
“Bom dia, Roberta. Uma dúvida aqui: análise cura mau-olhado?” Começava assim a mensagem que recebi sexta-feira no e-mail do consultório. E seguia explicando “Veja, não é papo de aí porque os invejosos então me rogando praga é essas coisas. É um auto-mau-olhado. E é tão forte, tão eficiente, que tô aqui lhe escrevendo e usando 3 hífens na mesma palavra. Sendo que me prometi que não cometeria nenhum erro de português porque sigo uma mulher insuportável no Instagram que só
fala de erro de português. Percebe o efeito imediato do auto-mau-olhado? Faço o que não quero o tempo todo. Busco uma cura em no máximo 1 mês, que é o tempo que tenho pra me dedicar a isso”.
Nessa hora eu dei Google pra saber se dava pra ter 3 hífens na mesma palavra numa distração 100% pisciana de quem esquece da existência do bem-me-quer e do mal-me-quer. Dá sim. E auto- mau-olhado leva hífen mesmo. Tá certo. Ele continuava. “Olha, se quiser publicar minha pergunta, publique. Mas pelo menos aproveite pra responder. E que fique registrado que já peguei ´há´ sem ´H´ nos seus textos mais de uma vez, assim como falta de acento grave, só pra gente ficar na mesma página”. Ui. Não é que eu esteja 100% em dia com o Aurélio Buarque de Holanda, muito menos com o novo acordo ortográfico, mas juro que passo corretor. E depois pro há de haver, canto a música do Gil quando fico na dúvida: “Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão. Quem poderá fazer aquele amor morrer se o amor é como um grão”. De qualquer forma, perdão, minha gente.
“Enfim, cura ou não cura? Um mês no máximo. Se curar, quero marcar uma entrevista. Se não, favor desconsiderar à mensagem”. Não é por nada não, mas esse acento aí tá sobrando. E digo isso numa concordância absoluta com o remetente do e-mail porque também acho aquela moça do Instagram insuportável. Respondo aqui: vê, análise não é unha de gel. Não tem prazo de duração pré-determinado. Agora, essa coisa do auto-mau-olhado me interessou perdidamente e acho que ela
está mais ligada ao bem-me-quer, mal-me-quer do que pensam os hífens todos. Eu digo que venha.
Mas digo também que análise é feito um grão, igualzinho na música. Às vezes um tanto de coisa tem que morrer pra germinar. Venha que cabem os excessos, as faltas e os tropeços que aparecerem nessa “caminhadura”. Amei o e-mail e sigo pensando sobre ele.
Boa semana, queridos.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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