
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Nas eleições, os candidatos se lançam em uma disputa intensa, como atletas em uma corrida de 100 metros rasos. A velocidade é essencial: é preciso captar a atenção do eleitor rapidamente, gerar impacto com mensagens diretas e construir uma imagem forte em pouco tempo. Tudo acontece em alta intensidade, com cada detalhe da campanha calculado para influenciar a decisão do eleitor no momento do voto. Mas a política não se resume à corrida eleitoral. Após a vitória nas urnas, começa um novo desafio – e este não é uma prova de velocidade, mas de resistência. O mandato se assemelha a uma maratona, onde o planejamento estratégico e a constância são mais importantes do que explosões pontuais de esforço. E é exatamente nesse ponto que muitos políticos falham.
O erro de desacelerar após a eleição
Durante a campanha, os candidatos estão em todos os lugares: nas ruas, nas redes sociais, na imprensa. Seus discursos são emocionantes, suas propostas parecem revolucionárias, e a comunicação é planejada para persuadir e mobilizar. No entanto, ao assumirem o cargo, muitos reduzem drasticamente essa presença e adotam um comportamento mais reativo do que proativo. Isso é um erro grave. O eleitor que confiou seu voto quer acompanhar o trabalho do eleito. Ele precisa sentir que a sua escolha valeu a pena e que suas demandas estão sendo atendidas. No entanto, quando um político desaparece ou se comunica mal durante o mandato, o que se cria é um vácuo de informação – e esse vácuo sempre será preenchido, seja por críticas da oposição, seja por desinformação ou pela insatisfação da população. É por isso que a comunicação no mandato precisa ser tratada como uma estratégia contínua, e não como um esforço isolado que só ocorre em tempos de campanha.
A comunicação como resistência na maratona do mandato
Se na campanha eleitoral o objetivo da comunicação política é conquistar votos, no mandato ela se torna um pilar da governabilidade. Informar a população sobre as ações da gestão, responder a críticas de forma ágil e transparente e manter um diálogo constante com a sociedade são práticas fundamentais para a manutenção da credibilidade. Um bom político precisa entender que, assim como um maratonista administra seu ritmo para chegar ao final da prova com fôlego, ele também deve administrar sua comunicação para garantir que, ao fim do mandato, continue com apoio popular e reconhecimento pelo trabalho realizado.
Mas o que significa manter uma comunicação estratégica durante o mandato? Algumas diretrizes são essenciais:
1- estabelecer uma narrativa clara e coerente
Desde o primeiro dia de governo, o gestor precisa definir qual será sua principal mensagem para a população. O que ele quer que as pessoas lembrem quando ouvirem seu nome?
Qual legado deseja construir? Sem essa clareza, a comunicação se torna dispersa e ineficaz. A narrativa do mandato deve estar alinhada com os compromissos assumidos na campanha. Se um prefeito foi eleito prometendo melhorias na saúde, sua comunicação precisa reforçar constantemente os avanços e desafios dessa área, mostrando transparência e comprometimento.
2- Não depender apenas da comunicação oficial
Muitos políticos acreditam que a comunicação institucional, feita por canais oficiais da prefeitura ou câmara, é suficiente para dialogar com a população. No entanto, esses canais geralmente têm uma linguagem mais técnica e formal, o que pode criar uma barreira na relação com o eleitor. É essencial que o gestor mantenha uma presença ativa também em suas redes sociais, de forma mais humanizada e direta. Além disso, a imprensa continua sendo um veículo poderoso para ampliar o alcance da mensagem, garantindo que as informações cheguem a diferentes públicos.
3- Adotar uma comunicação transparente e ágil
Na era digital, os cidadãos esperam respostas rápidas e honestas dos gestores públicos. Esconder problemas ou tentar manipular a narrativa pode ser um tiro no pé, pois a internet proporciona mecanismos para que a verdade venha à tona rapidamente. Uma comunicação eficaz no mandato precisa ser transparente, reconhecendo desafios e apresentando soluções concretas. Se um problema surgir, é melhor enfrentá-lo de frente do que permitir que ele se transforme em uma crise maior.
4- Construir um relacionamento contínuo com a população
Assim como um maratonista precisa manter o ritmo ao longo da prova, o político precisa manter um diálogo contínuo com seus eleitores. Isso significa não apenas informar, mas também ouvir. Ferramentas como enquetes nas redes sociais, participação em eventos comunitários e criação de canais diretos de atendimento ajudam a aproximar a gestão da população, fortalecendo a sensação de pertencimento e engajamento.
5-Preparar-se para a próxima corrida
O fim do mandato não significa o fim da trajetória política. Quem deseja continuar na vida pública precisa enxergar cada mandato como uma fase de construção para os próximos desafios. Os políticos mais bem-sucedidos são aqueles que entendem que a comunicação é um processo contínuo, que não deve ser interrompido entre uma eleição e outra. Quem se comunica bem durante o mandato chega à próxima disputa com vantagem – porque já construiu credibilidade e reconhecimento.
Conclusão: comunicação é a chave para uma maratona de sucesso
Na política, vencer a eleição é apenas a linha de largada. O verdadeiro desafio começa depois, na longa jornada do mandato, onde a resistência e a estratégia fazem toda a diferença. Um político que administra bem sua comunicação garante não apenas a aprovação popular, mas também a possibilidade de consolidar sua trajetória e alcançar novos voos. Afinal, na política, não basta correr rápido. É preciso correr bem.
Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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