Na política, o erro não é perder o jogo. É escolher o jogo errado

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Existe uma pergunta que orienta boa parte das estratégias políticas: “Como vencer?”. Como vencer a eleição. Como vencer o adversário. Como vencer o debate. Como vencer o algoritmo.

Mas existe uma pergunta anterior e muito mais determinante que raramente é feita: “Qual jogo eu estou jogando?”. E é exatamente aqui que mora um dos erros mais silenciosos da comunicação política.

O esforço no lugar errado

Na prática, muitos políticos e equipes gastam tempo demais tentando otimizar desempenho dentro de um jogo que não deveriam estar jogando. Tentam vencer no volume, quando não têm estrutura para isso. Tentam vencer no confronto, quando não têm perfil combativo. Tentam vencer no entretenimento, quando sua força está na credibilidade. Tentam vencer no digital, ignorando completamente o território.

O problema não está na execução. Está na escolha. Isso porque toda estratégia parte de uma premissa — e, quando essa premissa está errada, qualquer esforço posterior apenas aprofunda o erro. “ O erro está em tentar jogar todos ao mesmo tempo — ou pior, em entrar no jogo do outro. Porque, quando você joga no campo do adversário, sob as regras dele, com a linguagem dele, a chance de vitória diminui drasticamente”

É como correr muito rápido… na direção errada.

O jogo define as regras

Cada posicionamento político estabelece um tipo de jogo. Quem escolhe ser o mais técnico entra em um jogo de autoridade. Quem escolhe ser o mais popular entra em um jogo de conexão. Quem escolhe ser o mais combativo entra em um jogo de conflito. Quem escolhe ser o mais institucional entra em um jogo de confiança.

O erro está em tentar jogar todos ao mesmo tempo — ou pior, em entrar no jogo do outro.

Porque, quando você joga no campo do adversário, sob as regras dele, com a linguagem dele, a chance de vitória diminui drasticamente. Na comunicação política, não vence quem faz mais barulho. Vence quem controla o campo onde o jogo acontece.

A ilusão de que tudo precisa ser disputado

Um dos maiores equívocos estratégicos é acreditar que toda pauta precisa ser respondida, todo ataque precisa ser rebatido e toda tendência precisa ser acompanhada.

Isso cria uma comunicação reativa, fragmentada e, muitas vezes, incoerente. O político deixa de conduzir a narrativa e passa a reagir a ela.

E, quando isso acontece, ele não está mais jogando o próprio jogo. Está sendo puxado para o jogo dos outros — geralmente, um jogo onde ele já entra em desvantagem.

Estratégia não é sobre responder tudo. É sobre escolher o que merece resposta.

Escolher o jogo é escolher a percepção

Na política, percepção é realidade — e ela não é construída apenas pelo que você diz, mas pelo tipo de disputa que você decide travar.

Um político que entra em todas as polêmicas passa a ser percebido como conflituoso. Um político que evita posicionamento passa a ser visto como omisso. Um político que só fala de entrega pode ser percebido como técnico, mas distante.

Ou seja: o jogo que você escolhe jogar define como você será lembrado. E, como já sabemos, na política, ser lembrado da forma errada pode ser mais prejudicial do que não ser lembrado.

Nem todo jogo precisa ser vencido

Existe um ponto ainda mais estratégico: nem todo jogo precisa ser jogado.

Em alguns casos, a melhor decisão é simplesmente não entrar. Não entrar na provocação. Não entrar na disputa de vaidade. Não entrar na lógica do escândalo. Não entrar na pressão do imediatismo.

Porque cada vez que você entra em um jogo, você aceita suas regras — e nem sempre essas regras favorecem o seu posicionamento.

Saber dizer “isso não é sobre mim” é, muitas vezes, um dos maiores sinais de maturidade estratégica.

O jogo certo potencializa o que você já é

Quando o jogo é bem escolhido, a comunicação flui. Ela deixa de parecer forçada, deixa de exigir esforço excessivo, deixa de depender de fórmulas prontas, porque passa a estar alinhada com a essência do político, com sua trajetória, com sua linguagem e com o que ele realmente representa.

É nesse ponto que a comunicação deixa de ser apenas ferramenta e passa a ser extensão da identidade.

O jogo certo não te transforma em outra pessoa. Ele potencializa quem você já é de forma estratégica.

A verdadeira pergunta estratégica

No fim, a pergunta que deveria orientar qualquer planejamento não é: “Como vamos vencer?”, mas sim: “Qual é o jogo que faz sentido para nós e que temos condições reais de sustentar e dominar?”.

Porque vencer o jogo errado, na política, pode até trazer resultado imediato — mas dificilmente constrói reputação duradoura.

Menos esforço. Mais direção

Talvez o maior ganho estratégico não esteja em fazer mais, mas em fazer melhor.

E fazer melhor, na maioria das vezes, começa com uma decisão simples — e difícil: parar de tentar vencer todos os jogos e começar a escolher, com intenção, qual jogo vale a pena jogar.

Porque, na política, assim como na vida, não é sobre quem corre mais rápido — é sobre quem sabe exatamente para onde está indo.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

Link da Matéria – via RD News

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