
Rodinei Crescêncio
Há um antigo provérbio romano que diz: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” A máxima, repetida ao longo da história, serve como ponto de partida para um debate que, embora incômodo, é inevitável: não seria o momento de o Brasil refletir sobre a posse de armamento nuclear?
O questionamento ressurge diante de declarações recentes vindas dos Estados Unidos. Uma porta-voz do governo norte-americano chegou a sugerir a possibilidade de uma intervenção militar em solo brasileiro. A provocação nos obriga a pensar: tal ameaça seria feita caso o Brasil tivesse a bomba atômica? “ Devemos investir recursos, energia e prestígio internacional na corrida nuclear? Ou continuar sustentando nossa posição histórica de compromisso com a paz e com o desarmamento”
Exemplos não faltam. A Coreia do Norte, com todo o seu isolamento e autoritarismo, tornou-se um caso emblemático. Quando seu líder ameaçou os Estados Unidos, o então presidente Donald Trump não respondeu com força bélica direta. Pelo contrário: buscou aproximação, diálogo e até encontros pessoais. O simples fato de o país asiático dispor de ogivas nucleares mudou o tom da conversa. A posse desse tipo de armamento parece ser, paradoxalmente, um mecanismo de defesa mais eficaz do que qualquer exército convencional.
É claro que, para muitos, a ideia de recorrer ao poder militar soa como um contrassenso. Ser pacifista e, ao mesmo tempo, considerar a bomba atômica como fator de segurança é um choque de valores. A lógica que sustenta esse raciocínio é dura: quanto maior a capacidade de destruição de um país, menor a chance de que alguém se arrisque a atacá-lo. É o paradoxo da violência estatal, a ameaça extrema como garantia de estabilidade.
Mas seria esse o caminho para o Brasil? Devemos investir recursos, energia e prestígio internacional na corrida nuclear? Ou continuar sustentando nossa posição histórica de compromisso com a paz e com o desarmamento, princípios que nos renderam respeito no cenário diplomático global?
O dilema está lançado. Ao mesmo tempo em que a ideia de um Brasil armado com ogivas nucleares causa arrepios, é inegável que a fragilidade bélica nos torna mais suscetíveis a pressões externas. Somos um país de dimensões continentais, com riquezas naturais cobiçadas pelo mundo, mas sem instrumentos reais de dissuasão contra potências militares.
Essa reflexão não é um convite à militarização, nem uma defesa cega da bomba atômica. É, antes, a constatação de uma contradição: para manter a paz, talvez seja preciso flertar com o maior símbolo da guerra. Entre o ideal pacifista e a realidade geopolítica, abre-se um espaço de debate que o Brasil não pode mais ignorar.
Se queremos paz, como dizia o provérbio romano, até onde estamos dispostos a ir para garanti-la?
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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