Entre a sombra e o colapso; Cuiabá precisa escolher seu futuro

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Junho, mês marcado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, não pode ser apenas tempo de discursos, eventos e fotografias simbólicas. Para Cuiabá, precisa ser um chamado à ação. Uma capital conhecida pelo calor intenso não pode tratar a arborização urbana como detalhe estético. Arborizar é plantar sombra, saúde, beleza, pertencimento, valor econômico e futuro.

As árvores reduzem a sensação térmica, protegem pedestres, amenizam ilhas de calor, embelezam ruas e devolvem humanidade aos espaços públicos. Mas sua importância vai além do conforto térmico. O contato com áreas verdes melhora a saúde mental, reduz o estresse, estimula a convivência e fortalece o vínculo afetivo entre o cidadão e a cidade. Uma cidade arborizada é mais saudável, mais bonita, mais segura e mais viva.

Há também uma dimensão econômica que precisa ser assumida com seriedade. Casas, prédios, condomínios, comércios e empreendimentos próximos a praças, parques, corredores verdes e ruas arborizadas ganham qualidade urbana e maior valor de mercado. O verde valoriza o imóvel, atrai investimentos, melhora a experiência do comércio de rua, estimula a caminhabilidade e torna os bairros mais desejados para morar, trabalhar e empreender. A natureza não é obstáculo ao desenvolvimento; é estratégia inteligente de desenvolvimento.

Por isso, falar de arborização é falar de saúde pública, urbanismo, economia, cidadania e civilidade. Os cerca de 26% de arborização no centro urbano de Cuiabá não podem ser aceitos como retrato definitivo da nossa capital. Devem ser ponto de partida para uma virada coletiva. Há o Plano Nacional de Arborização Urbana, há recomendações de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas, e há responsabilidades evidentes da prefeitura e do Estado. Mas nenhuma política pública prospera quando a sociedade permanece indiferente.

Jared Diamond, em Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, mostra que civilizações não desaparecem apenas por tragédias inevitáveis. Muitas entram em decadência porque ignoram sinais evidentes, exploram mal seus recursos, perdem a capacidade de cooperação e deixam de tomar decisões coletivas no momento necessário. Cuiabá não pode esperar que o desconforto vire destino. Se nada for feito, o caminho é o de uma cidade cada vez mais árida, hostil, superaquecida, desigual e desconfortável para viver: uma espécie de terra arrasada urbana, em que o concreto avança e a qualidade de vida recua.

Mas esse destino pode ser mudado. E só será mudado pela união. Essa missão exige cooperação. Exige re-sentir Cuiabá, renovar compromissos e restabelecer o senso de comunidade. Cidadãos, empresas, escolas, universidades, associações de bairro, sociedade civil organizada e poder público precisam compreender que a árvore da calçada, a praça do bairro, o canteiro central e a sombra da avenida são bens comuns.

É aqui que o olhar de Elinor Ostrom se torna essencial. Ao estudar a governança dos bens comuns, Ostrom demonstrou que comunidades podem preservar recursos compartilhados quando existem participação, confiança, regras claras, monitoramento e responsabilidade coletiva. A cidade pertence a todos, mas só melhora quando cada um assume sua parte.

Também é indispensável convocar as instituições técnicas, acadêmicas, profissionais e comunitárias para essa responsabilidade. Conselhos profissionais, universidades, entidades de classe, órgãos públicos, empresas, especialistas e sociedade civil precisam atuar de forma integrada. A engenharia florestal, a agronomia, a arquitetura, o urbanismo e as demais áreas técnicas têm papel decisivo para que a arborização urbana não seja improviso, mas política planejada.

 

Escolher espécies adequadas, avaliar o solo, compatibilizar árvores com calçadas e redes elétricas, garantir manutenção, manejo e acompanhamento permanente são etapas essenciais. Plantar é importante; fazer crescer, proteger e manter é o verdadeiro compromisso.

Neste Mês do Meio Ambiente, Cuiabá precisa mais do que celebrar: precisa se comprometer. É tempo de colocar a capital de volta ao seu pedestal, não por vaidade, mas por responsabilidade histórica. Que os próximos Dias Mundiais do Meio Ambiente encontrem uma cidade com mais sombra, melhores estatísticas em qualidade de vida, mais cuidado e mais orgulho.
Cuiabá precisa voltar a florescer. E essa tarefa começa agora, com todos nós. Não é um convite. É um chamado. Venha.

 

André Luís T. Baby é Engenheiro Florestal, ME Sustentabilidade, Doutorando em Direito, Conselheiro e Vice-presidente do CREA Consultor Técnico do TCE-MT

 

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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