
Coronel Vânia Rosa
Falar sobre qualidade de vida no trabalho não é, para mim, apenas um tema acadêmico ou um debate de gabinete — é resultado de anos de experiência prática, de olhar nos olhos de servidores esgotados, e perceber que poderíamos ter prevenido boa parte daquele sofrimento.
Meu artigo científico, publicado em revista especializada , nasceu dessa vivência enquanto coordenadora do serviço social da Polícia Militar. Presenciei diariamente policiais chegando a um ponto de desgaste físico e mental tão avançado que o retorno à saúde se tornava difícil. Vi atestados médicos se acumularem, observei carreiras sendo interrompidas e vidas sendo impactadas. Mais do que números, eram histórias de homens e mulheres que dedicaram a vida a servir, mas não encontravam o suporte necessário para se manterem bem.
A pesquisa revelou que ações de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), quando bem aplicadas, geram resultados concretos tais como: diminuição de afastamentos por entrega de atestados médicos, maior produtividade, melhor atendimento ao público e servidores mais motivados. Porém, também evidenciou entraves como: resistência cultural, carência de profissionais especializados, falta de recursos e a fragilidade de políticas que se perdem a cada troca de gestão. Não basta ter boas iniciativas — é preciso institucionalizá-las, blindando-as de vaidades ou disputas políticas.
“ Seja na segurança pública, no serviço público em geral ou na iniciativa privada, precisamos compreender que qualidade de vida no trabalho não é um luxo — é uma necessidade estratégica para qualquer organização que queira prosperar e servir bem à sociedade.”
No contexto do Agosto Lilás, que reforça o combate à violência contra a mulher, não posso deixar de refletir sobre um recorte importante: a mulher que trabalha fora do lar. Hoje, a maioria de nós acumulamos jornadas e papéis sociais em excesso — o expediente profissional e as responsabilidades domésticas e sociais de mãe, filha, esposa e todo tipo de socorro acolhedor. Essas performances exige-nos uma força física e emocional imensa, e, muitas vezes, nos coloca bastante expostas ao estresse, à ansiedade e até à violência psicológica. Não buscamos estar no espaço do homens, mas sim conquistar nossos espaços e exercer plenamente nossas funções, sem abrir mão da nossa saúde e dignidade. Para isso, a QVT também precisa ter um olhar sensível às especificidades femininas, compreendendo que equidade exige ajustes reais na prática.
Nesse primeiro semestre , no Congresso Mato-Grossense de Recursos Humanos, essa visão foi reforçada. Palestras e debates mostraram que empresas e órgãos que investem no bem-estar de seus colaboradores colhem resultados superiores. Não se trata de “mimo” ou benefício supérfluo — é ciência, é estratégia, é retorno garantido. Aprendemos sobre o impacto positivo de lideranças humanizadas, que ouvem, interagem e se preocupam genuinamente com sua equipe. Falamos sobre o papel do autocuidado, sobre a prevenção ao esgotamento e sobre como pequenas pausas, ambientes acolhedores e programas de saúde mental podem transformar uma instituição inteira.
A minha conclusão é simples, mas urgente: quem cuida, também precisa ser cuidado. Seja na segurança pública, no serviço público em geral ou na iniciativa privada, precisamos compreender que qualidade de vida no trabalho não é um luxo — é uma necessidade estratégica para qualquer organização que queira prosperar e servir bem à sociedade.
E como mulher, profissional e gestora, reafirmo que não podemos falar de prevenção, produtividade ou segurança sem falar também de respeito, de equidade e de ambientes de trabalho que compreendam as diferentes realidades que cada colaborador carrega consigo. Investir nisso não é gasto — é garantia de um futuro mais humano, justo e produtivo para todos.
Coronel Vânia Rosa é vice-prefeita de Cuiabá.

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