
Rodinei Crescêncio/Rdnews
A ida da influenciadora Virgínia Fonseca à CPI das Pirâmides Financeiras no Senado causou furor nas redes, nas bancadas e na imprensa. Mas diferente da avalanche de elogios e “palminhas” digitais que ela costuma colher nas redes sociais, a participação da empresária revelou algo preocupante: a incapacidade de reconhecer e respeitar o peso simbólico de uma instituição pública.
Não se trata de desmerecer sua trajetória empreendedora ou sua enorme base de seguidores. Mas sim de lembrar que o espaço em que ela foi chamada a depor não é um estúdio, não é uma live, não é uma trend. É o Senado Federal da República.
A estética importa — e comunica
Em política, tudo comunica. A forma como uma autoridade se veste, se comporta e se expressa diante de instituições de Estado carrega mensagens simbólicas de respeito, hierarquia e compromisso público.
Ao comparecer à CPI com roupas que remetem à performance estética da internet e adotar uma linguagem simplificada ao extremo — quase infantilizada —, Virgínia não apenas destoa da liturgia do cargo dos senadores, como desrespeita o próprio espaço democrático onde estava inserida.
Tratar com banalidade uma oitiva parlamentar não é uma escolha de estilo. É um gesto político — e, nesse caso, um gesto de desrespeito.
A forma de falar também revela postura
Frases como “eu só faço publi”, “eu não entendo disso”, ou “não sabia que precisava saber” revelam mais do que despreparo: revelam desinteresse pela responsabilidade que acompanha a influência.
Virgínia não foi ali como uma jovem desinformada. Foi como sócia de uma empresa investigada por enganar financeiramente brasileiros — muitos deles, pobres e esperançosos. Mesmo assim, sua postura foi a de quem tratava a CPI como um incômodo passageiro entre uma publi e outra.
O Parlamento é um espaço público, não um palco privado
O Senado é uma instituição da República. Não exige bajulação, mas exige postura compatível com sua função.
A forma como autoridades e convidados se apresentam em um parlamento não precisa ser engessada, mas precisa carregar a consciência de que se está prestando contas à sociedade.
A presença de uma influenciadora não é o problema. O problema é a tentativa de esvaziar o valor do rito institucional, da seriedade da pauta e do papel do Senado diante da opinião pública.
Quando a estética do entretenimento invade o espaço do interesse público
O Brasil vive tempos em que os limites entre entretenimento, influência digital e comunicação pública estão se tornando cada vez mais tênues. Mas há um limite que não pode ser cruzado: o da desresponsabilização.
Influência não é imunidade. Seguidores não são blindagem. Aparência descontraída não é desculpa para despreparo.
Se uma influenciadora quer ser reconhecida como empresária séria, precisa agir com a seriedade que o momento exige — especialmente diante de instituições que representam o povo.
Conclusão: o Senado não é cenário para performance
A audiência pública é um instrumento da democracia. E a democracia exige responsabilidade. A postura de Virgínia na CPI revelou mais do que ignorância institucional: revelou a arrogância de quem acredita que o sucesso na internet permite desprezar a liturgia de cargos públicos.
Ser influencer é ter poder. Mas estar diante do Parlamento é ser convocada ao dever.
E nesse momento, o que se viu foi mais pose do que postura.
Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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