Memória LGBTI+ em MT: um direito que garante reconhecimento e construção de identidade

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Rodinei Crescêncio

Como um estado com forte presença da direita, a preservação da memória LGBTI+ ainda é uma causa que enfrenta diversas barreiras em Mato Grosso. O comunicador, pesquisador e um dos idealizadores do projeto Almonaque, Marcos Salesse, concedeu uma entrevista exclusiva ao e explicou sua trajetória na investigação desse tema. O jornalista ainda falou do projeto Almonaque lançado neste ano, que se prepara para o lançamento de um livro com mesmo nome, em que vai reunir memórias de personalidades importantes, acontecimentos marcantes e a história do movimento LGBTI+ no estado. Com uma imersão em seu mestrado nos jornais da década de 80 em Cuiabá, Marcos contou ainda algumas histórias da comunidade que conseguiu resgatar, como as famosas festas na casa de um professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), chamadas de ‘Dori Shop Show’, o Cassino do Dori, em referência ao Cassino do Chacrinha e o Miss Gay, que também ocorria na casa do professor, ainda vivo. 

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista
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Como você enxerga a importância de construir e preservar as memórias em geral e principalmente nesse caso específico da comunidade LGBTI+? 

O direito à memória é um direito fundamental, então a gente parte desse pressuposto principal, porque quando a gente pensa a história, por exemplo, a história oficial de Cuiabá, a história oficial de Mato Grosso, a gente não tem nenhuma menção, nenhum material que vai vincular as contribuições dessa comunidade LGBTI+. E isso não é uma exclusividade da população LGBTI+, a gente tem diversas outras populações que são minorizadas que estão de fora dessa história oficial. 

Rodinei Crescêncio

Então como é que a gente pode colocar a nossa digital nesse material? E o quão importante isso é, não só para a gente entender como as coisas se deram antes da gente, para entender o que as pessoas antes de mim precisaram passar e enfrentar para que eu pudesse estar aqui te dando essa entrevista, falando sobre esse tema, mas também para eu olhar para essas pessoas que vieram antes e dar o devido crédito ao que elas construíram e fizeram, reverenciar de alguma forma, ou pensar de que forma a gente pode agir daqui para frente para não cometer os mesmos erros do passado.   “ Quando eu comecei esse trabalho de pesquisa de memória, comecei a entender ainda mais que isso também parte de um espaço de identidade”

Quando eu comecei esse trabalho de pesquisa de memória, comecei a entender ainda mais que isso também parte de um espaço de identidade. Memória também é identidade, não só minha a minha identidade construída a partir dessas referências que fui encontrando ao longo da vida, mas também de como as pessoas que estavam naquela década. Então isso também é reconhecer a sua identidade. 

A falta desses materiais impacta na identidade de pessoas que participam da comunidade, por exemplo?

Eu acho que essa é uma das nossas dificuldades, a gente acaba tendo referências muitas vezes distantes do nosso próprio território e que não dialogam muito com a nossa realidade. Eu vou dar um exemplo: a gente tem uma enorme referência LGBTI que é o Jejé de Oyá, que não é muito comum que jovens LGBTI+ olhem como uma referência, e olha que eu tô falando de uma referência que ainda tem a sua expressividade. O Jejé era colunista, ele tem uma história já um tanto consolidada, mas e outros nomes que não tiveram tanta projeção midiática como o Jejé teve na década dele? Então eu sinto que impacta também um pouco na construção da nossa identidade, principalmente do nosso território.

 

Quais são as barreiras encontradas na prática para construir essas memórias? 

São muitas barreiras. Primeiro que a gente tá falando de um tema que é sensível ainda, principalmente no contexto mato-grossense. Falar sobre questões LGBTI+ envolve uma questão política. A gente vive num país muito polarizado, então falar de nós é sempre um desafio e falar de nós em Mato Grosso é um desafio um pouco maior.  

Outros desafios que eu fui encontrando ao longo do tempo é que existem muitas iniciativas particulares de memória, então alguma pessoa tem um acervo de fotos da primeira parada, outra pessoa tem alguns registros de vídeo de uma apresentação no início dos anos 90 num bar, então esses documentos estão muito pulverizados e individualizados. Uma barreira é você tentar encontrar lugares onde essas coisas estão reunidas. “ A gente vive num país muito polarizado, então falar de nós é sempre um desafio”

Por exemplo, na década de 80, tinha um professor da UFMT que dava algumas festas na casa dele, que inclusive ficaram denominadas como ‘Dori Shop Show’, o Cassino do Dori, uma referência ao Cassino do Chacrinha. E existia um pacto de silêncio desse evento para que não vazasse o nome das pessoas que estavam lá, porque muitas dessas pessoas não eram assumidas publicamente em Cuiabá na década de 80. A gente não tem registro fotográfico desses acontecimentos, então também há essa dificuldade de que esses registros não eram feitos, muitas vezes para preservar a identidade de quem participava. 

Rodinei Crescêncio/Rdnews

As pessoas estão envelhecendo também, muitas pessoas que construíram esse movimento em 70, 80, já estão envelhecendo, muitas delas não se lembram exatamente como aconteceu, algumas faleceram. Então a gente perdeu essa história porque o único documento que a gente tinha era a memória dessas pessoas,  os arquivos vivos, que são as pessoas que a gente entrevista. “ A gente queria fazer um material onde alguém que abrisse conseguisse ver um pouco de cada coisa, da história, da trajetória desse movimento”

 Um outro desafio que eu acho que é importante pontuar também, que foi algo que eu fui identificando no decorrer da pesquisa, é que durante a epidemia de HIV e AIDS, por exemplo, a gente perdeu muitas lideranças de movimento e isso eu não estou falando especificamente de Mato Grosso e de Cuiabá, no contexto nacional, inclusive, e muitas dessas lideranças que morreram por conta das complicações da AIDS, por exemplo, as suas famílias jogaram toda o material que tinha fora, ata de reunião de grupos, fotos de eventos LGBTs, foram tudo para o lixo, porque muitas dessas famílias não aceitavam a sexualidade, muito menos aceitavam perder o seu parente por conta da AIDS, por conta do estigma que existia na doença, então tudo que se referisse àquela vida pregressa não merecia ser guardado. 

Como surgiu o projeto Almonaque? 

O nome vem dessa ideia de Almanaque, que é um livro, um material, em que você encontra várias informações sobre um determinado tema. E a gente queria fazer o Almonaque, pegando um pouco do pajubá, do mona, do linguajar LGBTI+, que a gente utiliza muito. Começamos a esboçar a ideia do Almonaque como esse livro onde a gente estava querendo propor, um espaço onde pudéssemos reunir essas memórias que estão muito espalhadas. A gente queria fazer um material onde alguém que abrisse conseguisse ver um pouco de cada coisa, da história, da trajetória desse movimento.

Estamos em um estado majoritariamente de direita, essa cenário político de alguma forma impactou suas pesquisas ou até mesmo a criação do projeto? “ A gente enfrenta uma série de desafios, desde as pessoas não olharem para o seu trabalho de pesquisa como algo relevante”

Fazer isso, sendo um homem gay em Cuiabá, pesquisando esse tema, a gente enfrenta uma série de desafios, desde as pessoas não olharem para o seu trabalho de pesquisa como algo relevante. É muito comum a pessoa perguntar, ‘por que você está pesquisando isso?’ Isso porque eu já trouxe aqui várias relevâncias e o porquê é importante pesquisar, mas ainda assim, é comum escutar esses comentários estando nesse território mato-grossense. A gente tem a dificuldade também de, muitas vezes, as pessoas toparem falar das suas memórias por receio da retaliação que pode vir, porque entendem que Mato Grosso é um estado, infelizmente, ainda muito LGBTfóbico, e como eu falei, muitas são pessoas idosas, então preferem evitar ao máximo exposição para que não tenham nenhuma retaliação.

E, por outro lado, se a gente olhar para o contexto municipal, principalmente a partir da administração que a gente tem no momento, é bem difícil que um edital de cultura tenha um recurso específico para pensar questões LGBTIs. Então, dificulta também do ponto de vista financeiro, porque fazer pesquisa também requer recurso financeiro. O nosso trabalho de pesquisa é um trabalho, ele precisa ser remunerado, não só o nosso, mas de todas as pessoas que compõem o projeto, desde a pessoa que vai diagramar, a pessoa que vai escrever, todo mundo precisa ser remunerado. E para isso a gente precisa de recursos, e se a gente não tem um edital que favoreça a inclusão de projetos LGBTI+, muito dificilmente a gente consegue emplacar. 

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Há alguma história que te chamou muito a atenção durante a sua pesquisa?

Tem uma que o próprio Zacarias  [jornalista] contava. Ele morava no Rio de Janeiro e tinha se mudado para Cuiabá. E aí, no lugar onde ele morava, ele recebia muitos amigos que iam para as boates se apresentar como transformistas [drag queen], mas não podiam se vestir dentro de casa, porque senão seria um problema. Então saíam todos com mochilas, às vezes se trocavam debaixo de árvore, no meio do córrego porque não tinha onde se montar, não tinha espaço na boate para fazer isso também. Então era tudo muito improvisado. 

Durante o processo de pesquisa também, um fato que eu não sabia, mas um dos únicos atos de Estado, do governo do Estado, de Mato Grosso, durante a década de 90, que está documentado no Diário Oficial do Estado, que envolve o HIV AIDS, foi um decreto que tornou a Casa da Mãe Joana como um espaço de utilidade pública, porque era o único lugar onde eles conseguiam alocar pessoas que estavam em uma situação de muita vulnerabilidade por conta da doença.  “ A gente precisa ter em mente que quando a gente fala de memória LGBTI+, primeiro a gente tá falando de direito. Nós temos direito à memória ”

Há várias outras histórias. Eu lembro do Clóvis Arantes, grande liderança LGBTI+. Ele conta que ir para boate panteras, ir para as boates, fazia com que ele cada vez mais se entendesse como homem gay, porque ele se encontrava com outros homens gays diferentes. Eu lembro também de uma outra entrevista que eu fiz, que a pessoa trazia assim, ‘foi a primeira vez que eu vi homens gays de barba. Porque na minha cabeça eram só cabeleireiros e maquiadores que podiam ser gays. Eu não conseguia vislumbrar homens gays diferentes. E aí na Boate Panteras eu consegui ver, e aí eu comecei a entender como era, o que era ser gay, ainda na década de 80’.

Eu acho que pra nossa geração foi muito mais fácil se entender, acho que inclusive por isso que muitos de nós saímos do armário muito mais cedo do que as pessoas que vieram antes de nós, porque a gente já conseguia pegar referências e entender o que estava rolando muito mais cedo. E na década de 80 isso já partia de um outro espaço.

 

O que é preciso ter em mente ao tratar de memórias LGBT?

A gente precisa ter em mente que quando a gente fala de memória LGBTI+, primeiro a gente tá falando de direito. Nós temos direito à memória. Memória é identidade também e eu acredito que cada vez mais a gente precisa olhar para o nosso território mato-grossense e identificar as nossas potencialidades, tanto do ponto de vista daquilo que a gente construiu, quanto o que a gente pode construir.

E eu acredito também que memória é poder homenagear as pessoas que fizeram muito pra que eu pudesse estar aqui hoje, pra que várias pessoas pudessem existir, lutar, estudar, pesquisar com mais conforto. Então eu acho que eu parto um pouco desses três espaços do direito, da identidade e do reconhecimento às pessoas que construíram esse movimento antes de mim. 

Link da Matéria – via RD News

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