
Rodinei Crescêncio
Há quinze anos, Canarana ainda caminhava sob o compasso lento da pecuária extensiva. Inserida no Araguaia mato-grossense — região apelidada de “vale dos esquecidos” — o município vivia à margem dos grandes investimentos e das políticas públicas. Hoje, o retrato é outro: Canarana ostenta o título de capital mundial do gergelim, transformou-se em polo agrícola de peso e agora desponta como epicentro de uma revolução silenciosa — a industrialização do agronegócio. “ Num Brasil ainda refém da exportação de produtos primários, Canarana mostra que é possível inverter a lógica: combinar abundância agrícola com sofisticação industrial”
Os números não deixam dúvidas. Enquanto a população brasileira cresceu modestos 6,45% entre 2010 e 2022, Canarana saltou impressionantes 37,8%, quase seis vezes a média nacional. No PIB municipal, a disparidade é ainda mais ruidosa: 40% de expansão contra apenas 4,8% do país, segundo o IBGE. Mais do que ritmo, esses dados revelam uma direção clara: Canarana trocou o atraso pelo futuro.
“Desenvolvimento sustentável depende da complexidade econômica”, ensina o economista Paulo Gala. É exatamente essa complexidade que emerge em Canarana. O município deixou para trás a monocultura pecuária e hoje diversifica: soja, milho, gergelim. Mas não para aí — está se moldando em complexo industrial do agro, capaz de agregar valor, tecnologia e redes de inovação.
As provas estão espalhadas pela paisagem. A Agrícola Ferrari empurra o gergelim rumo ao mercado internacional. A Sezan Zaad ergue uma esmagadora para produzir óleo do grão. A Bunge fortalece a soja. A Agrícola Alvorada prepara a inauguração de uma usina de etanol de milho que promete mais de 220 milhões de litros por ano, aproveitando cada insumo: do DDG ao óleo, passando pela própria energia que alimentará a planta. E a Cocamar já confirmou a construção de um imenso armazém de grãos.
Enquanto isso, o prefeito Vilson Biguelin se transformou em anfitrião de comitivas internacionais: a cada semana, recebe empresários vindos dos quatro cantos do mundo interessados em fincar bandeira no município. É um sinal inequívoco: Canarana entrou de vez no radar global.
Cada empreendimento traz mais do que empregos: traz conhecimento, logística, inovação. É a transição da commodity para o valor agregado, um passo que reposiciona o município nas cadeias globais, tornando-o atrativo para corporações e investidores.
No tabuleiro regional, como aponta Sérgio Abranches, a transformação transcende a economia. É uma mudança de território e de sociedade. O Araguaia, antes sinônimo de esquecimento, hoje é reconhecido como a principal fronteira agrícola do planeta. A malha rodoviária asfaltada já garante competitividade e a futura ferrovia promete cortar custos logísticos, catapultando Canarana a nó estratégico entre produção e mercados globais.
O resultado é cristalino: Canarana deixou de ser periferia. É símbolo de uma nova economia industrial do agro, onde terra, capital, trabalho e economia verde convergem. Em escala regional, representa um laboratório vivo de desenvolvimento sustentável, industrialização e inovação.
Num Brasil ainda refém da exportação de produtos primários, Canarana mostra que é possível inverter a lógica: combinar abundância agrícola com sofisticação industrial. O que antes era fronteira esquecida, hoje é vanguarda do desenvolvimento.
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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