
Maria de Lourdes Fanaia e Ângela Maria de Souza
A abordagem sobre Mãe Bonifácia envolve uma multiplicidade de temáticas, como: escravidão e racismo; o monumento no cenário do Parque Cuiabano; o bairro Quilombo e o Córrego do Caixão.
São várias as versões difundidas em Cuiabá sobre a personagem: contos, lendas, mitos que povoam o imaginário social cuiabano.
No passado, o homem criava histórias para explicar eventos conhecidos e desconhecidos, resultando no surgimento de mitos e lendas que atribuíam veracidade a fatos inexplicáveis à época (Sagário, 2023). Desse modo, explicações sobrenaturais eram transmitidas entre gerações e difundidas no meio social, capazes de construir uma memória coletiva. Sobre Mãe Bonifácia, existem várias versões: ora escrava, ora alforriada; suas funções divergem entre benzedeira, curandeira, conhecedora das plantas medicinais, dos bordados de renda; uma mulher hábil, alguém que indicava caminhos para os escravizados que buscavam rotas dos quilombos. Deparamo-nos com vários registros que enfatizam a nomenclatura Mãe Bonifácia. Isso significa que a personagem era reconhecida pelos populares e pelas autoridades políticas, ainda que o local fosse considerado ermo e repleto de lendas estereotipadas. Ela é história — e não apenas uma lenda sobrenatural.
“ Podemos dizer que Mãe Bonifácia era articulada, o que garantiu sua presença no território, contrapondo a história oficial e a lógica do sistema escravista, bem como a organização de comunidades negras na localidade, naquele período”
Questionamos a ideia de que o respeito pela liderança da mulher negra na mata estivesse na fama dos poderes mágicos da “Bonifácia feiticeira”. Isso teria afastado as possibilidades de impedir a atuação das autoridades no local? Todavia, em um sistema econômico que investia contra as manifestações dos negros, o paiol de pólvora levava o nome de Mãe Bonifácia. Pelas documentações, observamos que as autoridades políticas a conheciam pelo nome supracitado. Não encontramos, nas fontes pesquisadas, registros de repressão das autoridades contra sua atuação, tampouco a existência de um quilombo com a denominação “Mãe Bonifácia”. Essas considerações são indícios de que sua permanência no território não configurava um problema.
O que fez Mãe Bonifácia para que sua imagem aparecesse nos documentos elaborados pelas autoridades do sistema jurídico, pelo presidente de Província, pelo major do Exército, pelo diretor do Arsenal de Guerra, estando tão difundida na memória social? Quais foram as situações que os moradores revelaram ou criaram sobre Bonifácia, conforme as pesquisas de Alencastro (2003) e Mendes (1960)? Do mesmo modo, Chirley R. Taveira nos relatou sobre o sr. Fanor de Araújo (in memoriam), que ouviu histórias sobre ela através de moradores. Nesse contexto, um aspecto importante a ser evidenciado é a genialidade da história de uma mulher que conseguiu atravessar o tempo, rompendo o imaginário coletivo de um negro estático, de não construir novas relações em uma sociedade escravocrata. Mesmo em situação de subalternidade, os negros criaram arranjos para sobreviver à margem da sociedade escravista, organizando espaços de liberdade.
A história de Mãe Bonifácia reverbera no meio social, paira na memória coletiva de forma consolidada e faz parte da cultura cuiabana. Isso porque a memória é constituída por personagens. De acordo com Pollak (2012), existem lugares da memória, particularmente ligados a lembranças pessoais, que podem se transformar na “memória da memória”. O parque pode ser considerado um lugar de apoio à memória de Mãe Bonifácia, vinculado ao período em que ela viveu. Podemos dizer que Mãe Bonifácia era articulada, o que garantiu sua presença no território, contrapondo a história oficial e a lógica do sistema escravista, bem como a organização de comunidades negras na localidade, naquele período.
Mãe Bonifácia conseguiu a façanha de estabelecer-se em um espaço no qual podia movimentar-se e criar relações com o seu entorno. A partir dessas relações e movimentos, ganhou notoriedade, e seu nome atravessa o tempo histórico, sendo reconhecida como líder espiritual, rezadeira e parteira. Sua influência local foi tamanha que chegou a ser homenageada com o nome de um bairro, ainda que este tenha sido posteriormente substituído. O monumento em sua homenagem é um documento criado intencionalmente, conforme Le Goff, e faz parte de uma construção discursiva de uma sociedade permeada pelas relações de poder. Faz parte da história e da memória local articulada com o contexto da escravidão. Por essa razão, a personagem afro-brasileira é um conteúdo que pode ser incluído nos currículos das escolas brasileiras.
Texto extraído do artigo publicado na revista Documento/Monumento – UFMT. Disponível em: https://www.ufmt.br/ndihr/revista
Maria de Lourdes Fanaia – Profª Drª da Universidade de Cuiabá (UNIC) e Ângela Maria dos Santos – Profª Drª da Faculdade EduCare e da Educação Básica do Estado de Mato Grosso

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