
Antes de uma história ocupar a tela, existe outra acontecendo longe dos olhos do público. É preciso transformar roteiro em cronograma, reunir equipes, encontrar locações, solucionar imprevistos, administrar recursos e fazer com que dezenas de peças funcionem ao mesmo tempo. Nesse espaço quase invisível do cinema está a arte de Manoel Vieira, produtor audiovisual cuiabano que encontrou nos bastidores o lugar onde sua criatividade ganha forma.
Aos 32 anos, Manoel de Jesus de Souza Vieira nasceu, cresceu e continua vivendo em Cuiabá. Morador do bairro Tijucal, começou como espectador, fascinado pela imagem projetada na tela, até perceber que aquela “magia” também era construída por pessoas que viviam realidades semelhantes à dele.
Uma das lembranças que determinaram esse caminho veio ainda na infância, durante uma edição do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, o Cinemato. Na tela estava um filme dirigido por seu irmão, Dyolen Vieira.
Acervo Pessoal
“Perceber que o filme de alguém que vivia a mesma realidade social e econômica que eu poderia chegar a uma tela de cinema, tão distante de onde morávamos, me causou um estranhamento enorme. Acho que foi ali que comecei a entender a arte não apenas como algo que eu gostava de consumir, mas como um espaço que eu também poderia ocupar”, relembra.
A descoberta não significou, necessariamente, estar diante das câmeras. Manoel encontrou seu lugar justamente onde o público raramente enxerga: na estrutura que torna uma obra possível.
Formado em Teatro – Produção Cultural pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e atualmente concluindo Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), ele construiu uma trajetória que atravessa diferentes expressões artísticas. Já trabalhou na produção de espetáculos e companhias de teatro, exposições de artes visuais, discos e EPs, além de longas e curtas-metragens, séries, documentários e videoclipes.
No audiovisual, passou por departamentos de produção, direção de arte, roteiro e direção. A partir de 2017, o cinema e o audiovisual ganharam cada vez mais espaço em sua carreira, principalmente nas funções de produção, produção executiva e direção de produção.
É justamente essa experiência que revela uma parte do cinema frequentemente ofuscada pelo brilho de atores, atrizes e diretores: atrás de cada cena existe uma cadeia de profissionais cujo trabalho também envolve criação, sensibilidade e talento.
“Para mim, produzir também é um processo artístico e exige muita criatividade. É ajudar a criar as condições para que histórias possam existir e chegar ao público. Quando participo de um filme, de um espetáculo ou de outro projeto cultural, sei que existe uma rede enorme de pessoas fazendo com que aquela obra seja possível”, afirma.
Nos bastidores, criatividade pode significar encontrar uma solução quando um plano não funciona, administrar limitações financeiras sem comprometer uma cena ou conectar profissionais capazes de transformar uma ideia escrita no papel em imagem. É um trabalho fundamental, embora nem sempre receba do público o mesmo reconhecimento destinado às funções mais visíveis de uma produção.
Do Tijucal para outras telas
A trajetória de Manoel também se mistura ao território onde nasceu. Crescer na periferia de Cuiabá fez com que, durante muitos anos, determinados ambientes culturais parecessem distantes. O cinema, porém, ajudou a diminuir essa distância.
“Cresci no Tijucal, na periferia de Cuiabá, e continuo vivendo ali. Durante muito tempo, determinados espaços de cultura e produção artística pareciam muito distantes da realidade em que eu estava inserido. Poder trabalhar com arte mudou a maneira como passei a enxergar meu próprio território e as histórias das pessoas ao meu redor”, conta.
A arte também assumiu um caráter íntimo. Marcado por perdas familiares e pelo luto, Manoel encontrou na criação uma maneira de elaborar experiências difíceis de traduzir em palavras. Daí nasceu também o interesse por narrativas sobre memória, identidade, ausência e pertencimento.
“Para mim, arte é trabalho, mas também é memória e possibilidade de imaginar outros mundos.”
Esse desejo de contar histórias a partir do próprio território acompanha um movimento mais amplo do audiovisual brasileiro: a produção começa a ganhar cada vez mais força para além da histórica concentração no eixo Rio–São Paulo.
Dados divulgados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que, em 2024, as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul alcançaram recordes históricos no número de Certificados de Produto Brasileiro (CPBs) emitidos para filmes e séries, enquanto o Sudeste permaneceu em situação de estabilidade.
O avanço continuou em 2025. As produtoras sediadas no Centro-Oeste, Norte e Nordeste somaram 810 registros de obras audiovisuais, contra 743 no ano anterior, crescimento de 9%. Em todo o Brasil, foram registradas 3.981 obras brasileiras não publicitárias no período, novo recorde histórico, sendo 2.500 produções independentes.
O movimento também aparece nos investimentos. A chamada Produção Seletivo Cinema 2024/2025, destinada a longas-metragens de ficção, documentário e animação para salas de cinema, chegou a R$ 260 milhões após suplementação. Nas ações consolidadas do Fundo Setorial do Audiovisual em 2025, mecanismos de indução regional continuaram reservando parcelas dos recursos para projetos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Os números ajudam a traduzir aquilo que profissionais como Manoel vivenciam na prática: existe cinema sendo criado longe dos centros historicamente dominantes da indústria, com outros cenários, sotaques, memórias e modos de enxergar o Brasil.
Mas crescer não significa que os obstáculos desapareceram.
“Um dos maiores desafios é conseguir viver de arte de maneira contínua. Quem trabalha com cultura e audiovisual em Mato Grosso conhece muito bem a instabilidade do setor. Muitas vezes trabalhamos por projetos, dependemos de editais, de períodos específicos de produção e de um mercado que ainda precisa se fortalecer”, explica.
Acervo Pessoal
A distância dos grandes polos também impõe dificuldades de estrutura e oportunidades. Por outro lado, na avaliação de Manoel, esse cenário ajudou a formar profissionais capazes de desempenhar diferentes funções e encontrar soluções diante de estruturas menores.
Permanecer, segundo ele, talvez seja uma das tarefas mais complexas.
“Fazer um primeiro filme, espetáculo ou projeto já é difícil; construir uma trajetória e continuar produzindo ao longo dos anos é ainda mais. Por isso, vejo a permanência no campo artístico como uma conquista coletiva, que depende também de políticas culturais, formação, investimento e valorização dos profissionais.”
Mais do que levar Mato Grosso para outros lugares, Manoel quer participar da construção de um audiovisual no qual o estado consiga narrar a si próprio, sem precisar adaptar sua identidade ao olhar de quem está de fora.
“Quero continuar contribuindo para que nossas histórias sejam contadas por nós, com nossas vozes, nossos sotaques, nossas paisagens e nossas contradições.”
É uma frase que resume também aquilo que acontece quando as luzes se apagam, a câmera começa a gravar e uma equipe inteira permanece fora do enquadramento. O público pode não enxergar todos que estão atrás da imagem. Mas, sem eles, simplesmente não haveria imagem.
Gazeta Indica
Ao falar sobre quem ajuda a construir o audiovisual de Mato Grosso, Manoel Vieira indicou três profissionais cujos trabalhos acompanha:
Leandro Peska: Cineasta que atua também como formador e exibidor em Cáceres. Manoel destaca especialmente o trabalho desenvolvido para ampliar o acesso ao cinema e criar oportunidades para que outras pessoas possam aprender e produzir audiovisual. (@leandropeska)
Pollyana Rodrigues: Diretora, roteirista e produtora. Para Manoel, a versatilidade é uma das características que se destacam em sua trajetória, construída a partir da atuação em diferentes funções do audiovisual e de uma produção autoral.(pollynoset)
Lívia Fiuza: Jovem cineasta cujo trabalho chama a atenção pela abordagem de memória e afeto. Manoel destaca o curta documental Seu Fiuza, no qual a realizadora revisita a história da própria família e de Mato Grosso por meio das memórias do avô, perseguido durante a ditadura militar.(liviafg)

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