Nem todo branco é racista

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A sociedade brasileira é extremamente machista. Eu tenho dois filhos, meninos, que procuro educar mostrando que homens e mulheres são iguais e como iguais devem ser tratados. A manutenção de uma estrutura sexista, no mercado de trabalho, amplia a possibilidade de conseguirem bons cargos. Terão privilégios nos processos seletivos — ninguém pergunta, ainda que de forma indireta, a homens em uma entrevista de emprego se pretendem engravidar. Ensinar que este favorecimento é desleal e antiético é minha função como pai — e como homem — preocupado com a melhoria das condições sociais. Eles vão perder privilégios, mas a sociedade será mais justa.

 

Com o racismo é a mesma coisa. Durante muito tempo, a luta contra o preconceito racial foi equivocadamente vista, por muitos, como uma pauta identitária exagerada, comumente chamada de mimimi. No entanto, o racismo não é um fenômeno natural; é uma construção social e sistêmica que estrutura privilégios e desvantagens.

 

É uma instância de poder criada e sustentada pelos brancos que, por isso, têm o dever ético de atuarem ativamente na sua desconstrução. Não basta mais se ancorar em frases feitas e ridículas como: “tenho amigos negros” ou “os negros são mais racistas que os brancos”. Em uma sociedade estruturalmente desigual, a neutralidade acaba sendo uma forma de conivência. Não ser racista, mas ser cúmplice de racismo, ao final, é a mesma coisa.

 

Abraçar o discurso antirracista exige que o indivíduo branco saia da zona de conforto e reconheça sua branquitude como um lugar de privilégio simbólico e material. O antirracismo não é sobre culpa, que é um sentimento paralisante, mas sobre responsabilidade, que funciona como um motor para a mudança real.

 

O primeiro passo nessa jornada é a escuta ativa. É fundamental ceder o protagonismo, ler autores negros e compreender que a vivência branca não é o padrão universal. No entanto, esse compromisso deve transbordar para a prática cotidiana através de ações concretas, como interromper o silêncio ao questionar piadas racistas, promover a equidade ao cobrar diversidade em cargos de liderança no ambiente de trabalho, buscar entender como o racismo opera de forma velada em processos de contratação, no acesso a espaços públicos e no nosso dia a dia.

 

Reconhecer o próprio privilégio e usá-lo para abrir portas e derrubar muros é o ato mais honesto e corajoso que uma pessoa branca pode realizar hoje. Nós negros precisamos de vocês brancos nesta batalha. Mexam-se.

 

Du Prazeres é autor do livro “Quilombo: contos e receitas”, professor universitário, pós-doutor em Letras

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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