
Desde a eleição direta após o fim da Ditadura Militar, Mato Grosso só deu preferência ao Partido dos Trabalhadores em 2002, quando Luís Inácio Lula da Silva foi eleito pela primeira vez para a presidência da República. De lá para cá, o partido nunca mais conseguiu repetir o feito. Mas o que realmente chama a atenção é o fato de que essa preferência por figuras mais alinhadas à direita ou ao centro sempre existiu no estado. Portanto, o resultado de Lula naquele ano foi um episódio pontual na história mato-grossense.
A reportagem do procurou três analistas políticos para entender o que pode explicar que um estado historicamente conservador tenha votado majoritariamente em um nome mais à esquerda e depois passou a rejeitá-lo de maneira tão enfática.
Alfredo da Motta Menezes, que era o presidente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), conta que o agro de Mato Grosso começava a se posicionar como um setor organizado e relevante, assim como questionava as lideranças políticas por centralizarem os investimentos públicos na Baixada Cuiabana. O principal alvo da insatisfação era o então governador Dante Martins de Oliveira (PSDB).
“Dante saiu candidato a senador em 2002, depois de oito anos de mandato, e perdeu para Serys, simples deputada estadual. Por quê? O agro jogou tudo em cima da Serys, porque estava de cara torcida com o Dante, que era mais zona urbana. Do ponto de vista do agro, não deu a assistência que deveria dar e tudo mais”, explicou.
“Naquele embalo, jogaram [para cima] também o Lula, entende? Contra o PSDB nacional. Aí foi uma decisão de grupo que estava crescendo contra o PSDB. Incluiu o Dante, que perdeu, e incluiu o PSDB no plano nacional, que perdeu”, acrescentou.
Naquela eleição, Dante de Oliveira ficou em terceiro lugar na disputa ao Senado, com 19,83% dos votos válidos. Foram eleitos Jonas Pinheiro (PFL), com 27,64%, e Serys Slhessarenko, com 25,95%. “Em síntese, eu acho que o agro olhou torto para o PSDB e preferiu apoiar o Lula”, resumiu.
O analista político Onofre Ribeiro aponta outro fator que pode ter contribuído para o predomínio de Lula: FHC, único presidente a ser eleito e reeleito em primeiro turno na história do país e conhecido como o pai do Plano Real, que pôs fim à hiperinflação, não se engajou na campanha do aliado José Serra.
“Durante a campanha de 2002, o Fernando Henrique não apoiou o Serra, que era o candidato dele. Não apoiou, fazia de conta, e isso explica o Lula. Mato Grosso tinha, por conta do Dante de Oliveira, que era do PSDB, uma ligação muito grande com o Fernando Henrique, que era do PSDB, e que estava apoiando o Lula”, explica Onofre.
De fato, durante aquela campanha, a imprensa nacional apontava “acenos” de FHC a Lula por acreditar que o aliado não tinha chance de vencer. Além disso, havia uma mágoa pessoal do então presidente por José Serra não ter assumido o legado do seu governo, tentando se distanciar da sua imagem, naquela época desgastada.
Gazeta Digital
Tabela criada pelo Gemini a partir dos dados da Justiça Eleitoral.
Disputa entre partidos dá espaço para polarização pessoal
A partir de 2014, o PSDB perdeu completamente o protagonismo que possuía historicamente. Isso ocorreu, conforme Onofre, em razão do fim da disputa entre partidos, que foi substituída pela polarização centrada nas imagens de Lula e Jair Bolsonaro (PL).
“É diferente de uma ligação de PSDB, que era um partido, contra o PT, que era outro partido. [Em 2014] Eram dois dirigentes políticos fazendo polarização, tanto que essa eleição de agora [2026] matará a polarização de uma vez, pelo desgaste [deste formato] e tudo mais”, explica.
Para Onofre, Mato Grosso sempre foi um estado alinhado à direita, destacando o predomínio político da Arena, partido que apoiava o Regime Militar, o PDS e, depois, o PFL, que viria a dar origem ao União Brasil. Só se aproximou do PSDB, que o jornalista classifica como de esquerda, com razão da força da figura de Dante de Oliveira, a quem ele atribui a responsabilidade de fortalecer o nome de FHC no estado.
Dessa polarização entre pessoas surgiu o bolsonarismo, que hoje é a força política predominante em Mato Grosso. Para o analista João Edson, trata-se de um movimento extremista que embarcou na insatisfação popular com escândalos de corrupção, que tiveram o seu auge no governo de Dilma Rousseff (PT).
“Nós pegamos uma sequência muito ruim, no final do primeiro governo Dilma, segundo governo Dilma, no sentido de governo sem força. E aí, para tirar a Dilma, que era mulher, foram acrescentadas muitas palavras duras, pesadas, humilhantes, uma série de coisas, e as pessoas se apegaram muito a essas palavras, esses conceitos absurdos”, explicou.
“Esse ódio, ele meio que deu uma arrefecida ali quando começou o governo Michel Temer, mas, depois daquela questão que explodiu da visita do Joesley Batista, naquele dia em que ele falou ‘tem que manter isso, viu’, voltou essa revolta”, acrescenta.
A partir desse sentimento de revolta contra o governo, foi construída a campanha de Jair Messias Bolsonaro, que se apropriou, segundo o analista, de um discurso marcado pela ofensa, exagero e desaforo para viabilizar sua candidatura. Nesse momento, as propostas para o país ficaram de lado para “castigar, penalizar, machucar quem pensava contrário”.
“Na realidade, esse grupo não tem nada a ver com a direita. Se alguém gostasse da direita, quisesse votar na direita, ele teria votado no Caiado, no Zema, no Renan, que são realmente da direita legítima”, afirmou.
Ele exemplifica os pilares do pensamento de direita, como a defesa do livre mercado. O analista pontua, ainda, que o candidato Flávio Bolsonaro (PL), que disputa a eleição neste ano, passou a defender o Bolsa Família e a redução da escala de trabalho 6×1 por razões eleitoreiras.
“Extremismo pode ser de centro. As pessoas muitas vezes acham que extremismo é só extrema-direita e extrema-esquerda. Não, pode ser extremista de centro. Extremista significa você não admitir e não aceitar pensamentos diferentes. É só isso. Então nós não temos uma direita, nós temos uma revolta”, afirmou João Edson.
Para o analista, com a polarização da eleição de 2022 e o episódio do 8 de Janeiro, o governo Lula foi destruído. Essa argumentação exagerada e “fora do contexto da realidade” inflamou parte da sociedade.
“É uma sociedade completamente fora da realidade. Estar na realidade, é preciso deixar claro, não significa votar no PT e votar no Lula, mas significa ter uma consciência de como as coisas funcionam. Se a gente estivesse no campo de realidade, eu te falo com toda certeza, nem Flávio Bolsonaro, nem Lula estaria no segundo turno”, concluiu.

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