Ministra cobra combate à misoginia e resgata memórias de mulheres apagadas na ciência

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Durante palestra feita na Semana do Conhecimento da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, fez um pronunciamento sobre a persistência da desigualdade de gênero, a violência contra a mulher e o apagamento histórico das contribuições femininas na ciência e na política. O evento reuniu estudantes e professores no campus de Cuiabá, em um momento em que dados locais, como os do Instituto Caliandra, revelam a urgência do debate em Mato Grosso, onde quarenta mulheres já foram mortas em 2026.

 

“Apesar de termos uma Constituição que garante direitos iguais, nós não vivemos num mundo em que a igualação já se fez”, afirmou, lembrando os 38 anos do texto constitucional. “Nós somos uma sociedade muito preconceituosa no Brasil, uma sociedade machista, uma sociedade em que a misoginia permeia todas as relações”, pontuou nesta terça-feira (13).

 

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A palestrante alertou para o fato de que a exclusão feminina se manifesta até mesmo nos espaços de produção do conhecimento científico, um campo historicamente impermeável às mulheres. Para ilustrar a discriminação institucional e a apropriação do trabalho feminino, citou episódios marcantes da história global.

 

Ao mencionar a física e química Marie Curie, pioneira no estudo da radioatividade e única pessoa a receber o Prêmio Nobel em duas áreas científicas distintas, Rosalind Franklin, cujo trabalho fundamental por difração de raios-X para a descoberta da estrutura do DNA, e de Jocelyn Bell, que descobriu os pulsares e viu seu supervisor ser laureado em seu lugar.

 

“Nós temos uma dezena de casos como este na ciência, em que as mulheres tinham trabalhado, conseguido, a duras penas, chegar aos mesmos espaços, e não são reconhecidas”, observou.

 

O apagamento das mulheres, segundo a ministra, não se restringe à ciência internacional, mas atravessa a própria construção da história do Brasil. Ela citou heroínas da independência e dos movimentos emancipatórios, como Hipólita Jacinta e Bárbara de Alencar, que foram sistematicamente omitidas dos registros oficiais.

 

Já ao abordar a alarmante violência física que assola o país, a magistrada foi enfática ao caracterizar o feminicídio como reflexo direto da desigualdade de gênero.

 

“Uma sociedade que mata uma mulher a cada menos de seis horas por ser mulher é uma sociedade de desiguais. […] Eu, no início do ano, dizia para um grupo de mulheres: ‘melhor a gente avisar para os homens, parem de nos matar, porque nós resolvemos parar de morrer’, porque não param de matar a cada dia e com uma violência cada vez maior”, denunciou.

 

Tratando dos direitos políticos, da representatividade institucional e do papel da educação, a ministra salientou que, embora as mulheres sejam maioria da população e do eleitorado, continuam sendo minoria no acesso a direitos efetivos e a cargos de liderança, inclusive no meio acadêmico. Por fim, reforçou que o conhecimento e a participação democrática plena, sem preconceitos e com respeito à pluralidade, são os caminhos fundamentais para a transformação social.

 

“Não vamos chegar nunca a uma democracia se alguém achar que vai perder o voto. […] Democracia é assim, democracia se faz com a pluralidade que é característica de um povo como o nosso, o povo brasileiro”, concluiu.

 

Além das barreiras históricas, o cenário atual impõe novos desafios decorrentes do avanço de discursos que tentam relativizar conquistas femininas fundamentais. Recentemente, correntes ultraconservadoras voltaram a questionar direitos consolidados há quase um século, como o sufrágio feminino, além de disseminarem narrativas que alegam a suposta ineficiência da Lei do Feminicídio ou sustentam o falso argumento de que o crime “não existia” antes da tipificação legal.

 

Esse negacionismo ignora que o assassinato de mulheres por razões de gênero sempre foi uma dura realidade social, mas permanecia subescrito, invisibilizado pelas estatísticas oficiais e tratado sem a devido enquadramento analítico e penal. Os dados estaduais reforçam a gravidade desse retrocesso discursivo frente à realidade dos fatos.

 

O Instituto Caliandra, do Ministério Público estadual (MPMT), revelou que 40 mulheres já foram assassinadas este ano, aproximando-se da trágica marca de 57 vítimas registrada em todo o ano passado. Esses números evidenciam que, enquanto grupos políticos e de redes sociais tentam esvaziar a relevância das leis de proteção à mulher, a violência de gênero permanece em patamares alarmantes, exigindo a manutenção vigilante dos direitos conquistados e o fortalecimento de mecanismos de combate à misoginia.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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