Tu aceitaria?

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A janela da sala de minha casa dá para as janelas da sala de um outro prédio. Moro no primeiro andar e posso assistir, como se cinema fosse, à vida dos vizinhos do primeiro e do segundo do lado de lá. E não é só a sala não. A cozinha e a área de serviço estão a uma inclinadinha de pescoço. Mas eu gosto mesmo é da sala.

 

Tenho dois personagens favoritos: o moço sem camisa e a tarada das janelas limpas. Antes que vocês pensem que o conteúdo descamisado me interessa, vou logo dizendo que se trata de um buchinho de cerveja dos estabelecidos há décadas. O negócio é a resistência térmica. Semana passada fez 9 °C aqui em São Paulo, eu tomando café, às 6h30 da manhã, e lá vem ele abrindo as cortinas. Camisa zero, free the nipples. Tem outra coisa também: ele só escuta Capital Inicial ou Guns N’ Roses, diga a meteorologia o que disser.

 

A única vez que vi esse homem vestido foi quando nos encontramos fora dos apartamentos, na esquina da Angélica com a Alagoas. Ele passeando com o cachorro e eu indo ao supermercado. A surpresa foi tamanha que nos cumprimentamos. Primeira e última vez. Uma simpatia movida a susto e deslocamento de expectativa. Nunca tinha pensado na vida do homem fora de casa.

 

Já a tarada da janela limpa, vejo com frequência. A gente faz musculação na mesma academia. No começo, eu tinha uma sensaçãozinha de “já vi essa mulher em algum lugar”. Será âncora de jornal? Uma dentista do plano? A moça da barraca da feira? Até que comecei a prestar atenção no treino: só braço e costas, só braço e costas. Um dia veio o estalo: é ela! Diariamente, minha gente, diariamente, essa mulher estica um pano no rodo, se pendura toda e limpa cada milímetro da janela. E isso porque o apartamento passa o dia todinho de cortina fechada. Não entendo.

 

Tudo isso porque assisti a O Convite semana passada no cinema. Vocês viram? Sem dar spoilers, é um filme sobre a relação de dois casais vizinhos, os incômodos e as curiosidades que uns causam nos outros. Vizinhos bem-apessoados, por assim dizer, uma delas é a Penélope Cruz, tu entende? Pois que fiquei pensando no filme e nos meus vizinhos. Na certeza de que, do lado de cá, eu não aceitaria esse convite não. E vocês? Como anda a vizinhança por aí?

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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