
Bancário há 17 anos e atualmente afastado pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), Ricardo Holetz, 39, sofre de Neuropatia Trigêmea, uma das sequelas da Hanseníase. Diante do cenário, ele criou a “vaquinha” online para arcar com as despesas da terapia que ameniza os efeitos da doença. Apesar de o tratamento para hanseníase ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as despesas para atenuar as sequelas são altas e não são cobertas pelo sistema de saúde pública.
Atualmente, Ricardo faz uso de morfina em grandes quantidades, além de tratamentos alternativos e consultas com diversos profissionais.
Em entrevista ao , Ricardo relata que tudo começou há aproximadamente sete anos, com uma dor no lado direito do rosto que ninguém conseguia explicar. Com o tempo, o sintoma evoluiu para uma queimação e logo vieram outros sintomas: câimbras, formigamentos, dormências e sensações estranhas pelo corpo. Mesmo passando por vários profissionais, nenhum deles conseguiu relacionar todas as queixas. Foi então que uma colega de trabalho ouviu Ricardo e mencionou a possibilidade de hanseníase. Logo, o bancário procurou por um especialista e, após uma longa investigação, veio o diagnóstico.
Ricardo fez um ano de poliquimioterapia, disponibilizada pelo SUS. O tratamento combina vários remédios diferentes para combater a doença de forma mais forte e segura. Sua maior dificuldade, no entanto, sempre foi outra: controlar a dor e entender o que havia acontecido com seus nervos.
“No meu caso, a dor facial evoluiu para um quadro de queimação extrema, principalmente dentro do nariz e no rosto. Uma dor incomum e difícil de controlar, que não encontrava uma resposta simples nos tratamentos convencionais. E a dor não espera. Ela não espera você ter dinheiro. Não espera uma consulta disponível. Não espera a autorização de um plano de saúde. Não espera o resultado de um exame”, relata.
Ao longo do processo, Ricardo precisou buscar diferentes alternativas para controlar a dor causada pela neuropatia trigêmea pós-hanseníase. Fez bloqueios anestésicos, tratamento para dor neuropática e tentou diferentes medicamentos, inclusive antidepressivos usados no controle da dor, além de canabidiol. Depois de avaliar o quadro, Ricardo entrou novamente em uma fase de tratamento medicamentoso como parte de uma estratégia individualizada definida pela equipe médica. O objetivo é observar se existe a possibilidade de controlar o processo relacionado ao quadro e, principalmente, avaliar se é possível obter alguma melhora.
Da necessidade de custear consultas, exames e tratamentos para dor nasceu a “vaquinha” online, em que Ricardo já arrecadou cerca de R$ 15 mil, metade da meta de R$ 30. Além de utilizar o site “vakinha.com.br”, Ricardo Holetz também usa seu perfil no Instagram (@ricardoholetz) como ferramenta de conscientização sobre a hanseníase e espera que sua história ajude outras pessoas a perceberem que a doença ainda afeta a população e que as consequências do diagnóstico tardio podem ser profundas e devastadoras.
“Precisei procurar médicos, fazer exames, buscar outras opiniões e tentar tratamentos. E isso tudo trouxe custos que, mesmo trabalhando há 17 anos, sendo pai de família e tendo construído uma vida, se tornaram muito difíceis de suportar sozinho. A vaquinha não nasceu porque eu quis transformar minha doença em espetáculo ou porque esperei que alguém viesse resolver a minha vida. Pelo contrário. Ela nasceu porque eu fiz tudo o que estava ao meu alcance e, mesmo assim, cheguei a um ponto em que precisei pedir ajuda para continuar”, explica.
A hanseníase ainda é uma realidade que está longe de ser apenas uma doença do passado. Em 2024, foram registrados mais de 22 mil casos novos no país, e o Brasil permanece como o segundo país do mundo em número de novos diagnósticos, atrás apenas da Índia. Índia, Brasil e Indonésia concentraram quase 80% dos novos casos registrados globalmente. Entre 2015 e 2024, o Brasil reportou mais de 301 mil casos de hanseníase.
O cenário é ainda mais preocupante porque a doença pode permanecer por anos sem diagnóstico. Quando isso acontece, aumenta o risco de comprometimento dos nervos, incapacidades físicas e outras sequelas. Por isso, embora a hanseníase tenha tratamento e cura, o diagnóstico precoce continua sendo essencial para evitar consequências que podem permanecer mesmo após a eliminação da infecção.
Mato Grosso ocupa uma posição particularmente preocupante nesse cenário. O estado está entre as áreas brasileiras de maior endemicidade. Em 2024, foram registrados 4.674 novos casos em Mato Grosso, um número extremamente elevado para uma única unidade da Federação e que demonstra a dimensão da circulação da doença no estado.
As doações podem ser realizadas via PIX pela chave 6044152@vakinha.com.br.

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