
Rodinei Crescêncio/Rdnews
“Apresta-te, mas respeita o tempo de cada coisa.”
Uma vez, um gestor — meu ex-chefe — disse isso para mim. Ele costumava dizer:
“Existe um fator que a gente precisa respeitar nos negócios, que é o fator tempo.”
Eu digo que o fator tempo é uma variável que precisamos respeitar na vida.
Posso relatar aqui para vocês alguns exemplos de situações que já presenciei na minha rotina:
Aquela mãe com um bebê de seis meses, treinando-o a sentar no troninho, e postando isso como um grande trunfo nas redes sociais:
“Olha aqui minha filha, como ela é super desenvolvida, já senta no troninho!” “ A cultura da competitividade nos moldou para a superação, mas também nos apressou além da conta. E nos tornou, digamos, insalubres”
E, na contramão, temos a natureza, que nos mostra que uma criança, até os seis meses, ainda não tem estrutura física suficiente. Está apenas começando a aprender a sentar. Ela ainda não tem o controle para ir lá e fazer, segurar o xixi, soltar o xixi, segurar o cocô, soltar o cocô.
Mas temos pais apressados.
Vou compartilhar outro caso:
Aquele pai cuja criança nem entrou ainda na idade da alfabetização, mas já está matriculada em escolas de aperfeiçoamento, treinando matemática, treinando inglês — sendo que essas crianças ainda nem maturaram cognitivamente para isso. E então eu ouço a indignação de um pai:
“Nossa, minha filha não tá pegando, não sei o que acontece com ela… será que tem algum problema?”
Enquanto outros se vangloriam:
“Meu filho está com cinco anos e já sabe contar até 100! O seu sabe contar?”
Mais uma vez, desafiando a natureza e apressando as coisas.
Na empresa, também não é diferente.
Quantas vezes vejo gestores indignados, cobrando de suas equipes desempenhos astronômicos. Mas, quando você vai olhar de perto, aquele membro do setor que está sendo cobrado ainda é de nível assistente ou júnior — sendo criticado por não desempenhar como um sênior.
E ali ele deixa de receber feedback e fica com aquela estrutura pesada em cima dele, se sentindo incapaz.
Em todos esses exemplos que estou citando aqui, podemos identificar pessoas, situações e contextos sendo forçados além de sua capacidade naquele momento, além do tempo em que estão prontos.
A cultura da competitividade nos moldou para a superação, mas também nos apressou além da conta.
E nos tornou, digamos, insalubres.
Trouxe marcas de pressão para além do que pessoas, contextos e situações estão prontos para suportar — gerando marcas emocionais profundas, muitas vezes de difícil reversão.
A partir dessa cultura da competitividade sem limites, que nos tornou buscadores incessantes pela superação, acabamos engolindo um fator extremamente importante: o tempo.
O tempo que cria maturidade, que é o que nos faz desenvolver robustez, musculatura emocional, física…
E aí começamos a buscar aceleradores desse processo, que muitas vezes nos fazem ter um olhar totalmente focado no fim, sem observar — e curtir — o processo, a construção, o estar no aqui e agora.
Esse tipo de movimento, cada vez mais intensificado entre as pessoas, tem gerado consequências psicológicas: ansiedade, impaciência, pressa constante, o sentimento de que tudo precisa ser acelerado, de que tudo tem que estar pronto.
E, quando conseguem, já perderam a postura de curtir a conquista, de contemplar aquilo que buscaram, que edificaram.
Então, quando finalmente pegam aquilo nas mãos, é como se não tivesse o tamanho que deveria ter, sabe? Como se fosse algo pequeno.
E, automaticamente, vemos pessoas mais entristecidas, depressivas, com um sentimento de vazio — e com muitas dúvidas sobre o porquê das coisas, sobre o sentido da vida.
Uma vida mais cinza, sabe?
Nisso, eu acredito que a gente precisa voltar e reinserir a importância do fator tempo.
E também a importância do processo na jornada das conquistas.
Este redirecionamento, nos vários ambientes humanos, poderia nos trazer a autoconfiança perdida no caminho da pressa.
Aquele corre-corre que nos fez deixar de apreciar a jornada e suas belezas — belezas de um dia a dia com mais presença no aqui e agora, que contém os obstáculos e o processo de aprendizagem, que sim, contém o erro.
O erro que nos faz aprender e crescer.
Diante de uma sociedade apressada, noto que as pessoas passaram a ficar perdidas e inseguras — a começar pelas nossas crianças e pelos adultos insuficientes em si, vazios, frustrados.
Talvez seja o momento de voltarmos a incluir o estado de contemplação perdido, hoje com data marcada somente nas férias escolares das crianças ou do trabalho dos adultos. E olhe lá — alguns privilegiados aos finais de semana.
Pois, afinal, não se trata de datas reservadas, mas de espaço sobre este aspecto na mente.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras

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