
Rodinei Crescêncio
Nas últimas semanas, o mundo voltou a prender a respiração diante de uma manchete que parecia saída dos anos 2000: Índia e Paquistão, duas potências nucleares, trocaram ataques militares em plena luz do dia. A justificativa do governo indiano foi clara, destruir alvos ligados a grupos terroristas supostamente protegidos em território paquistanês. A resposta do Paquistão, igualmente previsível: bombardeios em retaliação, dezenas de mortos, escalada do medo. “ O uso de armas nucleares táticas, ainda que “limitadas”, é uma possibilidade real no tabuleiro atual, e seus efeitos seriam devastadores”
Num cenário global saturado por guerras, catástrofes climáticas e crises econômicas, o conflito entre Índia e Paquistão corre o risco de parecer apenas mais um foco de tensão. Mas não é. Estamos falando de dois países com históricos profundos de rivalidade, ambos armados com ogivas nucleares, e cujos desentendimentos não se limitam a questões militares, envolvem identidade, religião, fronteiras e, sobretudo, orgulho nacional.
A região da Caxemira, epicentro do conflito, é uma ferida aberta desde a partilha do Império Britânico em 1947. Décadas de disputas, guerras diretas e conflitos de baixa intensidade transformaram a zona numa das mais militarizadas do mundo. Qualquer fagulha ali pode incendiar o planeta.
O que torna esse episódio especialmente alarmante é o contexto em que ocorre. Com as instituições multilaterais cada vez mais enfraquecidas e os EUA focados em seus próprios dilemas internos, o espaço para mediação internacional tem se reduzido. O Conselho de Segurança da ONU, paralisado por vetos cruzados e interesses estratégicos, não tem oferecido soluções concretas. A China, que também tem interesses na região, atua mais como espectadora estratégica do que como agente de paz.
É preciso refletir: o que acontece quando duas nações com armas nucleares se confrontam em um mundo que normalizou o conflito como ferramenta de política externa? A lição de Hiroshima e Nagasaki, que deveria ter vacinado a humanidade contra o horror atômico, parece cada vez mais distante. O uso de armas nucleares táticas, ainda que “limitadas”, é uma possibilidade real no tabuleiro atual, e seus efeitos seriam devastadores.
Mas o problema não se limita à geopolítica de alto escalão. Milhões de civis vivem nas zonas de fronteira, enfrentando o medo, o deslocamento e a perda. A guerra, como sempre, recai primeiro e com mais peso sobre os mais pobres. Ignorar esses rostos é perpetuar uma lógica de poder que desumaniza e destrói.
O mundo precisa agir, não apenas para “apagar incêndios”, mas para repensar suas estruturas de prevenção e resolução de conflitos. A escalada entre Índia e Paquistão é um lembrete sombrio de que a paz não é garantida. Ela é frágil, exige esforço constante, diálogo corajoso e, acima de tudo, uma escolha coletiva pela vida.
Num tempo em que tantas guerras gritam por atenção, é fundamental que a ameaça entre Nova Délhi e Islamabad não seja mais uma esquecida, até que seja tarde demais.
Mauricio Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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