
O Castelo de Glamis tem uma história rica. Considerado o castelo mais assombrado da Escócia, ele já hospedou Maria Stuart, Rainha da Escócia, e possui fortes ligações com a família real britânica. Diz-se também que inspirou a tragédia “Macbeth”, de William Shakespeare.
Mas talvez uma de suas ofertas mais atraentes seja o que se encontra nas profundezas de sua adega, descrita por um especialista como uma “caverna de Aladim”.
Durante quase um século, garrafas de vinho de Bordeaux, antes consideradas impróprias para consumo, permaneceram escondidas no castelo escocês.
Leia mais – Filme selecionado em edital da TV Brasil vence festival internacional; melhor longa
Hoje, seu conteúdo é considerado um dos melhores — e mais valiosos — do mundo. Agora, duas garrafas magnum do Château Lafite Rothschild 1870 foram vendidas pelo valor recorde de US$ 306.250.
As duas garrafas foram peças centrais do leilão “Immortal Vintages” da Sotheby’s em 17 de abril e consideradas “lendárias” por especialistas.
A primeira garrafa magnum estabeleceu um novo recorde mundial para sua idade e formato, sendo vendida por US$ 106.250.
Pouco depois, a segunda garrafa quebrou novamente o recorde mundial, alcançando US$ 200.000 em quase quatro minutos de lances entre compradores interessados por telefone e online, informou a Sotheby’s em um comunicado.
Descrito pela Sotheby’s como “uma venda histórica de um único proprietário”, o leilão, em sua totalidade, foi composto por mais de 250 lotes de vinhos de Bordeaux, abrangendo dois séculos, e arrecadou mais de US$ 2 milhões.
Descobertas na adega do Castelo de Glamis na década de 1970, as duas garrafas magnum tinham uma expectativa de venda de até US$ 50.000 cada, quando foram leiloadas em Nova York.
O Castelo de Glamis, situado no leste da Escócia, a cerca de 19 quilômetros de Dundee, é a residência ancestral dos Condes de Strathmore e Kinghorne desde 1372. O porão do castelo, apelidado de “catacumbas”, foi equipado em 1765 para John, o 9º Conde de Strathmore.
Segundo Ingrid Thomson, arquivista do Castelo de Glamis, a adega é atualmente usada “para armazenamento geral e materiais de limpeza”, mas, durante as décadas em que abrigou as garrafas há muito esquecidas, a história estava sendo feita nos andares superiores.
A mãe da falecida Rainha Elizabeth II, Elizabeth Bowes-Lyon, cresceu no Castelo de Glamis antes de se casar com o futuro Rei George VI em 1923. A filha mais nova do casal — e irmã da Rainha Elizabeth —, a Princesa Margaret, nasceu em Glamis.
“As princesas passaram muitas férias felizes em Glamis, e temos cartas de ‘Lilibet’ para seus avós agradecendo pelas estadias em Glamis”, disse Thomson.
As duas garrafas magnum, provenientes da propriedade Château Lafite Rothschild, de Bordeaux, França, foram descobertas quase por acaso. Elas estavam entre 42 garrafas encontradas pouco antes de um leilão da Christie’s em 1971, intitulado “Os Vinhos Mais Finos e Raros de Adegas Particulares”.
Michael Broadbent, o falecido fundador do departamento de vinhos da Christie’s, disse ter encontrado as garrafas de Lafite de 1870 quando visitou o castelo pela primeira vez. O livro de registos da adega mostrava que o 13º Conde de Strathmore tinha comprado 48 garrafas de Lafite de 1870 e as tinha armazenado na adega em 1878.
“O vinho era tão adstringente que ele não gostou e, quando morreu… o vinho estava praticamente intocado, e seus sucessores simplesmente o deixaram”, escreveu Broadbent sobre seu relato, que está no site da Christie’s.
“Na verdade, levou 50 anos para ficar suficientemente macio para beber, e já tinha um século de idade na época da minha visita e do acordo para vender todo o vinho antigo do Castelo de Glamis.”
Broadbent decidiu que seria “prudente” provar o vinho antes da venda, escreveu ele. “O nível estava perfeito, a rolha intacta, a cor do vinho impressionantemente profunda, o aroma impecável — sem qualquer traço de oxidação ou acidez, e o equilíbrio e o sabor perfeitos.”
Richard Young, chefe de vendas de vinhos em leilão da Sotheby’s para as Américas, explicou em um e-mail à CNN o status “lendário” da safra. “Quando a adega foi redescoberta e leiloada em 1971, as garrafas surgiram em condições notavelmente impecáveis — uma sobrevivência quase inédita para vinhos dessa idade”, disse ele.
“É importante destacar que as garrafas dessa adega que foram abertas posteriormente são amplamente consideradas os exemplares mais bem preservados do Lafite de 1870, conferindo-lhes um status quase de referência entre os colecionadores.”
Estilo de vinificação ‘perdido’
Parte do que a torna tão especial é o fato de ser anterior à epidemia de filoxera do final do século XIX, quando pequenos insetos atacaram as raízes das videiras.
“A praga varreu os vinhedos da Europa, incluindo Bordeaux, e destruiu vastas áreas de vinhas ao se alimentar de suas raízes”, disse Young.
“A solução a longo prazo foi enxertar vinhas europeias em porta-enxertos americanos resistentes, uma prática ainda utilizada hoje em dia. No entanto, isso alterou fundamentalmente a biologia da vinha, e muitos acreditam que modificou o caráter dos vinhos. Vinhos pré-filoxera, como o Lafite de 1870, são, portanto, valorizados porque foram feitos a partir de vinhas originais, não enxertadas, oferecendo um vislumbre de um estilo ‘perdido’ de vinificação.”
Segundo Young, vinhos de safras como 1870 e 1865 aparecem em leilão apenas uma ou duas vezes por década e estão se tornando “extremamente raros” — enquanto os formatos magnum, que contêm 1,5 litro de vinho, são ainda menos comuns.
‘A caverna de Aladim’
Jason Tesauro é sommelier, escritor e fotógrafo, e conhecia Broadbent.
“Ele chamou aquilo de caverna de Aladim”, disse Tesauro sobre a descrição que Broadbent fez de Glamis, acrescentando: “Essa safra única, esquecida em uma adega que também era única, levou a uma descoberta única na vida”.
Tesauro disse que provou um Lafite de 1870 em um evento apenas para convidados em 2023.
“Tenho uma memória sensorial desse vinho em particular, o que não acontece com todos os vinhos, mesmo os excelentes.”
“Havia vinhos naquela mesa que seriam os melhores vinhos que outras pessoas já viram em suas vidas, e ainda assim foram completamente ofuscados pelo de 1870”, disse ele à CNN.
“É como apreciar Sophia Loren aos 90 anos”, acrescentou. “Você não a admira pela beleza de 19 anos. Você procura as linhas marcadas pela experiência em seu rosto. Então, o que esse vinho tinha, que foi um choque completo para todos nós, era que ainda podíamos sentir o aroma da fruta.”
“Abrir as cortinas e ainda ver o que estava lá — não ecos, não sombras — mas ainda assim receber informações diretas das frutas e das cores foi extraordinário.”
Tesauro afirmou que esse tipo de leilão, que também contou com um Château Lafite ainda mais antigo, de 1865 (vendido por US$ 40.000), atrai dois tipos de licitantes: aqueles que guardarão o vinho em uma prateleira como parte de uma coleção e aqueles que “são tão apaixonados” que “querem experimentar o que estava acontecendo no mundo em 1870”.

Faça um comentário