Último prefeito biônico de Cuiabá, Anildo fez transição para democracia e duplicou a Fernando Corrêa – vídeos

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Ex-prefeito de Cuiabá Anildo Lima de Barros

Último prefeito biônico de Cuiabá,  nomeado durante o regime militar, o empresário Anildo Lima de Barros, hoje com 74 anos, assumiu a liderança da Capital num momento crucial de transição entre a ditadura e a redemocratização do país. Entre os marcos de sua gestão está a duplicação de parte da Avenida Fernando Corrêa e programa de regularização fundiária urbana. No entanto, seu mandato também foi marcado por controvérsias: ao revisar a planta genérica de valores, com o objetivo de reforçar a arrecadação do município, enfrentou duras críticas devido ao expressivo aumento no valor do IPTU.

Nascido em Santo Antônio do Leverger, ele se diz cuiabano de coração e, à época, aos 31 anos, foi o prefeito mais jovem a assumir uma Capital e era chamado de caçulinha pelos demais prefeitos. “Mário Covas (ex-prefeito e ex-governador de SP já falecido) chamava: ‘ô Cuiabaninho, vem sentar aqui do meu lado, vem aprender’. Lógico que eu ia aprender, eu com a cidadezinha pequenininha e ele com São Paulo, eu só tinha que aprender”, relembra Anildo aos risos, em entrevista especial ao em comemoração aos 306 anos da cidade, celebrados nesta terça (8).

Demóstenes Milhomem

Então prefeito de Cuiiabá, Anildo Lima de Barros concede entrevista no Palácio Alencastro em 1983

O empresário revela que foi pego de surpresa com o convite do amigo de infância e então governador Júlio Campos, hoje deputado estadual pelo União, para administrar a cidade que já tinha pouco mais de 280 mil habitantes. Antes da posse, seu nome passou pelo crivo da Assembleia, que chancelou a escolha de Júlio. Anildo governou de 16 de março de 1983 a 31 de dezembro de 1985.

“Eu fui coordenador financeiro [da campanha], elegemos ele [Júlio], elegemos o senador Roberto Campos, enfim. E, depois disso, terminou a eleição, eu fui para o Rio de Janeiro. Um dia, ele [Júlio] me telefona e falou assim: ‘vem para Brasília, que eu preciso de você em Brasília’. Eu falei, o que está acontecendo? O que eu tenho a ver com Brasília? E Ele: ‘Vem, eu preciso falar com você’.  Aí eu desci, cheguei em Brasília, estava lá o Frederico Campos, ex-governador, estava o Júlio Campos, estava o deputado federal Mação Tadano. O Roberto Campos tinha vindo comigo no mesmo avião e aí começaram a me chamar de prefeito”, conta – assista.

Perguntado sobre como era a Cuiabá de 1983, Anildo reflete que assumiu uma cidade que cresceu desordenadamente, de forma esparramada e que praticamente não tinha receita própria. Os gargalos, segundo ele, eram múltiplos como a demanda por asfalto, limpeza, melhoria da saúde e da educação. “Nós dependíamos umbilicalmente do governo estadual e do governo federal porque a receita mal dava para pagar as despesas diárias”, conta, dizendo que a saída era ir à Brasília com o pires na mão. À época, rememora, ele teve a ideia da fundação da Associação Mato-Grossense dos Municípios (AMM), presidida por ele. Criação se deu em 4 de maio de 1983.

Diante da situação adversa, Anildo conta que precisou apelar para o remédio amargo, realizando a atualização da planta genérica, o que não acontecia há mais de 15 anos, o que impactou em alto aumento do IPTU, chegando a 1000% em alguns casos. Medida teve o aval da Câmara que, à época, tinha 19 parlamentares. “Eu fui pra cima do IPTU, até lancei um slogam: ‘Põe o prefeito na rua, o IPTU subiu 1000%”, diz, frisando que a ideia era a população entender que ele precisava de dinheiro para fazer as ações de asfalto, limpeza, entre outros. A medida, reconhece ele, foi impopular, mas trouxe benefícios positivos para a receita da cidade. A maior elevação, segundo Anildo, atingiu os mais abastados.

“Parece que arrecada hoje R$ 400 milhões. Naquela época, nosso orçamento era Cr$ 150 milhões (Cruzeiros). Então, você imagina a diferença, eram Cr$ 150 milhões, o orçamento todo da prefeitura. Não só do IPTU”.

Gargalos e avanços Rodinei Crescêncio/Rdnews

Ex-prefeito de Cuiabá Anildo Lima de Barros concede entrevista à jornalista Patrícia Sanches

Segundo o ex-prefeito, Cuiabá já tinha 280 mil habitantes e já vivia problemas como estrangulamento do trânsito e do transporte coletivo. Por isso, entre as suas ações estão a abertura de ruas e avenidas, além da duplicação da Fernando Correa até a UFMT, numa parceria com o governo Júlio Campos.

“Aí nós fizemos o trabalho nos bairros, por exemplo, fizemos o asfaltamento no Córrego Mané Pinto [Avenida 8 de Abril} e o Córrego do Barbado – nós fizemos o saneamento do córrego e asfaltamos as duas pistas. Então, começamos a abrir a avenida, ver formas de fluir melhor o trânsito. Já tinha problema com o transporte coletivo, que perdura”. Ele pondera que isso ocorre porque a cidade cresceu de forma desordenada e esparramada, dificultando as ações do Poder Executivo.

Com intuito de organizar e garantir direito de posse da população, ele conta que implantou o programa Terra da Gente, programa Protege, que possibilitou a emissão de títulos em vários bairros de Cuiabá. “Regularizei vários bairros, mas as invasões continuam até hoje, e esse programa continua aí”, reflete.

Também implementou o programa Viver Melhor Cuiabá, que levava um mutirão de limpeza para os bairros e ouvia as demandas populares. Além disso, promoveu a construção de uma grande quantidade de campos de futebol.

Ditadura e transição para a democracia

Para Anildo, a ditadura deixou também um legado positivo para o Brasil, que evoluiu muito, especialmente nas áreas da infraestrutura e telecomunicações. Ele reflete que houve avanços importantes também na economia e na expansão do país. “Nós não teríamos a telecomunicação que temos hoje se não fosse o governo militar”. Ainda segundo ele, existiam muitas pessoas sérias dentro da gestão tocada pelo Exército. “Eu acho que foi um período necessário para o país. É claro que eu não quero ditadura, eu sou democrata e acabou”

Ele reconhece, entretanto, que o período deixou para trás danos, como os casos de tortura, mas entende que isso era reflexo de uma pequena parcela que “desvirtuou” e distorceu o regime. “Os generais, eles tinham uma missão. Mas aí cai na base, o brasileiro tem a mania e distorcer tudo. Essa é a realidade. A ditadura foi ficando e começou já as brechas com os novos elementos. Como tem em todo segmento, a ditadura tinha também uns péssimos elementos, como tem hoje na democracia, como tem hoje em todos os governos. Você não consegue fazer unanimidade para o bem.”

Sobre o processo de transição na Capital, Anildo explica que, inicialmente teria um mandato de quatro anos, mas que ele reduziu para três após Ulysses Guimarães (MDB) promulgar a Constituição Cidadã. Com isso, Anildo deixou a prefeitura em 31 de dezembro de 1985, sendo sucedido por Dante de Oliveira – que já havia ficado conhecido em todo o país por causa do movimento Diretas Já que, embora não tenha sido aprovado, foi “pinçado” e incorporado na Constituição Cidadã – assista.

Anildo relembra que deixou engatilhado para o sucessor um grande projeto de pavimentação que, na sua ótica, ajudou a alavancar o nome de Dante para o Palácio Paiaguás – governando MT entre 1995 e 2002 – veja

Desistência da vida pública

Anildo conta que desistiu de continuar na vida pública por exigência da sua família. Ele se recorda que, quando entrou na prefeitura, o filho Alan tinha apenas um ano e que, quando saiu, ele praticamente não reconhecia mais o pai. “Vivia seis horas da manhã até onze horas da noite na rua. E aí eu comecei a perceber que tinha deixado minha família de lado. Aí fiz essa opção de continuar na vida empresarial. O que eu pude fazer com a minha querida cidade eu fiz e, graças a Deus, eu pude fazer muita coisa, apesar de pouco tempo”.

Apesar disso, ele revela que continuou participando da política em alguns momentos, tendo auxiliado na fundação do PP em Mato Grosso e também foi candidato a suplente na chapa liderada por Carlos Bezerra ao Senado, numa dobradinha com Júlio Campos ao governo em 1998. Ambos, até então eram adversários políticos e acabaram sendo derrotados. Foram eleitos Dante de Oliveira ao governo e Antero Paes de Barros ao Senado. “Como que pode duas pessoas que são extremamente radicais, um contra o outro, adversários radicais, ai une e o povo não entendeu”, reflete Anildo – assista

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