Zolpidem pode causar vício e uso durante o dia gera riscos, alerta psiquiatra

Imagem

Arte: Annie Souza/Rdnews

A Anvisa aprovou um maior controle na prescrição de Zolpidem, medicamento que é utilizado no tratamento de insônia. A alteração, que passa a vigorar em agosto, busca maior controle na venda da medicação. A professora e psiquiatra Luisa Forte Stuchi Queiroz defende a medida e reflete que muitas pessoas estão utilizando Zolpidem de forma insdiscriminada, em altas quantidades e até colocando a própria vista em risco quando a administração ocorre durante o dia, praticando as atividades do cotidiano. Em entrevista especial ao , concedida na sede do portal, Luisa reflete que Zolpidem é necessário em alguns casos, mas pondera que seu uso deve ser feito apenas por um período e que o uso prolongado pode gerar dependência.

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista:

***

Foram mais de 22 milhões de caixas vendidas do Zolpidem no último ano e teve esse ajuste, feito pela Anvisa, em relação à receita. Dá para se dizer que no Brasil existiu um uso indiscriminado dessa medicação e que isso estava trazendo prejuízos à saúde da população?

Existe sim um uso indiscriminado que causa prejuízo à saúde. Tem gente que usa da forma como tem que ser feito, mas existe uma grande parte da população que tem uma tolerabilidade em relação a essa medicação e aí acaba tendo que tomar um, dois, três, dez, quinze, trinta, quarenta comprimidos para ter o mesmo efeito. Por isso que foi muito importante essa indicação sair de receita especial, que já era um controle, que é a dupla carbonada, para aquela receita azul, tarja preta, que são medicações que causam dependência.

Quando um paciente se torna dependente do Zolpidem, é muito difícil de fazer o desmame e “recalcular a rota”?

Fica difícil porque a pessoa fica muito condicionada psiquicamente em relação àquela medicação. Ela fica com aquela questão de dependência mesmo, eu preciso ter aquela medicação pra retirar. Ela fica com medo até, porque ela quer ter aquela qualidade do sono, quer dormir, que é o sonho de todos nós. Gera até uma insegurança de ficar sem o remédio, é bem uma questão de dependência mesmo, de tipo: “ah, eu vou ficar sem o remédio, e aí como é que vai ser?” Então, o tratamento ideal é a gente identificar o que está causando essa insônia, se é um quadro de ansiedade, se é um quadro de maus hábitos – e aí tem várias situações que podem causar essa questão da insônia – e tratar de forma correta. O tratamento vai ser uma retirada supervisionada e assistida. E, muitas vezes, não vai dar pra retirar e ficar sem nada, vai ter que colocar uma medicação que não gere esse critério de tolerabilidade e que, dentro da avaliação daquele paciente, veremos o que está causando essa insônia para então prescrever uma medicação para agir ali.

Annie Souza/Rdnews

Nós vivemos numa sociedade extremamente agitada, que cobra muito e esse problema do sono se tornou um problema social grave. A gente percebe que as pessoas recorrem muito à medicação para ter essa qualidade de sono, mas existem outras possibilidades – que sozinhas ou aliadas – auxiliam para que a pessoa de fato tenha um sono de qualidade e consiga fazer essa redução de marcha na hora de dormir?

Sim, uma das coisas que eu acho fundamental é a psicoterapia, que é pra pessoa aprender a viver de uma forma diferente. Não tem como a gente fugir desse mundo de hoje, mas tem como nós aprendermos a lidar com a nossa própria ansiedade. E aí que eu aprendo a desligar. O homem faz muito isso. Ele está com o maior problema no mundo, mas ele consegue dormir. Tem homem que não, mas a maioria dos homens acaba conseguindo desligar. A gente precisa aprender porque não adianta você ficar preocupado com toda situação, então precisa descansar e deixa que, no outro dia, você vai resolver. Mas, sozinhos, muitas vezes, a gente não consegue toda essa artimanha para lidar com isso, com a nossa ansiedade. Então, a psicoterapia é importante; um tratamento pra ansiedade é importante; uma mudança no estilo de vida é importante; não tomar café a tarde ou chega até um certo horário – porque a cafeína tem uma meia vida de oito horas. Se eu tomo café às 18h, eu já estou praticamente retirando aquela questão de você sentir sono mesmo.

Tem gente que fala que tem sono depois do almoço, mas quando chega à noite fica em claro. Esse é um problema? Dormir depois do almoço pode ser um vilão?

Pode ser um vilão porque o sono é cumulativo. Eu preciso de uma necessidade de oito horas de sono. Se eu durmo uma hora na hora do almoço, eu já estou reduzindo aqui, estou quebrando. Se tenho um padrão de sono de seis horas, eu vou dormir cinco horas. O ideal, para quem tem insônia mesmo, é não dormir durante o dia. Existe um aplicativo que chama Vigilantes do Sono. Baixem, [o aplicativo] é um ursinho, e aí ele vai trabalhando com você sobre essas questões para você entender como é que funciona a questão do sono em si. A gente entender como que é, o que atrapalha, o que está presente ali, como eu devo criar medidas, ir para cama em que horário, se eu posso dormir à tarde ou não. São questões importantes para serem aprendidas.

O uso prolongado do Zolpidem não é recomendado. Além da dependência, quais outros problemas ele pode causar à saúde?

O Zolpidem foi prescrito para ser usado por semanas. É como se eu treinasse o cérebro para ter aquele hábito de dormir. Se você usa por muito tempo, você está criando um critério de dependência psíquica. Só dorme se estiver com ele. Mas é muito difícil, porque chega uma época da vida que realmente pode ser muito difícil você dormir naturalmente e, por isso, o uso de melatonina, de Zolpidem e de outras medicações. Mas tem gente que não vai ter o critério de tolerabilidade, que é aquela necessidade de uma dose maior, mas tem uma grande parcela da população que vai necessitar cada vez mais de uma dose maior para ter o mesmo efeito.

E o que seria uma dose adequada? Já houve algum caso que chegou para você que seja assustadora a quantidade que a pessoa estava fazendo uso?

O risco é o que ele causa, porque eu posso tomar 10 mg e não me recordar de nada que eu fiz, ficar acordado ou então acontecer qualquer coisa e ligar pra alguém, fazer compra, ir para um supermercado, mesmo com uma dose de 10 mg que é o usual, que é de 5mg e 12,5 mg. Então, isso pode acontecer e é uma questão para ficar muito preocupado. Ou eu estou fazendo o uso de errado ou eu não estou seguindo as regras, as indicações do médico de que tem que estar na cama na hora que vai dormir e não ficar acordado. Tem que estar deitadinho lá. Isso já é uma questão que tem que ser vista. Agora, tem gente que acaba usando ele [Zolpidem] durante o dia.

Annie Souza/Rdnews

Pra quem não conhece, o que acontece?

Estamos em estado de vigilância quando estamos acordados. Quando a gente vai deitar para dormir, o cérebro vai se desligando, então ele passa para um estado de rebaixamento de nível de consciência até o sono. O maior que tem é o estado do coma – que é quando a gente vai fazer uma cirurgia -, então as medicações que são usadas são hipnóticos, são medicações depressoras do sistema nervoso central. O Zolpidem fica aqui no meio. Ele rebaixa, é o indutor do sono hipnótico.

Então, se eu tomo ele durante o dia e saio pra fazer minhas atividades, eu estou sem o meu nível de consciência?

Você pode bater o carro, você pode não se lembrar do que está fazendo. É como uma pessoa que bebeu uma grande quantidade de álcool e não se recorda que fez. “ O Zolpidem foi prescrito para ser usado por semanas. É como se eu treinasse o cérebro para ter aquele hábito de dormir. Se você usa por muito tempo, você está criando um critério de dependência psíquica. Só dorme se estiver com ele” Luisa Forte Stuchi

Em casos como esse, as pessoas brincam e acham que o outro está mentindo, mas na verdade existe esse apagão, então?

Existe, existe esse apagão e é o mesmo apagão do Zolpidem. Aí vai fazer alguma coisa na rua e não se recorda, conversa coisas e não se recorda. É uma coisa bem preocupante.

Mas isso não significa que não exista a necessidade da medicação em alguns casos, certo?

Ela tem que ser prescrita por uma finalidade e por um médico – de preferência um médico psiquiatra ou um médico do sono. Porque nós trabalhamos mais e sabemos mais dos riscos e, quando a coisa aperta, é nós que vamos resolver os pepinos. A gente tem todo um critério de cuidado sobre essa prescrição e às vezes é necessário fazer o uso, mas por quanto tempo que vai fazer o uso? Se essa pessoa está tendo a necessidade de tomar uma dose maior, a gente já vai ter que reavaliar o que está sendo feito. E toda essa avaliação é feita durante os atendimentos.

Em geral, quem faz mais uso dessa medicação? Homens ou mulheres?

[O percentual] é equilibrado entre homem e mulher.

Homens costumam ser mais fechados, sentimentalmente falando. Então é possível estar sofrendo com insônia crônica e mascarar para não aparecer?

Geralmente são homens que trabalham, empresários e que trabalham, ficam preocupados com muita coisa e, às vezes, à noite não conseguem relaxar e acabam necessitando desse interruptorzinho lá para poder dormir descansado. Mas mulheres também [passam por isso], o uso é o mesmo.

Quando a insônia é pontual? E quando se torna um problema realmente de saúde?

Se você tem uma insônia do tipo “hoje eu não dormi bem ou estou passando por um problema e não dormi bem” isso é normal acontecer, certo? Agora, quando passa a ser uma questão rotineira, frequente, em que a pessoa acorda várias vezes durante a noite, acaba tendo um cansaço excessivo no dia seguinte, não consegue dormir, e aí acaba no outro dia gerando um cansaço, aí passa a ser um transtorno. Todo mundo pode ser ansioso, ficar triste de vez em quando, ter insônia, mas o que é um transtorno? É quando aquilo que está acontecendo sempre já está causando prejuízo na vida da pessoa. Se eu tenho uma insônia frequente e isso está gerando um prejuízo na minha vida, então já é um transtorno de sono.

Link da Matéria

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*