
Considerada a primeira via de Cuiabá, a Rua 27 de Dezembro, mais conhecida como “Beco do Candeeiro”, foi palco de acontecimentos históricos e emblemáticos para o desenvolvimento da Capital. Com quase a mesma idade da cidade, esta foi a primeira rua a receber iluminação em Mato Grosso, abrigou famílias tradicionais da cuiabania, foi palco de assassinato que comoveu o estado, quando 3 menores foram mortos ali em julho de 1998. O crime ficou conhecido como “a chacina do Beco do Candeeiro”.
Ao , o memorialista e atual diretor do Museu de Imagem e Som de Cuiabá, Francisco Chagas, conta que a rua teve sua origem devido à descoberta do ouro na localidade, algo que propiciou o povoamento da região. Logo, ficou conhecida como “Beco do Candeeiro” pela quantidade dos objetos utilizados na iluminação da via pública.
“Com a descoberta do ouro na Prainha, que ficou conhecido como a ‘Lavra do Sutil’, houve o surgimento da primeira rua, com a concentração de pessoas aqui em Cuiabá. As pessoas garimpavam em torno do que era chamado na época de ‘buracão’, que fica entre o Morro da Luz e a Igreja do Rosário, um declive. Foi exatamente lá onde aconteceu o garimpo de Miguel Sutil”, explica.
Francisco narra que na primeira metade do século XIX os candeeiros eram acesos com azeite de lambari. “No Rio Cuiabá, ou na prainha mesmo, se pegava uma quantidade muito grande de peixe, cozinhavam e depois extraiam o azeite que era para iluminar essas casas. […] Havia também pessoas que todas as noites acendiam os lampiões que ficavam nas ruas”, conta. Acervo Francisco Chagas
Outro marco histórico também relacionado a iluminação pública data de 1919, quando esta também foi a primeira rua iluminada por energia elétrica no estado. “A energia vinha lá do Rio da Casca, na região da Chapada e a central elétrica ficava no Morro da Luz. Por isso o morro tem esse nome, porque lá que ficava a central que distribuía energia para toda Cuiabá e de lá iluminou o Beco do Candeeiro”, descreve. Acervo Francisco Chagas
Já o nome 27 de Dezembro relembra a Guerra do Paraguai. De acordo com registros oficiais, a rua recebe este nome em como marca da data em que ocorreu o ataque das forças paraguaias ao Forte de Coimbra em 1864, durante a Guerra do Paraguai. O episódio ficou marcado na história como um ato de bravura do exército brasileiro, retardando a investida paraguaia, que pouco tempo depois alcançou o território nacional, em 29 de dezembro.
A rua é também tombada como elemento urbanístico num conjunto pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN), pela Secretaria de Estado da Cultura e pela Secretaria Municipal de Cultura. Acervo Francisco Chagas
Moradores ilustres
Dentre alguns dos moradores tiveram casas naquela rua, Francisco destaca o Padre Delfino César, pároco da Igreja do Senhor dos Passos, logo atrás do Beco. A família de Antíoco do Couto, dona de um casarão preservado e que até hoje pertence à família dele; além de nomes como Barão de Aguapeí, que foi presidente do estado.
“Naquele tempo não se chamava governador, o estado era província, então ele era o presidente do estado. Ele construiu um sobrado, que ficava ali onde hoje é a praça Dr. Alberto Novis. Nesse sobrado também teve vários comércios e nele também tinha o comércio da primeira mulher comerciante de Cuiabá, que se chamava Dona Euphrosina Hugueney Mattos”, recorda Francisco.
Popularmente, o local é conhecido como Praça Senhor dos Passos, pois fica atrás da igreja que leva o mesmo nome. Euphrosina foi casada com o vice-cônsul de Portugal, Joaquim de Matos, e após sua morte o sobrado passou por diversas mãos. A última ocupação que se tem notícia foi quando abrigou a sede do Partido PSD, do senador Filinto Müller.
“Depois, na década de 70, o sobrado desmoronou e em seu lugar construíram a praça em homenagem ao Dr. Alberto Novis, que foi o primeiro médico otorrinolaringologista de Cuiabá e ele era surdo. Sempre morou nesta região”, acrescenta.
Palco de tragédias
Um dos crimes mais conhecidos da cidade também ocorreu no Beco do Candeeiro, em um local conhecido como Bar do Quim Proença.
Já na década de 90, mais especificamente na noite do dia 10 de julho de 1998, ocorreu o episódio que ficou nacionalmente conhecido como “a chacina do Beco do Candeeiro”, em que 3 adolescentes foram assassinados a tiros e um quarto conseguiu fugir. Os 3 garotos mortos eram Adileu dos Santos, de apelido Baby, na época com 13 anos; Edgar Rodrigues de Arruda, o Indinho, de 15; e Reginaldo Dias Magalhães, o Nado, 16.
Conforme relato do sobrevivente, Edilson Alves Ferreira Júnior, na época com 16 anos, mais conhecido pelo apelido de “Verminose”, um homem chegou até eles e perguntou onde ficava o cabaré. Minutos depois, retornou ao local com pistola em mãos, atirando.
O caso chegou a ter diversos suspeitos, no entanto, com base no testemunho e no auto de reconhecimento feitos pelo garoto, um ex-policial militar foi acusado e julgado pelo crime, posteriormente inocentado pelo júri por falta de provas. A história virou livro do escritor Johnny Marcus, batizado de “Beco Sem Saída – A Chacina do Beco do Candeeiro 20 anos Depois”.
“O Beco do Candeeiro, como descrevo no meu livro reportagem, é ao mesmo tempo, símbolo maior da ascensão e queda de uma era de ouro. Foi no Beco que aconteceu o primeiro assassinato em Cuiabá. Um parricídio, quando um comerciante matou, por engano, o próprio pai, achando que fosse o amante da sua esposa, e foi lá que em 98, 3 menores foram executados. Até hoje não se sabe quem foi o executor ou o mandante. O Beco do Candeeiro é uma ferida aberta no coração do centro histórico de Cuiabá. Uma cicatriz que ainda sangra e que deve ser tratada como uma questão de saúde pública, direitos humanos e cultural”, cita Johnny.
Ainda em 1998, uma escultura foi feita no local pelo artista plástico Jonas Correa e inaugurada em 12 de outubro, data marcada como Dia das Crianças, como forma de protesto às condições subumanas em que crianças e adolescentes abandonados nas ruas viviam e em forma de memorial às vítimas do crime.
“A função da arte é essa, materializar o momento, a denúncia. Naquele momento da chacina houve apoio da sociedade, o agravante é que foram crianças. Não tinha como deixar passar sem ter algo que lembrasse isso. A ideia era um memorial para não ser esquecido e ser jogado para debaixo do tapete, independente de ter ou não apoio popular, ser bonito ou não. Como foi a primeira rua de Cuiabá e aconteceu ali, nada mais justo que ali fique um alerta para que não se repita”, refletiu. Mariana da Silva
Anualmente membros de entidades de direitos humanos se reúnem no local para cobrar justiça pelo crime e para debater questões relacionadas à dignidade das pessoas em situação de rua que habitam ainda hoje o centro histórico. Para a professora da UFMT e coordenadora do projeto Psicanálise na Rua, Adriana Rangel, a origem da Capital está interligada com o desenvolvimento do Beco do Candeeiro e suas mudanças sociais ao longo do tempo.
Ela explica que o beco está situado num território que no início da história de Cuiabá foi muito frequentado por trabalhadores escravizados, que faziam todo o trabalho pesado na beira do rio, na extração do ouro, e, portanto, uma região com uma história negra muito forte desde o início do período colonial.
“É um território atualmente desabitado, tem muitos casarões vazios e uma história ancestral naquele lugar ligada aos indígenas que foram dizimados, o sofrimento negro do povo escravizado, e depois o assassinato de crianças. A população de rua circula em torno da escultura. […] Então, você vê que isso ficou como um resíduo ligado a toda a história da colonização do Brasil”, explica.
Recuperação do Beco do Candeeiro
Uma das promessas de campanha do atual gestor de Cuiabá, o prefeito Abilio Brunini (PL), é a revitalização do centro histórico e o amparo às pessoas em situação de rua. A reportagem do entrou em contato com a prefeitura para buscar quais ações têm sido adotadas neste primeiro momento do mandato para melhorias tanto para região quanto as pessoas que vivem vulneráveis na localidade. Até o momento a prefeitura não se manifestou. Espaço segue aberto.

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