de forma totalmente distorcida.
A imposição do ideal da “mãe perfeita” pode gerar uma sensação de inadequação para aquelas que não se identificam com esse modelo. De que maneira essa pressão afeta a saúde emocional das mães e quais são as dificuldades que elas enfrentam para expressar suas angústias e frustrações?
Elas começam a se questionar de uma tal forma: “Será que eu sou uma boa mãe?”. E essa cobrança gera muita frustração e um sofrimento emocional enorme. O isolamento e a exaustão dessa maternidade, porque elas acreditam que precisam ser autossuficientes a todo momento, porque “o amor de mãe basta”. E a gente vê que isso não é saudável. Elas não pedem ajuda e isso acontece muito porque é [visto como] um sinal de fraqueza e, como consequência de tudo isso, o que que acontece? Elas se afastam da rede de apoio e enfrentam essa maternidade de forma solitária. Percebe o quanto é importante e significativo? É extremamente importante também o quanto esse vínculo afetivo entre mãe e bebê pode ser comprometido. Porque quando a mãe está sobrecarregada e emocionalmente esgotada, se sentindo culpada com todos esses mistos de sentimentos, essa conexão com o bebê pode ficar prejudicada. Isso não é porque ela ama menos o seu filho, mas é que ninguém consegue, de fato, cuidar de outra pessoa quando a gente está no limite. A verdade é essa mesmo, ninguém consegue. Além disso, tem um fator também importante: quando essa mãe percebe que a sua vivência com essa maternidade não corresponde à real maternidade e tudo o que foi apresentado pra ela, aí a gente se preocupa, e muito. Por quê? Porque podem ser desenvolvidos quadros de ansiedade, até mesmo depressão pós-parto. Porque a pressão é muito grande enquanto essa mulher está maternando.
A identidade da mulher muitas vezes é reduzida à maternidade, fazendo com que ela seja reconhecida apenas como “mãe de fulano” ou “mãe de beltrano”, anulando sua individualidade. Você acredita que essa visão é uma construção social para silenciar as mulheres ou um reflexo de padrões históricos que seguimos sem questionar?
A perda da identidade é um resultado daquelas que sentem que precisam abandonar, literalmente, quem eram antes, para serem apenas mães. E aqui eu quero abrir um parêntese, porque está tudo bem se essa mãe quiser se dedicar aos seus filhos, tudo bem. Mas algumas mulheres que desejam voltar aos seus trabalhos, à sua profissão, até mesmo retomar os seus sonhos, elas sentem que estão sendo egoístas. Quando, na verdade, para ser mãe não precisa se anular. Eu trago muito isso para minhas pacientes. Eu acredito também que é algo imposto pela sociedade, mas sempre digo, quando eu estou com uma mulher que tem essas dúvidas, que se sente pressionada pela sociedade, que ela possa não olhar, entende? Não olhar para a sociedade, nem para aquilo que está sendo sugerido pelas redes sociais, e que ela desenvolva a sua maternidade em cima dos seus valores e que não se perca dela. Porque a sociedade precisa enxergar essa mãe, mas não só como mãe de fato, porque existe uma mulher ali, um potencial que não deixou de existir. Além disso, ela precisa ser compreendida, respeitada, porque tem as suas necessidades pessoais. Então, é preciso, quando nós olhamos para ela como mulher, se permitir que essa mulher viva a maternidade dela com mais liberdade e autenticidade. Mas é claro que a gente sabe que isso vem ao longo da história. As mulheres são nomeadas como cuidadoras e, de fato, elas têm esse potencial de cuidar. Mas para cuidar de outras pessoas, eu preciso também ser cuidada.
Muitas mães sentem culpa ao enfrentar desafios ou cometer erros na criação dos filhos, pois a sociedade alimenta a ideia de que elas devem sempre saber o que fazer. Como ajudá-las a compreender que a maternidade é um aprendizado constante e que errar faz parte desse processo?
Eu gosto muito de dizer que a beleza da maternidade não está na perfeição, de maneira nenhuma, mas no olhar, no toque dessa mãe para com seu filho, o vínculo que é construído, esse encontro. Então, ela precisa buscar esse potencial dentro dela. Ela precisa, na verdade, descobrir novas maneiras, em meio a tantas mudanças, de poder ser essa mãe que esse filho precisa. E volto a dizer, a não se perder dela. É esse chamado que a vida lhe faz e que ela pode responder com leveza, respeitando os limites dela e se cuidando também. Porque é preciso que ela também não espere apenas um olhar da sociedade ou para com seu parceiro, seus familiares, que ela possa se atentar principalmente com ela mesma, com as emoções dela. O que muitas mães nessa fase esperam, porque elas estão inclinadas somente para as demandas do bebê e acabam deixando de se perceber também. Então, a partir do momento que ela se percebe, ela pode buscar um apoio para que essa situação não venha a comprometer essa beleza da maternidade. Por trás de tudo isso, desses desafios, das dificuldades, existe uma beleza? Existe, mas é preciso poder compreendê-la. “ As mulheres são nomeadas como cuidadoras e de fato a mulher tem esse potencial de cuidar. Mas para cuidar de outras pessoas, eu preciso também ser cuidada”
As redes sociais frequentemente exibem uma versão idealizada da maternidade, mostrando apenas momentos felizes e ocultando os desafios. Qual o impacto dessa exposição seletiva para as mães, especialmente aquelas que já lidam com inseguranças em relação ao seu papel materno?
Acho que é uma frustração imensa do tipo: “Eu não sou assim”. Na verdade, nós precisamos trazer para essa mãe a real situação da maternidade. Porque quando você traz as redes sociais, isso é muito sério. Porque nas redes sociais há um filtro enorme, não só em relação às fotos, mas também do dia a dia daquela mãe. E esses filtros reforçam demais que existe uma maternidade perfeita. Entretanto, isso não existe, porque não existe receita para tudo. Essa é a verdade. Essa mãe precisa também entender que ela tem uma maneira de viver esse processo todo. De que ela não precisa apenas copiar aquilo que está sendo ditado. E sim, que busque ela mesma para desenvolver a maternidade. Mas o impacto é enorme sim. Porque é uma frustração: “Ela faz mil e uma coisas que eu não consigo fazer”. Além de que são apresentadas somente as alegrias. Eu acho que as redes sociais precisavam trazer mais coisas reais. A maternidade mesmo, como ela acontece? Quais são seus desafios? Quando eu estou com uma mulher gestante, o que eu procuro fazer é justamente isso. Fazê-la olhar para a própria maternidade, olhar para aquilo que ela dá conta de fazer.
O conceito de “instinto materno” é amplamente disseminado, muitas vezes reforçando a ideia de que todas as mulheres estão naturalmente preparadas para a maternidade. Do ponto de vista psicológico, esse instinto realmente existe ou ele é um comportamento aprendido e construído ao longo da experiência materna?
Olha, isso parte da minha opinião, é claro que quando a mulher fica gestante, no primeiro momento a gente ouve também que “ali nasce uma mãe”. Não, às vezes ali não nasce uma mãe. De maneira nenhuma. Quando o seu bebê vai nascer, você vai enxergar toda a beleza? Não, às vezes isso não acontece. Mas é preciso aqui também a gente falar que cada mulher é cada mulher. Cada maternidade é cada maternidade e cada gestante possui uma realidade. Esse instinto existe para algumas mulheres, que se sentem plenas desde o primeiro momento e se sentem completamente potentes. Isso acontece. Mas a gente precisa ressaltar que existe aquela mulher que não se sente assim. E aí a gente pode pensar como essa maternidade também foi construída. Como foi apresentada essa maternidade para ela. Mas esse instinto, eu acredito que ele não existe de fato. Ali você não nasceu. Eu acho que você se desenvolve e aprende com a própria maternidade, dando essa oportunidade para que você seja feliz exercendo aquela função. Mas, de fato, esse instinto inicial não acontece. “ Quando a mulher fica gestante, no primeiro momento a gente ouve também que ‘ali nasce uma mãe’. Não, às vezes ali não nasce uma mãe. De maneira nenhuma. Quando o seu bebê vai nascer, você vai enxergar toda a beleza? Não, às vezes isso não acontece”
Mulheres grávidas frequentemente relatam que estranhos tocam suas barrigas sem permissão ou fazem comentários sobre sua alimentação e rotina. Como essas situações refletem a falta de respeito à individualidade feminina e como as gestantes podem impor limites sem se sentirem desconfortáveis?
Primeiro, ela precisa se posicionar e respeitar seus próprios limites. Mas é muito natural isso acontecer. Principalmente o toque na barriga. Eu vejo uma grávida, a primeira iniciativa é tocar na barriga. Isso traz para nós um fator importante e vai de encontro com tudo o que a gente está falando, esse ser mulher. Existe uma mulher ali também, mas o principal da gestação é o bebê. E isso também provoca nessa mulher um senso de insegurança, de fragilidade. Todas as atenções são para o bebê: “Como é que vai o bebê?” Aí a pessoa toca na barriga e pergunta: “Olha, está de quantos meses?”. Entretanto, o difícil de acontecer é a pergunta para a mulher: “E aí como você está?”. Eu percebo essa indignação. Esse toque. Essa mulher está praticamente dizendo: “Ei, eu estou aqui também. Eu estou carregando um bebê, mas eu estou aqui”. Isso acontece muito. Só olham o bebê.
Existe um senso comum de que toda gravidez é igual e que as dificuldades enfrentadas por uma gestante não são legítimas porque outras mulheres “passaram por coisas piores”. Por que essa comparação pode ser prejudicial e como é possível validar a experiência única de cada mãe?
É um universo muito, muito complexo, porque a mulher quando está gestando não tem só essas questões consideradas comuns, mas tem uma história de vida. Ela não gesta só um bebê. Ela gesta a história de vida dela, traumas… E eles vão ressurgindo. As emoções estão totalmente alteradas. São muitos acontecimentos e é maravilhoso quando você entende que isso é uma fase sua, uma experiência só sua e que vai passar. Só é preciso passar por ela e não sair adoecida. É isso. Todas as fases das nossas vidas têm desafios. Quando eu estou em atendimento sempre trabalho isso.
Você, enquanto mãe e psicóloga, já viveu momentos de conflito entre suas responsabilidades maternas e profissionais? Como foi esse processo para você e de que forma sua vivência pessoal influenciou sua compreensão sobre a maternidade?
Eu sou mãe de um filho de 24 anos. Enquanto mãe, eu passei por um processo muito idêntico a tudo isso. Esse misto de sentimentos. Até porque a minha profissão, para mim, era algo que eu realmente cuidava, era algo que eu sonhava chegar além. Então, assim, eu me inclinei muito para isso. Eu desejei meu filho, planejei ele, aí quando chegou eu me deparei com toda aquela situação, de que eu precisava doar mais do meu tempo, da minha disponibilidade. Então, eu vivi a minha maternidade nesse conflito. Não deixar de trabalhar foi algo que eu fiz. Por isso que eu acredito muito que você pode ser uma mãe e, na verdade, você pode ser quem você quiser ser, sendo uma mãe. Até porque nós somos mães porque somos mulheres. Então, eu vivi esse conflito. E sim, algumas vezes, me senti culpada, porque o meu trabalho demandava viagens, eu precisava deixar o meu filho, muito pequeno. Mas confesso a você que, em alguns momentos dessa fase do meu filho, eu, depois de uma maturidade, senti falta. Vejo que devido também à não compreensão total da maternidade, de entendê-la um pouco melhor. Isso me gerou um pouco de frustração em algum momento. Eu poderia ter permanecido um pouco mais na situação de mãe. Vendo isso hoje e, de fato, é com maturidade essa relação de vínculo com um filho. Hoje eu tenho um vínculo enorme com meu filho, mas isso diz respeito a mim, somado àquilo que eu senti falta, em determinada fase, e também da sobrecarga mental. “ Ela não gesta só um bebê. Ela gesta a história de vida dela, traumas… E eles vão ressurgindo. As emoções estão totalmente alteradas. São muitos acontecimentos”
Ainda hoje, muitas mulheres enfrentam dificuldades para falar sobre a sobrecarga materna, sendo frequentemente taxadas de vitimistas quando expressam cansaço ou angústia. Por que a sociedade tem dificuldade em reconhecer a complexidade da maternidade e o impacto que ela tem na saúde mental das mulheres?
É aquela fala de que “a mãe sempre dá conta de tudo”. Afinal de contas o bebê fica totalmente dependente dessa mãe, devido à amamentação. O quão importante é que o pai não “seja incluído” e, sim, que faça parte nisso tudo, ao lado da mãe? Não é porque a mãe tem uma tarefa um pouco maior do que a do pai, que a criança não precisa ser cuidada por ele. Mas, de fato, existe essa culpa materna, de sentir todo esse turbilhão de sentimentos e não conseguir se expressar. Na verdade, a mulher tem essa dificuldade de se expressar porque ela tem medo de ser julgada. Quantas vezes ouvimos esses ditados de que o “amor de mãe basta”? Tem muito disso na nossa sociedade. Então, de fato, eu acho que falta um olhar mesmo nosso, enquanto sociedade. Precisamos aderir esse olhar para que essa mãe possa realmente se sentir menos cobrada.
Qual conselho você daria para as mães, sejam elas de primeira viagem ou não, que enfrentam dificuldades e se sentem sobrecarregadas? Como elas podem construir uma maternidade mais saudável e alinhada com seus próprios valores?
A maternidade é saudável. O que eu diria para essas mães é que elas busquem compreender o sentido verdadeiro da maternidade. Que elas possam responder a esse chamado de ser mãe de forma leve, enfrentando esses desafios, as críticas – porque existem muitas críticas – e superando dia após dia. Porque um dia de cada vez da maternidade não é fácil. Mas, com certeza, se ela está fazendo o melhor que pode fazer, que ela continue fazendo e não receba as críticas. Saiba filtrar isso, de uma forma que não possa impactá-la mentalmente. Não se permita perder você de você mesma. Isso é extremamente importante, pois isso gera muito, mas muito sofrimento. Que ela possa continuar sonhando, realizando as coisas, mesmo sendo mãe. E que construa a maternidade dela naquilo que ela acredita mesmo. Não precisa ser essa mãe que uma sociedade impõe. Ou comparar sua maternidade com uma outra mulher. Mas que ela possa apenas seguir seu coração, essa intuição de que ela está fazendo o melhor, que ela está cuidando do filho dela da melhor forma possível. Porque sim, é possível que ela escolha como quer passar por esse processo. A maternidade não precisa ser perfeita, de maneira nenhuma. Acho que se a gente partir disso, fica muito mais leve. E, é claro, que essa mulher se permita respeitar os limites dela e, quando ela achar que é necessário, que busque ajuda e não se sinta envergonhada. Hoje nós temos meios de poder se ajustar melhor, regular as emoções, por meio de um atendimento psicológico pré-natal. Existe o pré-natal tradicional, mas também o pré-natal psicológico. Então, ela precisa entender que possui um lugar onde pode falar e ser ouvida, que ela pode se sentir mulher. Então, que ela não espere. É possível ela verdadeiramente viver uma gestação da melhor forma possível, não deixando isso ser uma sobrecarga a ponto de adoecê-la.

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