Queda dos homicídios em MT é ilusão de segurança, critica especialista: “Estado vende populismo penal”

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Nos primeiros seis meses de 2025, Mato Grosso apresentou queda no número de homicídios dolosos – quando há intenção de matar -, se comparado com mesmo período no ano passado, saindo de 535 para 385 casos. O governador Mauro Mendes (União) atribui a queda de 28% nas mortes violenta ao Programa Tolerância Zero contra as facções criminosas, lançado em novembro do ano passado. Para a criminóloga Vládia Soares, no entanto, a queda dá apenas uma “ilusão de segurança” e os números seguem longe do ideal.

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Professora de Direito e de mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso e membro da Liga Acadêmica de Criminologia e Execução Penal (Lacep) da UFMT, Vládia explica que, com o Tolerância Zero, o Estado vende um “populismo penal”. Isso porque ataca o problema e não foca em uma solução a longo prazo. “A gente só acaba com a criminalidade quando se tem uma base social forte. Educação, Saúde, acesso a trabalho”, afirma a especialista, em entrevista ao .

Para ela, o governador Mauro Mendes (União Brasil) e o secretário de Estado de Segurança Pública, coronel César Roveri, “pegaram uma arma de fogo” e partiram para cima do problema, ação que agrada ao grande público, mas não sana a questão.

“Isso é o que eu chamo de populismo penal, porque é o que as pessoas querem ver. As pessoas querem ver isso, o famoso ‘bandido bom é bandido morto’. É isso que vende”, salienta. “ A gente só vai conseguir realmente acabar com esses homicídios, com essas guerras de facções, quando o Estado começar a agir com educação, com saúde, com ações sociais. Não é armando o policial penal, armando o policial militar. Não é isso. A gente prende, mas a gente prende mal” Vládia Soares

Vládia analisa que o foco na queda do número de homicídios apenas mascara como Mato Grosso continua sendo um estado violento. “Segurança se consegue quando você vai num lugar em que as pessoas te falam: ‘os homicídios aqui, no país inteiro, foram seis por ano’. No Brasil, são quase 38 mil. Em Mato Grosso, foram mais de 800 no ano passado”, salienta, citando o número total de homicídios dolosos registrados no estado ao longo de 2024.

“A gente só vai conseguir realmente acabar com esses homicídios, com essas guerras de facções, quando o Estado começar a agir com educação, com saúde, com ações sociais. Não é armando o policial penal, armando o policial militar. Não é isso. A gente prende, mas a gente prende mal”, acrescenta.

A criminóloga complementa que apenas o trabalho ostensivo não resolve o problema e reafirma a necessidade de investir em educação e saúde como forma de realmente minar o poder das facções criminosas e a influência que elas detêm na sociedade – principalmente sobre a parcela mais carente da população.

“Colocar mais policiais nas ruas não vai acabar com homicídios, tráfico de drogas e outros crimes. Não vai. O que vai acabar é o investimento em escola, em saúde, a gente não deixar as pessoas na fila da UPA, não deixar as pessoas na fila do hospital. Isso aí realmente acaba com as facções, porque a facção entra onde o Governo falha”, afirma.

“Então, a partir do momento que o Mauro Mendes ou quem seja fala assim: ‘Nós estamos acabando com a guerra de facções’. Não está. Os chefes estão presos, mas e os que estão soltos?”, questiona.

A criminóloga dá o exemplo de uma mãe, moradora de uma comunidade carente, que precisa de ajuda para realizar a cirurgia do seu filho. “A criança está à beira da morte e ela precisa esperar uma vaga no SUS para fazer a cirurgia. Aí chega a facção e paga o tratamento do filho dela. Ela vai ficar amiga de quem? Da facção”, lamenta. Arquivo pessoal

Professora de Direito e de mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso, Vládia Soares

Brasil prende mal

Conforme Vládia, que também é consultora do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Penitenciário de Mato Grosso do Tribunal de Justiça (GMF/TJMT), o Brasil prende muito mal e o Programa Tolerância Zero apenas aumentou o problema, já que reduz as chances de ressocialização dos presos.

“Achar que alguns desses líderes de facções não vão sair é viver no mundo da ‘Alice no País das Maravilhas’, porque eles vão sair. Nós temos progressão de pena, então vai chegar uma hora que eles vão sair”, salienta.

Ela defende que criminosos de tal grau de periculosidade não poderiam sair da cadeia e voltar ao convívio da sociedade, mas como o Brasil não tem prisão perpétua e para instaurar esse regime seria necessária uma Assembleia Constituinte, a solução continua sendo investimento em educação.

“Eu acho que eles não deveriam sair. Acho que existem pessoas que não devem voltar ao convívio da sociedade, porque não estão aptos e vão correr risco de vida. Mas a gente só acaba com a criminalidade quando você tem uma base social forte. Educação, saúde, acesso a trabalho”, conclui.

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Link da Matéria – via RD News

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