A comunicação tradicional não alcança mais o eleitor cansado

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Vivemos tempos desafiadores para a política — e ainda mais desafiadores para quem precisa comunicá-la. A velha fórmula que por anos estruturou campanhas eleitorais, falas públicas e pronunciamentos oficiais começa a perder força diante de um cenário cada vez mais complexo, digitalizado e emocionalmente saturado. E isso não é por acaso.

O eleitor de 2025 está cansado. Cansado de promessas. Cansado de discursos padronizados. Cansado de narrativas que não dialogam com sua realidade. Cansado da política que fala, mas não escuta.

A comunicação tradicional, baseada na lógica do convencimento vertical — do político que fala e do povo que escuta — já não se sustenta em uma sociedade hiperconectada, fragmentada e carente de vínculos de confiança. O que temos hoje é um eleitor que não quer mais ser convencido — quer ser compreendido. “ Se o político não consegue traduzir a própria atuação de forma clara, humana e emocionalmente acessível, ele perde relevância. E hoje, quem não comunica com autenticidade, desaparece”

O cansaço do eleitor é real — e perigoso

·         Esse cansaço não é apenas um estado emocional. Ele tem impactos concretos: Afastamento do debate público.

·         Baixa participação em processos eleitorais.

·         Adoção de posturas radicais ou negacionistas.

·         Desvalorização da política como ferramenta de mudança.

Em muitos casos, o eleitor não vota pelo que acredita, mas por raiva, medo ou desilusão. O voto deixa de ser racional ou esperançoso e passa a ser um grito de protesto ou uma escolha por eliminação. Esse ambiente é terreno fértil para populismos, manipulações e desinformação.

E aí entra a comunicação política — ou melhor, a necessidade de reinventá-la.

O eleitor não quer discurso. Quer escuta, vínculo e verdade.

Não é mais sobre o que você diz. É sobre como o eleitor se sente ao te ouvir.

Os discursos padronizados e excessivamente institucionais — aqueles recheados de termos técnicos, números soltos e frases feitas — não emocionam, não engajam e, pior: não permanecem.

Se o político não consegue traduzir a própria atuação de forma clara, humana e emocionalmente acessível, ele perde relevância. E hoje, quem não comunica com autenticidade, desaparece.

Por que a comunicação tradicional fracassa hoje?

Ela é unidirecional.

Fala, mas não ouve. Publica, mas não interage. Informa, mas não se importa com o retorno.

É egocentrada.

Exalta a figura do político, mas esquece das pessoas que deveriam ser o centro da mensagem.

É distante.

Usa uma linguagem técnica, formal, institucional — quando o eleitor quer alguém que fale como gente.

É fragmentada.

Não conecta as ações do mandato ou da campanha a uma narrativa coerente, emocional e contínua.

O que a nova comunicação política precisa ser?

Dialógica.

Tem que ouvir, responder, adaptar. Tem que aceitar críticas e transformar feedback em estratégia.
Humana.

Histórias reais, sentimentos verdadeiros, vulnerabilidades expostas. O público quer políticos que pareçam gente — e não máquinas de prometer.

Visual e emocional.

Reels, carrosséis, vídeos curtos, bastidores, bastidores, bastidores. A estética importa. A espontaneidade também.

Planejada.
Não basta reagir. É preciso antecipar. Ter calendário, narrativa, estratégia. E alinhar o que se comunica ao que se faz.

Exemplo prático: o que engaja?

📉 Post tradicional: “Deputado Fulano esteve presente na solenidade de entrega do ônibus escolar na comunidade X. A ação foi resultado da emenda nº 123/2024 no valor de R$ 250 mil.”

Pouco alcance. Pouca conexão.

📈 Post com comunicação conectada: “Você lembra quando a dona Joana, lá da comunidade X, disse que os filhos dela precisavam andar quase uma hora pra chegar na escola? Hoje, esse trajeto ficou mais curto e mais seguro. O novo ônibus escolar já chegou por lá. E isso só foi possível porque ouvimos e agimos.” Tem rosto, tem causa, tem emoção. Isso conecta.

Como sair da comunicação que cansa?

ü  Substitua o “politiquês” pela linguagem da vida real.

ü  Crie narrativas, não apenas posts.

ü  Mostre bastidores, pessoas, histórias.

ü  Tenha constância. Quem só aparece em campanha não constrói confiança.

ü  Seja verdadeiro. Autenticidade comunica mais do que performance.

Um novo ciclo exige uma nova forma de comunicar

A política que vai sobreviver — e crescer — nos próximos anos será aquela capaz de dialogar com um eleitor exigente, emocionalmente exausto, mas ainda esperançoso. Porque sim, a esperança ainda existe. Ela só precisa ser despertada com mais verdade e menos roteiro, com mais conexão e menos autopromoção.

A comunicação política precisa deixar de ser vitrine para ser ponte.

Precisa descer do palanque e sentar na mesa com as pessoas.

E, acima de tudo, precisa lembrar que comunicar é cuidar — da imagem, da reputação e do vínculo com quem realmente importa: o cidadão.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

 

Link da Matéria – via RD News

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