
Arte: Rodinei Crescêncio/Rdnews
Servidor da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), o perito criminal Manoel Messias Dias Pereira já trabalhou em investigações de diversos crimes na Capital mato-grossense. Para ele, não existe crime perfeito, uma vez que os criminosos sempre deixam vestígios. Prova disso é a resolução, por parte da Polícia Civil, de dois grandes crimes ocorridos em Cuiabá em que ele atuou: o caso da adolescente Heloysa Maria de Alencastro Souza, de 16 anos, que foi assassinada no dia 22 de abril deste ano; e a morte do advogado Renato Gomes Nery, executado a tiros em julho do ano passado. Em entrevista ao , o perito ainda fala sobre como lida com as cenas de crime que encontra e os desafios da profissão para a saúde mental, além do uso da tecnologia como aliada na elucidação dos crimes.
Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista:
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Rodinei Crescêncio/Rdnews
Hoje nós, como sociedade, consumimos muitos tipos de crimes – seja em livros, filmes, séries ou na vida real – e alguns criminosos acabam tendo aquele sentimento de crime perfeito, de que nunca vão ser pegos. No caso recente do caso da adolescente Heloysa Maria de Alencastro Souza, de 16 anos, tentaram forjar um assalto e depois um sequestro, mas no final das contas, a Polícia conseguiu elucidar o homicídio. Existe crime perfeito?
Só Deus é perfeito, porque criou algo “do nada”. O ser humano deixa falhas, o ser humano é um processo social, visual, valorativo, em construção sempre. Bondade e coisas não boas coexistem aqui. A própria Bíblia diz: “Eu coloco dentro de você o bem e o mal, opte pelo bem para que vivas”. Ou seja, o outro lado dessa opção leva à morte. Não tem crime perfeito. O ser humano pode pisar torto, fala de um jeito, toca de um jeito. Cada um tem a sua forma e tudo isso deixa uma impressão no mundo. E nós, peritos, conseguimos ver esses trejeitos. Dissimular um local de crime, só isso já construiu o crime, mas a alteração para tentar consertar ou dissimular fica pior ainda, deixa mais evidência da imperfeição do ser humano. Ele está dissimulando para esconder algo, e fica pior no contexto geral. Existe talvez investigação, tanto pericial, quanto da Polícia Civil, que não foi bem feita, ou [algo] não foi percebido, mas não tem crime perfeito.
E quando vocês chegam na cena do crime, vocês já veem algumas coisas muito claras de início? Como é esse trabalho? Tem coisas que se repetem, por exemplo, de um crime para o outro?
O modus operandi revela. A nossa conduta externaliza aquilo que nós temos. O ser humano é um desdobramento lógico de valores, de emoção. A nossa conduta de hoje reflete a construção até esse momento: emocional, formação religiosa, política, social. O crime fala, o local fala, precisa interpretar. Quando a gente se depara com um cadáver no mato, por exemplo, a grosso modo, a gente vai dizer: “Olha, duas situações aqui, ou é um principiante que matou e quer que se descubra logo essa pessoa, ou é um grau de psicopatia, que ele quer ser visto para ele poder ter emoção nessa situação com a Polícia, para ver se descobrem [o crime] ou não”.
Mas o perito sempre vai saber como ocorreu?
O perito também erra. O perito constata vestígio. Daqui a pouco, não tem corpo mais, não tem mancha de sangue mais, mas o que o perito registrou fica para todo o sempre. Agora, por trás daquelas variáveis dispersas no ambiente espacial, existe um fator psicológico. O perito precisa, além de ter a percepção, a sensibilidade das variáveis, estabelecer relação lógica entre elas, mas, principalmente, perceber o que está subjetivo, o perfil psicológico de quem realizou aquela coisa. E o perito erra também, pode errar. Agora, o perito tem fé pública. Uma vez ele declarando que havia um certo vestígio, esse vestígio não vai sumir, vai eternizar. A compreensão dele com o todo pode gerar erro, como em qualquer outra profissão. É por isso até que tem reprodução simulada. E o juiz pode pedir que outro perito faça [uma análise] para constatar as divergências.
Lembro que estive na casa onde a adolescente Emelly Sena foi brutalmente assassinada em março deste ano, em Cuiabá, e conversei com o perito que atendeu a ocorrência. Na ocasião, ele disse que aquela era uma das cenas mais brutais que ele já tinha visto na vida dele. Como é para o perito chegar em um local do crime e ver cenas bárbaras e chocantes? Qual o sentimento que fica? “ Não tem crime perfeito. O ser humano pode pisar torto, ele fala de um jeito, toca de um jeito. Cada um tem a sua forma e tudo isso deixa uma impressão no mundo. E nós, peritos, conseguimos ver esses trejeitos ”
O perito é ser humano e os casos criam carimbos na mente que não se apagam. Não é fácil. Existe a transferência natural do ser humano. Nós andamos por Cuiabá e Várzea Grande e mapeamos onde teve cada ocorrência e a gente lembra disso constantemente. É um carimbo na nossa mente que não apaga. Isso traz danos para o perito. E os danos são para todo o sempre. O Luiz [perito que atendeu o caso da Emelly] tinha uma filha com idade compatível com a vítima. Ele saiu para respirar, para dar uma refletida e se recompor. Uma vez aconteceu comigo. Também tenho uma filha e, na época, ela era recém-nascida. Eu fui no local, logo pela manhã, e a ocorrência era que a mãe teria dormido sobre o bebê. Deu asfixia. Eu fiquei muito mal também. Eu fui para a viatura logo depois e o delegado veio conversar comigo, e eu pedi para conversar depois porque eu precisava me recompor. É inevitável. O perito é um ser humano. Agora, é preciso desenvolver mecanismos para que isso traga um dano mínimo possível. Se não, não à toa, que nós temos muitos casos de pessoas com depressão. É um ambiente extremo. Nós convivemos com suicídios e vários outros tipos de mortes brutais e violentas.
E nesse caso da Heloysa, em que o senhor atuou, o que lhe chamou a atenção quando chegou ali no local do crime? Quando o senhor viu a menina, ela ainda estava dentro do poço. O que marcou?
A angústia dessa moça na hora que estava tendo seu pescoço envolto por algum instrumento de constrição. Eu percebi que o agressor se posicionou atrás dela. Ela estava completamente subjugada, ou seja, com as mãos e os pés amarrados, porque se não tivesse, certamente poderia aparecer marcas no pescoço dela, tentando se desvencilhar do instrumento do agressor. Mas ela estava completamente subjugada. O nível de crueldade foi assustador. Era uma moça com uma vida enorme pela frente. E a gente que olha de fora, pensa: “Só por causa disso aqui?”.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
O senhor falou que muitos casos tocam vocês, peritos, mas qual foi o caso mais desafiador que o senhor já evidenciou, tanto técnica como emocionalmente?
Emocionalmente, o caso da Heloysa foi desgastante, e está sendo ainda. E do caso que eu citei, da mãe que rolou por cima do bebê. Parece algo pequeno, de pouca repercussão, mas não esqueço isso.
E como é feito o cuidado com a saúde mental dos peritos? Tem acompanhamento? O Estado fornece esse acompanhamento para os peritos ou vocês têm que procurar?
Já foi pior. Tem melhorado, mas pode ser muito melhor ainda. Porque temos casos, repito, que são carimbos, que ficam na nossa cabeça e não saem, não saem. É muito diferente de qualquer atividade física, que você dorme e na outra hora você está recomposto. É muito diferente. O perito, são anos e anos, e ele passa pelo local, lembra de detalhes do que aconteceu. Ele manipula foto, então sempre está vindo à tona toda aquela imagem, e repito, não é uma imagem boa: é suicídio, é alguém baleado, disparo de arma de fogo, locais de mortes brutais.
Quando vocês trabalham em algum caso e sentem que fizeram um trabalho bem feito, acreditam que o réu deve ser condenado e que a justiça será feita. Mas há casos em que, no momento do julgamento, não há condenadação, não dá em nada. Passou por algum caso assim? Como o perito se sente?
Normalmente, não é isso que acontece. Mas sim, existem casos nesse aspecto aqui. O juiz pode desconstruir uma prova ou eliminar o laudo pericial, mas ele tem que apresentar uma coisa equivalente, de tamanho, densidade e método adequado, científico, para comprovar aquilo.
O que a gente tem percebido aqui em Mato Grosso é que a perícia está conseguindo identificar muito rapidamente o que aconteceu nos crimes. O caso da Heloysa aconteceu de noite e, no outro dia, já estava praticamente solucionado. No caso da Emelly foi a mesma coisa. Nos dois casos, logo depois vocês já estavam falando para a imprensa sobre tudo o que teria acontecido. Como é feito esse trabalho rápido da perícia?
Às vezes, tem coisa que tem um desdobramento e que precisam de outros exames laboratoriais, que são mais demorados. No caso da Heloysa, o contexto, o miolo, o conteúdo [do crime] nós já entendíamos naquele momento lá na casa. E teve uma harmonia das Forças de Segurança. As coisas agiram rápido e os vestígios estavam quase todos no local. Nem sempre é possível, mas algumas situações propiciam [um andamento] mais rápido e outras, um pouco mais demorado.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Vamos falar agora sobre o uso da tecnologia pela Politec. Quais são as limitações tecnológicas que a Politec tem na hora de fazer um local do crime?
A perícia se fundamenta em três pilares. Pessoas – gente de qualidade, formação específica; tecnologia fundamental; e formação continuada. Esses três pilares devem estar presentes sempre. Na tecnologia, o que utilizamos hoje, daqui a dois dias se torna obsoleto. O Estado precisa sempre investir. Com todo respeito, se pudéssemos pensar na estrutura da Segurança Pública, o topo dessa pirâmide seria a Perícia Criminal. Porque muitas vezes é apenas a prova pericial, bem feita, que vai auxiliar numa sentença: seja para condenar, ou para absolver. Quanto mais o Estado investir em tecnologia, mais célere e com mais qualidade vai ser esse trabalho [da perícia].
E como que está a estrutura da Politec hoje? O Estado consegue acompanhar essas evoluções tecnológicas?
A situação já foi pior. Falo de mais de 20 anos. Agora tem mudado muito, mas ainda precisa de formação continuada certa, direcionada. Não é qualquer formação. Agora, investir em tecnologia tem que ser uma constante no Estado, constante.
E está tendo esse investimento?
Tem que melhorar, precisa melhorar. Cada perito tem que ter o seu kit perícia. Tem certas coisas que não dá para partilhar com um grupo de peritos, tem que ser único.
Cada perito tem o próprio kit ou vocês estão tendo que compartilhar?
O ideal seria cada período criminal ter o seu computador da intuição. Ter uma pasta sua. Hoje nós temos o kit lá que é utilizado pelos peritos que atuam nas mortes violentas, e é muito material compartilhado por todas as equipes. Cada dia tem uma equipe diferente. O ideal seria ser um para cada perito, cada um ter o seu computador. Hoje, o plantão tem essa deficiência de computadores. Nós precisamos ter computador, que é o básico. Mas, repito, do que era outrora e do que é hoje, Mato Grosso deu um salto quantitativo e qualitativo. Mas precisamos melhorar sempre.
Agora estamos na era da inteligência artificial. Não tem como fugir. A perícia criminal aqui em Mato Grosso já está fazendo uso da inteligência artificial ou pode fazer o uso? Como que isso pode ser feito? “ É muito material compartilhado por todas as equipes. Cada dia tem uma equipe diferente. O ideal seria ser um para cada perito, cada um ter o seu computador. Mas, repito, do que era outrora e do que é hoje, Mato Grosso deu um salto quantitativo e qualitativo. Mas precisamos melhorar sempre”
É inevitável. É um caminho sem volta. Na pesquisa, por exemplo, para texto e dentre outras coisas que o pessoal da informática poderia elencar mais propriedade. Mas é um caminho sem volta e a perícia não pode tardar muito.
O senhor foi o perito que fez o exame de balística em uma arma de fogo apreendida em um confronto no Contorno Leste em Cuiabá e que, meses depois, foi revelada que foi dela que partiu o disparo que matou o advogado Renato Gomes Nery, em Cuiabá. Com isso, a Polícia Civil conseguiu desvendar o crime e realizar as prisões dos supostos envolvidos. Como foi feito esse trabalho? Como que o senhor descobriu que a arma que tinha sido utilizada para matar o advogado também tinha sido utilizada naquele confronto, que ela tinha sido forjada?
Fizemos a apreensão dessa arma e, no exame de balística ficou comprovado. Descobrir essa arma foi fundamental para o desenrolar de toda essa situação. Sem a arma, não iria nem vincular os fatos.
E como é essa tecnologia do exame de balística? Tudo fica num banco de dados e isso agiliza o processo?
Agiliza muito. Quanto mais ágil, mais rápido, mais célere, mais qualidade. Hoje existe esse banco de dados da balística e ele se comunica com os estados, o que é muito importante.

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