Saúde mental ainda é tabu e não tratar piora o sofrimento, alerta psiquiatra

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Arte: Annie Souza/Rdnews

Celebrado há 11 anos, promovendo o estímulo à reflexão sobre a importância da saúde mental, o Janeiro Branco e seu significado ainda são um estigma em nossa sociedade, segundo o psiquiatra Washington Bruno Feliciano Barbosa, diretor técnico do Instituto da Mente, em Cuiabá. Para o profissional, as pessoas ainda têm muita dificuldade em aceitar que possuem um problema, logo, não conseguem falar sobre isso, muito menos lidar com tais situações, principalmente por medo de julgamentos. Em entrevista ao , o psiquiatra falou sobre os desafios de abordar a saúde mental na sociedade atual, que vive do imediatismo, e destacou a importância do tratamento precoce e da necessidade de unir a psiquiatria e a psicoterapia para um cuidado completo e com maiores resultados.

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista

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Annie Souza

Qual a importância em cuidar da saúde mental?

Não raro, a maioria das pessoas buscam apoio psicológico e psiquiátrico apenas quando já têm quadros de sofrimento intenso, com perdas, prejuízos financeiros, sociais, familiares e, por vezes, até com risco, de pensamento de morte, de ação suicida, então é um sofrimento muito grande. Por isso é importante falar o quanto mais cedo, pois mais rápido e mais fácil será o tratamento. A gente já tem esse conceito para outras questões de saúde. Quando eu falo, por exemplo, de doenças oncológicas, por exemplo, a gente tem lá a ideia de que quanto mais cedo se inicia o tratamento, maior a chance de cura. Não é diferente na depressão, não é diferente na ansiedade, não é diferente em outros transtornos mentais. Então, essa conscientização, esse cuidado com a saúde mental é muito importante para abrir espaço, diminuindo a resistência que as pessoas têm sobre o assunto.

Quais os principais sinais, aparentes, de que uma pessoa precisa de ajuda psicológica? 

São vários sinais. A gente costuma dizer, pelo menos no que diz respeito à psiquiatria, que é a única especialidade médica em que você não se preocupa só com a saúde e o bem-estar do paciente, mas com os das pessoas que estão à volta. Qualquer pessoa que adoece mentalmente, emocionalmente, vai gerar um prejuízo para si e para todos que estão no entorno. Todos que te amam se preocupam se você não está bem. Então, acho que um dos sinais mais importantes, pensando na nossa saúde psicológica, é alteração de comportamento. Se um indivíduo tem um comportamento que já é conhecido e, num dado momento, muda de maneira brusca, intensa, ou gradativamente mais demonstrando sofrimento, esse é um primeiro sinal. Outros sinais são as dificuldades ou os prejuízos relacionados à vida comum como no trabalho, dificuldade em manter relações sociais, o isolamento, dificuldade grande de lidar com a frustração, principalmente quando isso gera momentos de irritabilidade, de raiva, explosões. Então, são sinais importantes para a gente pensar. O que eu elencaria como prioritários seriam alterações de comportamento que sejam rápidas e sinais de sofrimento, como tristeza, choro, isolamento e prejuízo funcional. 

Outro ponto que costuma impedir as pessoas de procurarem um acompanhamento psiquiátrico é a medicação. Muitas pessoas ainda acreditam ser algo prejudicial, que vicia. Isso é uma preocupação válida?

Existem, sim, algumas medicações que levam ao risco de dependência, mas a grande maioria das medicações que fazemos uso atualmente não geram esse risco, pelo contrário. Quanto mais bem feito o tratamento, quanto mais bem ajustada a dose da medicação, quanto mais respostas tiver, ou seja, a busca da remissão, a busca de uma melhora verdadeira, mais rápido é o tratamento e menor o risco de ter, inclusive, efeitos colaterais. O tratamento é sempre individualizado e essa individualização é sempre buscando que você tenha o máximo de resultado e o mínimo de prejuízo. Existem algumas medicações que causam dependência? Existem, e são alguns exemplos que a gente tem visto com uma dificuldade grande até na regulação, no controle da venda, que são os benzodiazepínicos, por exemplo. Infelizmente, é um tipo de medicação que causa risco de dependência, mas que, pelo menos hoje, no contexto da psiquiatria moderna, a gente evita o uso. É muito comum que a gente receba, às vezes, representantes farmacêuticos falando sobre algumas dessas medicações e eu costumo sempre dizer que a psiquiatra já não prescreve mais tanto esses remédios e, quando prescreve, é com muito cuidado e com muita organização, com um plano definido, de tempo curto, de maneira segura. Então não é uma preocupação que a gente precisa ter hoje em dia. As medicações, não tendem a causar dependência se forem usadas de maneira correta, e a grande maioria delas não tem nenhum potencial de causar dependência.

Annie Souza

Qual a importância de conciliar o acompanhamento psiquiátrico com a psicoterapia?

A psicoterapia é sempre uma indicação primária no tratamento. Todo mundo que faz tratamento psiquiátrico deveria fazer terapia. Óbvio que também, da mesma maneira que existe uma resistência para buscar o tratamento psiquiátrico, existe uma resistência para buscar o tratamento psicológico e eles não são dissociados. É importante que a gente faça esse tratamento em conjunto, inclusive para ter um resultado maior, sendo indispensável por vários motivos. Primeiro, porque ajuda o indivíduo a fazer um processo de realmente se identificar, se conhecer, perceber os seus limites e, aos poucos, entender como impor esses limites a tudo que está à sua volta: às pessoas, ao trabalho, aos excessos que faz consigo mesmo. Então, a terapia tem um papel muito grande que ajuda, inclusive, a evitar o processo de adoecimento.   “ Qualquer pessoa que adoece mentalmente, emocionalmente, vai gerar um prejuízo para si e para todos que estão no entorno. Todos que te amam se preocupam se você não está bem.”

No contexto da nossa sociedade, vivemos em um mundo imediatista. Queremos tudo na hora, o mais rápido possível. Quais os impactos disso na saúde mental?

A gente foi criando socialmente, pelo menos nas últimas décadas, com a ideia de que o sucesso se restringe ao sucesso financeiro: quanto maior o sucesso financeiro, mais bem sucedido eu sou. Por isso, as coisas precisam acontecer de uma maneira muito rápida também: não podemos perder tempo, porque tempo é dinheiro. Então, esse é um ponto importante para se pensar. Dentro desse contexto, a gente passou a valorizar mais as sensações do que os significados, do que aquilo que é perene, que é duradouro. A busca de prazer imediato faz com que a gente simplesmente esqueça de construir aquilo que mantém o nosso bem-estar. Como costumo dizer por aí, pra construir o “shape”, ir na academia e ter resultado, não acontece do dia pra noite. Pra eu construir conhecimento, não acontece do dia pra noite. Pra eu construir uma relação que seja duradoura, que seja de confiança com alguém, um casamento que seja bem sucedido, uma relação com os meus filhos que seja bem sucedida, isso não acontece de uma hora pra outra. Isso demanda esforço diário, constante e sempre com uma reavaliação daquilo que eu posso fazer e oferecer. 

Annie Souza

As redes sociais possuem um papel importante nessa questão imediatista, tendo inclusive recursos de acelerar vídeos e áudios onde as pessoas podem consumir diversos conteúdos em um período curto de tempo. Como amenizar isso?

Esse movimento que a gente tem, em que as redes sociais exacerbam o imediatismo, é um movimento que a gente tende a fazer principalmente como uma medida de alívio da nossa atenção emocional. Daquilo que eu não consigo lidar, eu busco algo que me alivie. Então, o uso de rede social dá uma sensação de prazer imediato, rápido, mas que também dura pouco. Por isso, não é raro que a gente demore muito tempo ali. Eu entro no Instagram, entro no feed, lá dos reels, começo a ver um vídeo, aquilo me dá um certo prazer, o próximo já é meio chato, vem uma propaganda que eu não quero ver, mas eu vou buscar de novo aquela sensação inicial de prazer que eu tive. Isso é o que a gente chama de sistema de recompensa. A recompensa prazerosa faz com que eu busque novamente. A recompensa desprazerosa ou traumática faz com que eu evite. Então, o grande cuidado que a gente precisa ter dentro desse funcionamento, porque isso regula como a gente funciona, é evitar os excessos de redes sociais, evitar o excesso de consumo de materiais que, de alguma maneira, me fixam ali sem trazer benefício de longo prazo. Isso faz com que a gente consiga ter um pouco mais de qualidade de vida, inclusive. Tanto que o consumo excessivo de redes sociais, jogos, jogos eletrônicos – hoje a gente tem muito problema com cassinos, bets também – faz com que a gente tenha um risco aumentado para adoecimento mental. 

Link da Matéria – via RD News

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