‘Capa histórica’ depende de diversas ações a longo prazo

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Mato Grosso termina o ano sem registrar feminicídios. Essa é a manchete que sonhamos publicar. Uma capa que seria histórica e construída não apenas por estatísticas zeradas, mas por vidas preservadas, mulheres protegidas e uma sociedade capaz de interromper a violência antes do desfecho fatal. Em 2026, porém, esse cenário já não é mais possível.

 

Somente neste ano, 18 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso, segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) e do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). A maior parte das vítimas tinha entre 18 e 29 anos. Em 14 dos 18 casos, os assassinatos ocorreram dentro da casa da vítima ou do agressor.

 

Os números consolidam Mato Grosso entre os estados com maiores índices de violência contra a mulher no país. Por trás de cada número, ficam famílias destruídas, filhos órfãos e sinais de violência que muitas vezes foram ignorados.

 

No aniversário de 36 anos do Jornal A Gazeta, celebrado neste sábado (23), a reportagem propõe um exercício de reflexão e, ao mesmo tempo, de urgência: o que ainda falta para que nenhuma mulher seja assassinada por ser mulher? Para especialistas e representantes da rede de proteção, o caminho passa por prevenção, integração entre instituições e mudança cultural.

 

Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Cenira Evangelista afirma que um dos principais desafios é romper a ideia de que a violência começa apenas no assassinato. Segundo ela, ameaças, controle, ciúme excessivo e agressões anteriores ainda são frequentemente naturalizados. Cenira também aponta que a dimensão territorial de Mato Grosso dificulta o acesso rápido das vítimas à rede de proteção, principalmente em municípios menores e distantes. “Enquanto a violência contra a mulher continuar sendo tratada como problema de casal, e não como questão de direitos humanos, continuaremos chegando tarde em muitos casos”.

 

A promotora de Justiça Claire Vogel Dutra avalia que Mato Grosso ainda está distante de alcançar um período sem feminicídios, principalmente pela falta de estrutura em parte da rede de proteção. Segundo ela, municípios menores ainda enfrentam carência de efetivo policial, serviços especializados e apoio institucional. “Nos locais mais distantes, muitas vezes falta estrutura e presença do Estado. Isso faz diferença e pode custar vidas”.

 

Claire destaca ainda que a prevenção depende da atuação conjunta entre poder público, escolas, igrejas, familiares e amigos. “A mulher precisa encontrar apoio antes que essa violência chegue ao extremo. Precisamos de instituições mais integradas, estrutura e atendimento. Esse trabalho já começou, mas os resultados ainda serão colhidos no futuro, conclui.

Segundo a promotora, a redução dos feminicídios passa por mudanças estruturais e culturais que exigem tempo e atuação permanente”.

 

Imprensa e sociedade

Presidente da Comissão da Mulher da OAB-MT, Querem Hapuque Dias defende que reduzir feminicídios exige atuação antes da tragédia. “Não basta endurecer leis depois que a mulher já morreu. É preciso prevenção, acolhimento, independência econômica e atuação integrada das instituições”, afirma.

 

Querem avaliar que o feminicídio revela uma falha coletiva da sociedade. “Muitos crimes acontecem quando a mulher tenta romper a relação ou conquistar autonomia. Isso mostra que ainda existe uma cultura de posse sobre a vida e a liberdade da mulher”.

 

Para Querem, a forma como o feminicídio é noticiado também influencia no enfrentamento à violência contra a mulher. Segundo ela, a imprensa ajuda quando informa canais de denúncia, explica sinais da violência, ouve especialistas, dá visibilidade à rede de proteção e trata a vítima com respeito. “A notícia não pode terminar apenas na morte. Ela precisa provocar uma reflexão e uma prevenção na sociedade”.

 

Quando a rede funciona

Defensora pública, Tânia Regina de Matos acredita que zerar feminicídios é possível, desde que as políticas públicas atuem de forma integrada. No país, muitos municípios conseguiram, e as experiências que deram certo mostram que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa ser contínuo e integrado.

 

Matos lembra que investimento em prevenção, fortalecimento da rede de atendimento, fiscalização das medidas protetivas e articulação entre segurança pública, assistência social, saúde, educação e Justiça precisam estar integrados. Ela cita como exemplo Várzea Grande, que conseguiu reduzir gradativamente os casos após fortalecer ações conjuntas entre assistência social, educação, segurança pública, sistema de Justiça e organizações da sociedade civil. Segundo a defensora, o município chegou a zerar os feminicídios em 2023 após fortalecer ações preventivas dentro das escolas e ampliar o trabalho conjunto na rede de proteção. Quando os serviços funcionam de forma articulada e os equipamentos sociais estão estruturados, é possível reduzir drasticamente os números.

 

Educar também é o caminho

O enfrentamento aos feminicídios também passa pela mudança na forma como meninos e meninas são educados emocional e socialmente. Na avaliação das entrevistadas, discutir respeito, igualdade e relações saudáveis desde cedo é parte essencial para impedir que a violência continue se repetindo dentro de casa. Para elas, a manchete sonhada para o futuro talvez comece nas pequenas violências que a sociedade decidir não ignorar mais.

 

Ampliar o diálogo com crianças, jovens e homens é essencial, e a transformação cultural passa pela construção de relações mais respeitosas e igualitárias também dentro de casa, afirma a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Cenira.

 

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Link da Matéria – via Gazeta Digital

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