A trajetória da urna eletrônica para levar a democracia ao interior de Mato grosso

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A interiorização do voto eletrônico em Mato Grosso representa um dos capítulos mais desafiadores e emblemáticos da história da Justiça Eleitoral brasileira. Se nas capitais a transição tecnológica ocorreu de forma rápida no fim dos anos 1990, garantir que a urna eletrônica alcançasse as áreas mais remotas do território mato-grossense exigiu uma operação logística de grandes proporções.

 

A expansão no estado ocorreu de forma gradual. Após a votação pioneira em Cuiabá nas eleições de 1996, o modelo informatizado avançou em 1998 para mais quatro polos regionais nas cidades de Sinop, Cáceres, Rondonópolis e Várzea Grande. Porém, esse processo se consolidou totalmente em 2002, quando Mato Grosso e todo o Brasil atingiram 100% das seções informatizadas.

 

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Levar a urna eletrônica às comunidades ribeirinhas, vilarejos isolados e territórios de povos originários exigiu vencer uma geografia diversa e complexa. Segundo o coordenador de Soluções Corporativas do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), Carlos Henrique Cândido, a extensão territorial do estado impõe desafios únicos para a organização das eleições.

 

“Para vocês terem uma ideia, Mato Grosso é o terceiro estado mais complexo em matéria de tamanho, mas ele de fato é o segundo estado mais complexo para se fazer uma eleição”, afirmou.

 

Ao contrário de outros estados extensos da Região Norte, em que os rios são como as principais rotas de transporte e concentram as populações em suas margens, em Mato Grosso a população está dispersa por vastas áreas do território.

 

“O estado do Amazonas parece muito complexo, mas a população se concentra ao longo do rio. Mato Grosso, não. Mato Grosso, por conta das suas dimensões e peculiaridades, a população se concentra ao longo de todo o estado. E isso cria dificuldades logísticas enormes”, pontuou.

 

As fronteiras regionais ilustram a escala dessa mobilização, uma vez que o norte faz divisa com o sul do Pará e do Amazonas, o sul abrange a região do Pantanal, o leste acolhe a vasta região do Xingu e do Araguaia e o oeste faz fronteira com a Bolívia.

 

“Então, nós somos um país-estado. E a nossa eleição é uma das mais complexas por isso, por essa condição. Levar a urna, levar o voto até essas condições é uma logística hercúlea”, definiu Cândido.

 

Inclusão social e autonomia  

Essa complexidade geográfica ganha contornos ainda mais marcantes ao considerar o atendimento às diversas etnias indígenas do estado, como os Xavante, Paresí, Bororo, Kayapó, além de dezenas de povos que habitam o Parque Indígena do Xingu e terras demarcadas do Araguaia ao Guaporé. Alcançar essas comunidades exige operações que envolvem transporte por barcos, veículos tracionados e até apoio aéreo para garantir a presença da Justiça Eleitoral nas aldeias.

 

Além dos desafios de transporte, a chegada do voto eletrônico às terras indígenas transformou radicalmente o exercício da cidadania desses povos. No antigo modelo em papel, a necessidade tanto de comunidades ribeirinhas quanto de indígenas escreverem de próprio punho o nome ou o número do candidato criava barreiras para eleitores com menor domínio da língua portuguesa ou com acesso limitado ao letramento formal.

 

“Primeiro, é preciso verificar e entender que a urna eletrônica é inclusiva. O eleitor do passado, diante da urna eletrônica, tinha que conseguir escrever legivelmente o seu voto. O que é uma condição complexa, levando em conta a condição do estado de Mato Grosso, principalmente das regiões de mais difícil acesso”, explicou o coordenador.

 

A simplicidade da interface da urna, baseada no teclado numérico, no sinal sonoro de confirmação e na exibição da foto do candidato na tela, garantiu autonomia total aos eleitores indígenas. A confirmação visual permitiu que ribeirinhos e indígenas de diferentes etnias votassem sem intermediários e com a certeza de que a escolha realizada no painel era exatamente a registrada pelo sistema.

 

“Com a urna, bastava digitar o número do candidato. E, ao eleitor verificar a foto do candidato, ele tinha certeza de que tinha votado certo. Então, esse eleitor recebeu a urna com festa, com comemoração. Porque a urna garantia que ele tinha votado certo. Isso foi muito importante e ajudou muito no processo de interiorização da tecnologia”, concluiu Cândido.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

1 Comentário

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