
Rodinei Crescêncio
Há mais de 170 anos, Karl Marx e Friedrich Engels publicaram ideias que ainda ressoam na sociedade moderna. Em A Ideologia Alemã, eles apontaram que “os homens precisam estar em condições de viver para poder fazer história”. Essa frase, aparentemente simples, revela um mundo de reflexões sobre como as condições materiais moldam nossas vidas e escolhas. Mas o que essas ideias têm a ver com os dias atuais, dominados por aplicativos e plataformas digitais?
Imagine um entregador de comida que trabalha para um aplicativo popular. Ele decide seus horários e parece ter autonomia, mas depende de pedidos e avaliações controlados por algoritmos invisíveis. Enquanto pedala pela cidade, ele arca com os custos de manutenção de sua bicicleta e paga do próprio bolso eventuais acidentes de percurso. Ao fim do mês, descobre que sua renda é menor do que esperava, mal suficiente para sobreviver. Será que ele é tão independente quanto dizem? “ No capitalismo clássico, o empregador se apropriava do excedente gerado pelo trabalhador. Na era digital, a relação se sofisticou. Agora, as plataformas cobram taxas e oferecem “oportunidades”, mas transferem o risco quase que exclusivamente para quem está na linha de frente”
Esse é o cenário da chamada “uberização” do trabalho. Plataformas como Uber, iFood e muitas outras prometem flexibilidade e liberdade, mas, em muitos casos, oferecem o contrário: condições de trabalho precárias, sem direitos garantidos e com uma dependência intensa das empresas que controlam esses serviços. Para Marx, esse modelo seria uma nova roupagem para a exploração do trabalho que ele tanto criticou.
No capitalismo clássico, o empregador se apropriava do excedente gerado pelo trabalhador. Na era digital, a relação se sofisticou. Agora, as plataformas cobram taxas e oferecem “oportunidades”, mas transferem o risco quase que exclusivamente para quem está na linha de frente. A promessa de independência oculta a realidade de jornadas exaustivas, instabilidade financeira e isolamento.
Essa situação é mais do que um problema econômico: é também social. Quando Marx escreveu sobre alienação, descreveu como os trabalhadores, separados do fruto de seu trabalho e uns dos outros, perdiam o sentido de comunidade e pertencimento. Hoje, aplicativos reforçam essa separação. As interações humanas são mediadas por telas e estrelas de avaliação, transformando pessoas em números e suas atividades em dados monetizados.
Mas não é apenas isso. Outro ponto levantado por Marx foi a violência, não apenas como algo físico, mas estrutural. Ele defendia que a transformação do mundo raramente ocorre sem rupturas profundas. Isso nos leva a um questionamento incômodo: seria possível superar essas desigualdades de forma pacífica, ou estamos presos em ciclos de exploração que só se romperão com movimentos drásticos?
Claro que nem tudo está perdido. O mesmo ambiente digital que intensifica a exploração também pode servir de palco para resistências. Iniciativas coletivas de trabalhadores por aplicativos, como greves e organizações sindicais, mostram que a luta por condições dignas é possível, mesmo em um cenário de fragmentação e isolamento. A chave é transformar a aparente fragilidade da conexão digital em força colaborativa.
Além disso, para que um futuro mais justo seja alcançado, talvez seja necessário revisitar as críticas de Marx e adaptá-las ao contexto atual. Não se trata apenas de rejeitar o capitalismo, mas de refletir sobre como construir sistemas que valorizem não apenas a produtividade, mas também a dignidade humana.
Afinal, enquanto as condições materiais continuarem ditando as relações sociais, estaremos sempre enfrentando o desafio de pensar e transformar o mundo. Seja através de aplicativos ou organizações comunitárias, cabe a nós decidir como essa transformação irá ocorrer. Marx talvez não tivesse todas as respostas, mas suas perguntas permanecem essenciais para entender o presente e imaginar o futuro.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Mauricio Munhoz Ferraz, é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso, professor de economia. Foi secretário de Estado de ciência e tecnologia e adjunto de infraestrutura do governador Mauro Mendes, superintendente do Ministério da Agricultura em Mato Grosso e diretor do Instituto de pesquisas da Fecomercio. Mestre em sociologia rural, seu livro “o avanço do agronegócio” faz parte do acervo da Universidade Harvard, e seu livro “A lei kandir” na biblioteca do congresso, ambos nos Estados Unidos. Seu livro “Rota de Fuga, a história não contada da SS” esteve entre os 10 mais vendidos na Amazon e foi traduzido para o inglês, pela editora Chiado, de Portugal. Foi vencedor do prêmios internacional “empreedorismo consciente” do Banco da Amazônia e do nacional “Celso Furtado” do governo brasileiro.

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