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Mesmo com a popularização das “agulhadas” de botox, alguns procedimentos possuem mais a oferecer do que um fim estético. O principal deles é a cirurgia ortognática, que ajusta a mordida de uma pessoa por meio de fraturas planejadas, em sua maioria movendo o queixo, com o objetivo de corrigir problemas funcionais na respiração, mastigação ou fala. No entanto, a ortognática, embora tenha benefícios estéticos, não deve ser realizada em qualquer pessoa, ainda que o paciente insista.
A cirurgia ortognática envolve o acompanhamento de um ortodontista, que faz a preparação com uso de aparelho ortodôntico, e de um cirurgião bucomaxilofacial. Durante a cirurgia, o médico faz fraturas planejadas a fim de movimentar os ossos e fixá-los com parafusos. “ Às vezes, o paciente chega para nós exigindo demais. Eu, simplesmente, digo que a expectativa está muito além do que é possível e viável dentro da cirurgia. Essa é a função do profissional” Alerta o ortodontista Darwin de Lima
A busca pela cirurgia ortognática é motivada, majoritariamente, quando a pessoa possui retrognatismo, quando o queixo está para trás, ou prognatismo, quando o queixo é para frente. Os pacientes cirúrgicos apresentam dificuldades funcionais associadas a esse problema. Entretanto, alguns pacientes veem a cirurgia como a única opção ou esperam um resultado milagroso.
Em sua maioria, a ortognática é recomendada para casos de problemas respiratórios, como a apneia do sono, visto que podem encurtar o tempo de vida do paciente. No entanto, é comum que haja procura quando há pequenos desconfortos estéticos, a fim de harmonizar o perfil ou o sorriso. Com isso, o profissional também não pode deixar-se levar pelo valor do procedimento.
“Trata-se de usar o bom-senso. Às vezes, o paciente chega para nós exigindo demais. Eu, simplesmente, digo que a expectativa está muito além do que é possível e viável dentro da cirurgia. Essa é a função do profissional: avisar o paciente”, explicou Darwin de Lima, ortodontista diplomado pelo board da Associação Brasileira de Ortodontia e Ortopedia Facial (ABOR). Annie SouzaRdnews
Mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), ortondontista Darwin de Lima afirma que nem sempre é possível conseguir a realidade do Instagram
Mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), Darwin explica que querer mudar o rosto pela estética pode ser a realização de uma pessoa, desde que seja pelos meios adequados. Para ele, o essencial é dar ao paciente as informações corretas sobre o que ele deseja, não propagandear a cirurgia para um incômodo que seria resolvido de uma forma mais simples.
“Um paciente pode se convencer da expectativa dele, sair de um consultório e procurar outro profissional que possa vender a solução. Mas o paciente precisa da informação correta. Nós vivemos uma “era do Instagram”, mas as pessoas têm ficado melhor no Instagram do que em Ortodontia”, afirmou.
Ao final, cabe ao profissional orientar o paciente sobre o recurso adequado para o problema apresentado, prezando pela melhor solução. Atualmente, a cirurgia ortognática é apenas uma das soluções para os problemas de mordida.
Além da ortognática
A depender da queixa do paciente, há outros meios para a resolver um retrognatismo ou prognatismo. Para as queixas estéticas, o normal é a recomendação de cirurgias menos agressivas, como próteses, preenchedores ou versões mínimas da ortognática.
“Com o avanço da tecnologia da Ortodontia, nós conseguimos devolver a função respiratória, ou mastigatória, sem que ele precise da ortognática. Isso depende de uma avaliação precisa para que nós saibamos se esse paciente é ou não cirúrgico”, explica o cirurgião bucomaxilofacial e médico João Guilherme Gabriel.
Para o cirurgião, é importante avaliar se o paciente possui algum distúrbio ligado à deformidade. Caso não, é preferível buscar outros meios. “ Melhorou a minha respiração, parei de roncar. Eu tinha muito problema de estômago, só depois descobri que era porque eu não mastigava direito. E não foi por conta de estética. Como eu uso barba, eu não percebia que eu tinha o queixo para frente, não era algo que me incomodava” Revela o publicitário Marcus Valetim
Com 25 anos de atuação, tanto na medicina quanto na odontologia, João Guilherme destaca que é importante, ao encaminhar um paciente para a cirurgia, que o profissional tenha ciência de que trata-se de um procedimento complexo. Ainda que seja agradável ao bolso, o paciente pode se colocar em risco “gratuitamente”, já que não tinha o que corrigir.
“Mesmo bem executada, uma cirurgia ortognática pode trazer sequelas para o paciente. Ela pode trazer sensações de disfunções nervosas, que são as disestesias, o paciente pode sentir dor, pode perder a sensibilidade e pode, embora raro, perder os movimentos faciais”, completou o cirurgião.
O publicitário Marcus Valentim precisou fazer a cirurgia ortognática após perceber um inchaço na articulação temporomandibular (ATM). Antes de passar pelo procedimento, ele precisou usar um aparelho para expandir o céu da boca, já que o arco dos dentes superiores era menor que o dos inferiores. Além disso, o queixo de Marcus era projetado para a frente.
Marcus precisou fazer duas cirurgias em 2023 e encontra-se com quatro placas de 16 parafusos. Após isso, decidiu fazer um tratamento estético com lentes de contato. Para ele, a cirurgia só gerou benefícios e qualidade de vida.
“Melhorou a minha respiração, parei de roncar. Eu tinha muito problema de estômago, só depois descobri que era porque eu não mastigava direito. E não foi por conta de estética. Como eu uso barba, eu não percebia que eu tinha o queixo para frente, não era algo que me incomodava. Talvez, eu passei a usar a barba, inconscientemente, por isso”, comentou.
Ainda que recomende a cirurgia, Marcus não nega que tenha tido sequelas. A mais notória são parestesias – perda de sensibilidade na pele – na altura das maçãs do rosto. “Quando passa a mão, eu sinto uma fisgadinha no olho, uma cócega, uma coceirinha no olho. Mas nada demais, não é nada que me incomoda”, detalhou.
A funcionalidade da cirurgia ortognática e sua consequência estética se fundem em muitos casos, mas sempre nos que são de maior gravidade. “Eu envio muitos pacientes do meu consultório contra indicando a cirurgia, porque acredito que muitos casos limítrofes podem ser tratados apenas com o aparelho. Logo, reservando a cirurgia para os casos em que a função está comprometida”, finaliza João Guilherme.

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