
Medida eleitoreira e irresponsável. É assim que o empresário Junior Vidotti classifica a decisão do presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva (PT), de acabar com a chamada “taxa das blusinhas”, imposto criado no começo do governo de Lula diante da alta popularidade de lojas estrangeiras como Shopee, Shein, Wish, dentre outras.
“A gente acha que é uma incoerência do presidente revogar um imposto que ele mesmo criou nesse momento próximo das eleições e a gente acredita que seja uma medida eleitoreira, que visa variar o apoio da população”, disse à reportagem o diretor da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Mato Grosso (Fecomercio-MT).
“Eu acredito que é uma irresponsabilidade, sim. Isso aí já foi feito de caso pensado para ter o apoio dos consumidores. Ninguém gosta de pagar imposto, mas é uma situação injusta e que o governo está usando para fins eleitoreiros”, acrescentou.
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Esse imposto, criado em agosto de 2024, prevê a taxação de 20% sobre produtos estrangeiros de no máximo 50 dólares comprados dessas empresas estrangeiras. O setor alega que a medida é injusta se comparada com a carga tributária paga pelos comerciantes e industriários brasileiros.
“Se a indústria vai perdendo a competitividade, se a gente vai exportando empregos para a China, a tendência é que as indústrias locais dispensem colaboradores que estão em excesso ou ocorra fechamento de fábricas”, afirmou Vidotti.
A visão do empresário, que também é presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Calçados e Couros do Estado de Mato Grosso (Sincalco-MT), é de que o setor saiu penalizado. A questão envolve não apenas o comércio, que já vem tendo que se adaptar diante dos e-commerces, mas também a indústria nacional, que vê produtos de origem chinesa entrando no país em condições desiguais, impedindo a possibilidade de competição.
“Esse tipo de medida desfavorece a indústria nacional, cria um problema de competitividade para a indústria nacional e deveria ser o contrário, a indústria nacional deveria ser valorizada ou pelo menos estar em condições de igualdade com o fornecedor chinês”, afirmou.
Enquanto o produto estrangeiro entra no país sem imposto, a carga tributária do país segue entre as mais altas do mundo sem possibilidade de mudança, especialmente porque a reforma tributária prevê que o IVA do país será o maior do planeta. Nesse cenário, muitas empresas adotam estratégias mais drásticas para conseguirem continuar competitivas.
“A gente tem muitas indústrias que estão sendo migradas, não só para a China, como aqui para o lado, o Paraguai. Nós temos diversas indústrias, não só no setor de confecção, como em qualquer outro setor, tintas, materiais de construção, que estão migrando para o Paraguai, que tem uma carga tributária de 10%, enquanto a carga tributária brasileira está em cerca de 35%”, explicou.
Tomando como exemplo a China, Vidotti lembra que há 20 anos o país asiático tinha um Produto Interno Bruto (PIB) menor do que o brasileiro. Para ele, o desenvolvimento chinês ocorreu sustentado na baixa taxa de juros, que propiciou a entrada de recurso estrangeiro como forma de investimento nas empresas e no desenvolvimento do país. Atualmente, a taxa de juros da China está em 3%, já a taxa brasileira (Selic) está em 14,5%.
“O ambiente brasileiro está ficando cada vez pior para fazer negócio. Hoje nós temos uma das maiores taxas de juros do mundo, então, com uma taxa de 14% ao ano, é difícil uma pessoa que vai montar uma empresa ou que vai investir em imóveis ou alguma outra coisa ganhar menos do que essa taxa. Então a pessoa prefere deixar o dinheiro no banco do que fazer investimentos, e isso é muito ruim para o país, né”, concluiu Vidotti.

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