
O aroma que escapa das panelas de uma cozinha, no bairro Pequizeiro, em Cuiabá, não tem cheiro de peixe com pequi ou de Maria Isabel. Ele cheira a cominho, coentro e banana da terra frita. Para quem passa pela rua, é apenas um cheiro diferente, mas para a família de Elena Rojas, 34, esse é o cheiro de Caracas, capital da Venezuela.
Elena é uma das centenas de imigrantes que escolheram a capital mato-grossense como novo lar. Em meio ao desafio de recomeçar a vida em outro país, a culinária surge não apenas como sustento, mas como um cordão umbilical que os mantém ligados à terra natal.
Leia também – Médico alerta quando o cafezinho deixa de ser hábito e vira risco
Adaptar o paladar ao calor cuiabano e encontrar os ingredientes certos é o primeiro grande desafio, Elena conta que a busca pela farinha de milho branca pré-cozida, essencial para preparar as tradicionais arepas venezuelanas, já foi uma saga.
“No começo, em 2019, era quase impossível achar. Eu precisava pedir para amigos que viajavam a Pacaraima, na fronteira, trazerem fardos para mim. Hoje, felizmente, alguns mercados locais e feirinhas já entenderam que Cuiabá é multicultural e começaram a trazer o produto”, diz Elena.
A culinária tem o poder de encurtar distâncias, resgatar memórias e reconstruir lares. Para o venezuelano Eduardo Discor, de 39 anos, cada prato preparado em solo cuiabano é um pedaço da história que ele precisou deixar para trás.
Há uma década vivendo em Cuiabá, ele transformou a cozinha em um refúgio de afeto e em uma ferramenta de recomeço após ser forçado a abandonar seu país de origem devido à perseguição política.
Essa trajetória de reconstrução hoje ganha ritmo, sabor e ponto de encontro no Discor Bar, espaço onde ele une a hospitalidade cuiabana à energia e temperos de sua terra natal.
Ótimo lugar para se reencontrar e lembrar de casa, com muita música, ele mantém viva a conexão com suas origens, recriando pratos como o tradicional pabellón criollo e o plato navideño. Hoje, além de preservar suas memórias familiares, Eduardo vende comidas típicas venezuelanas (como pepitos, hambúrgueres e empanadas).
Nas prateleiras da mercearia Isaac, o destaque absoluto fica por conta de itens indispensáveis na mesa venezuelana. Além de abastecer as despensas das famílias que buscam resgatar suas tradições, o estabelecimento tem despertado a curiosidade dos cuiabanos. Atraídos pela novidade, os moradores locais entram para conhecer os produtos, pedir dicas de receitas e experimentar novos sabores, gerando uma rica troca cultural.
Para Mary Pires, o mercado recém-aberto representa muito mais do que um ponto comercial. É a realização de um sonho de independência financeira em um novo país e a consolidação de sua trajetória de recomeço. O comércio já se firma como um elo entre o passado que ficou na Venezuela e o futuro promissor que se constrói a cada dia.

Faça um comentário