
A Geração Z não abandonou o leite. O que mudou foi a forma de incorporá-lo à alimentação e o significado atribuído ao consumo. Para os jovens, sabor, praticidade, experiência e identificação com o estilo de vida passaram a ter mais peso nas escolhas.
A análise é do antropólogo de São Paulo, Fábio Mariano Borges, PhD em Sociologia pela PUC-SP, professor e pesquisador especializado em comportamento do consumidor. Segundo ele, produtos tradicionais não necessariamente perdem relevância quando deixam de ser consumidos da maneira convencional. Em muitos casos, são ressignificados para acompanhar as transformações da rotina.
“Cada versão de um alimento tem um espaço e um tempo próprios. É interessante notar que as diferentes versões não estão reduzidas à sua função, mas remetem a um ambiente, a uma prática e a um jeito próprio de ser”, afirma Fábio Mariano.
No caso do leite, observar apenas o consumo do produto em sua forma tradicional pode levar a uma interpretação incompleta. O alimento permanece no cotidiano dos jovens, mas passou a ocupar diferentes ocasiões.
“A história da alimentação e do sabor mostra que praticidade, sabor, experiência e identificação com o estilo de vida são ingredientes determinantes para o cardápio das diferentes mesas, sempre conforme o contexto histórico de cada época”, explica o PHD em Sociologia.
Levantamento publicado pela Embrapa Gado de Leite, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ajuda a compreender essa mudança. A Geração Z era a que mais consumia lácteos entre os grupos analisados, mas apresentava uma preferência diferente: o leite com sabor ou achocolatado correspondia a quase 50% do consumo de produtos lácteos desse público.
Mais opções, novos hábitos
Fábio Mariano atribui parte dessa transformação ao avanço da tecnologia e à maior variedade disponível no mercado. Enquanto as gerações anteriores conviviam com alternativas mais limitadas, os jovens encontraram opções adaptadas aos diferentes momentos do dia.
“Não podemos perder de vista uma razão básica, sem a qual o consumo de um alimento em suas várias versões não aconteceria: a tecnologia tornando tudo prático, rápido e acessível no mercado”, observa.
Para o presidente da Associação dos Produtores de Leite de Mato Grosso (MT Leite), Antônio Carlos Carvalho de Sousa, a mudança exige que a cadeia produtiva compreenda as novas expectativas.
“A MT Leite tem o papel de construir uma ponte entre quem produz e quem consome, mostrando a origem do alimento, o trabalho das famílias produtoras e os cuidados existentes até o leite chegar à mesa”, afirma.
A importância da origem
Além de sabor e praticidade, reputação, transparência e responsabilidade passaram a influenciar a relação dos jovens com os alimentos. O antropólogo de consumo pondera, entretanto, que a Geração Z não pode ser tratada como um grupo homogêneo.
“A maioria dos integrantes da Geração Z pertence às classes populares e enfrenta restrições no poder de compra. São diferentes realidades dentro de uma mesma geração, desenhadas pela formação escolar, pelo convívio social, pelo poder econômico e pelo estilo de vida”, ressalta Fábio Mariano.
Para o antropólogo, aproximar-se desse público exige mais do que publicidade. Significa ouvir os jovens e transformar essa escuta em decisões concretas. “A atenção da Geração Z para a reputação das marcas está desperta e tem muito valor. Não basta conversar. É preciso que, com base nesses diálogos, as empresas executem mudanças nos seus modos de conduzir os negócios, tratar os fornecedores e colaboradores e ofertar produtos no mercado”, analisa Fábio Mariano.
Campanha MT Leite
A campanha “Leite: do jeito da sua geração”, promovida pela MT Leite, busca aproximar o setor lácteo da Geração Z ao mostrar como o leite e seus derivados acompanham as mudanças no comportamento de consumo. A iniciativa aborda temas como versatilidade, inovação, sustentabilidade e procedência, valorizando as diferentes formas de incluir os lácteos na rotina dos jovens.

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