
A morte da égua Amora, uma Mangalarga Marchador de três anos que caiu em uma adutora da Copasa, reacendeu o debate sobre a presença de animais de grande porte em áreas urbanas de Belo Horizonte e expôs fragilidades na proteção de estruturas essenciais da cidade. O animal, que estava prenhe de cinco meses, desapareceu na segunda-feira (4), na região do Baleião, no bairro Vila Fazendinha, e foi encontrado morto na madrugada de quarta-feira (6). O caso mobilizou equipes técnicas, gerou forte comoção nas redes sociais e chegou a impactar o abastecimento de água em centenas de bairros da capital e da Região Metropolitana.
Estruturas vulneráveis
Segundo avaliação da bióloga e especialista em recursos hidrícos Fernanda Raggi, episódios como esse são raros, mas não isolados e, em geral, não indicam falha no sistema de abastecimento em si, mas sim problemas no entorno das estruturas.
Entre os principais fatores apontados estão cercamentos danificados, tampas frágeis ou desgastadas, ausência de barreiras físicas e sinalização insuficiente. Em áreas abertas ou de transição entre o urbano e o rural, esses riscos tendem a aumentar, especialmente com a circulação de pessoas e animais.
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“Não é um problema do abastecimento em si, mas sim da interface e relação entre cidade, ocupação urbana e proteção das estruturas. A adutora funciona bem, mas o entorno dela nem sempre é bem protegido ou controlado, já que essas áreas não podem ter circulação de pessoas e animais, devem ser frequentadas somente por pessoas autorizadas”, explicou.
Apesar de existirem normas técnicas que regulamentam a proteção dessas estruturas, a eficácia depende da aplicação prática e da manutenção constante.
“Quando ocorre um caso assim geralmente indica falha de execução, manutenção ou contexto urbano, não ausência de norma, mas da aplicação dela pelo fiscalizado.”
Animais na cidade
O episódio também chama atenção para um cenário mais amplo: a presença ainda frequente de cavalos em regiões periféricas e áreas de expansão urbana da Grande BH. Nesses locais, o uso de animais para trabalho, o abandono e a falta de fiscalização contribuem para situações de risco.
“Ainda existem cavalos em áreas urbanas e periurbanas (rururbanas) em um padrão triste mas bem claro: Forte presença das periferias urbanas movidas ao uso desses animais por questões econômicas ou hábitos rurais”, detalhou Fernanda.
Para os animais, há perigo de quedas, atropelamentos, desnutrição e exposição a ambientes inadequados. Para a população, aumentam as chances de acidentes de trânsito e até impactos indiretos em serviços públicos essenciais, como o próprio abastecimento de água.
Dados da prefeitura indicam que, apenas em 2023, 99 animais de médio e grande porte, como cavalos, bois e cabras, foram recolhidos das ruas da capital, evidenciando que o problema persiste.
Políticas públicas em avanço
Diante desse cenário, a Prefeitura de Belo Horizonte criou, em 2025, a Subsecretaria de Bem-Estar Animal, responsável por coordenar políticas públicas, ações de resgate e campanhas de conscientização.
Já na Câmara Municipal de Belo Horizonte, vereadores discutem o aumento das taxas para que tutores recuperem animais apreendidos por abandono ou maus-tratos. A proposta, aprovada em primeiro turno, eleva significativamente os valores cobrados, com o objetivo de desestimular a negligência.
Entre especialistas e parlamentares, há consenso de que o problema exige respostas estruturais. Enquanto parte defende medidas mais rígidas para responsabilizar tutores, outros alertam para a necessidade de políticas públicas que considerem a vulnerabilidade social de quem ainda depende desses animais.

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