
Empresas com os mesmos recursos, inseridas no mesmo mercado e compostas por pessoas igualmente qualificadas podem apresentar resultados diametralmente opostos. A explicação para esse abismo, muitas vezes desconfortável para a gestão, não reside em falhas mecânicas ou físicas, mas na engrenagem estrutural do pensamento.
Recentemente, participei de uma imersão na Academia de Líderes do IEL no MIT (Massachusetts Institute of Technology), e me deparei com uma reflexão interessante: a metáfora do sofá. A missão de mover um sofá parece, à primeira vista, um esforço puramente físico. No entanto, o sucesso da tarefa depende de milhares de decisões tomadas antes mesmo de o móvel sair do chão.
É preciso calcular o peso, prever se o caminho inclui escadas, antecipar se haverá dor nas costas e identificar o momento exato de pedir ajuda. Antes mesmo de conseguir mover o sofá já foram tomadas inúmeras decisões, muita energia já foi gasta em resolver de fato o problema físico de mover o sofá. Na governança corporativa, o erro fatal de muitas organizações é justamente esse: tentar erguer o peso e movimentar o sofá sem o planejamento da rota.
Muitos negócios fracassam não por falta de capacidade técnica, mas por estarem presas na “zona de perigo”. É o modo de sobrevivência, onde a liderança gasta toda a sua energia apagando incêndios e resolvendo problemas imediatos, focados na sobrevivência e não em resolver de fato os problemas.
Esse ciclo vicioso impede a transição para a “zona de ganho”, o estágio em que a gestão possui margem para pensar, melhorar e, finalmente, evoluir. Aplicar uma governança eficiente significa atuar como um sistema de inteligência prévia e criar espaços de respiro e capazes de tomar decisões adequadas.
Antes de qualquer movimento brusco na estrutura de uma empresa, o líder precisa ter a clareza de quem carrega o “sofá” ao seu lado e para onde ele está sendo levado. A força bruta sem direção gera apenas desgaste; a estratégia com direção gera valor. Para que essa evolução ocorra, o professor sênior do MIT, Steven Spear ensina que a liderança deve dominar três movimentos essenciais: amplificar a visão, desacelerar para ganhar precisão e simplificar processos complexos.
Inovação, afinal, não é sobre ter ideias isoladas, mas sobre cultivar o ecossistema correto e as conexões precisas. O futuro dos negócios e das empresas familiares não será definido pela substituição de pessoas por máquinas ou inteligências artificiais, mas pela coragem de usar a tecnologia para pensar estrategicamente.
Erguer o sofá da governança exige esforço, mas saber para onde ele vai e quem o carregará ao seu lado é o que separa a sobrevivência da longevidade.
Luize Calvi Menegassi Castro é advogada, mestre em Direito pela UFMT, sócia do escritório Oliveira Castro Advogados, atuante no campo consultivo, preventivo, contratual e contencioso nas áreas do Direito Societário, Empresarial, Contratos e Cível e possui formação em Governança Corporativa e Governança em Empresas Familiares pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), com ESG aplicado e Gestão de empresas Familiares pelo INSPER.

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