Redução de incêndios florestais em 2025 não garante tendência positiva, diz ecólogo

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Rodinei Crescêncio

O Pantanal viveu, em 2020, um dos maiores desastres ambientais de sua história, com incêndios que devastaram áreas inteiras do bioma. Cinco anos depois, este e outros biomas em Mato Grosso apresentam um cenário distinto: a redução drástica dos focos de calor, além de condições climáticas favoráveis. Em entrevista ao , Alexandre Enout, gestor da RPPN Sesc Pantanal, analisa os resultados da atual temporada, reforçando que a prevenção é mais eficiente e menos custosa que o combate direto e alertando que, apesar do alívio momentâneo, o risco de incêndios de grande escala continua alto, especialmente diante das mudanças climáticas.

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista

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Dados recentes apontam para uma redução no número de incêndios florestais neste ano. No caso específico do Pantanal e do Cerrado mato-grossenses, essa diminuição é consistente a ponto de indicar uma tendência ou ainda é cedo para falar em mudança estrutural?

Proporcionalmente ao mesmo período dos anos anteriores, 2025 apresentou um cenário bastante diferente, com uma redução drástica nos focos de calor e no registro de incêndios florestais.  “ Devemos tratar os dados de 2025 como um resultado pontual, não como uma mudança consolidada”

Esse resultado está fortemente relacionado às condições climáticas favoráveis no início do ano: tivemos chuvas dentro da média, diferentemente dos anos anteriores, e uma chuva tardia no mês de abril, com volume acima da média para esse mês. Além disso, ocorreram chuvas esparsas de menor volume pluviométrico em agosto e até setembro, o que é incomum neste período, e foi o que contribuiu para manter a vegetação e o solo úmidos.

No entanto, ainda é cedo para falar em uma mudança estrutural ou tendência climática. Entre 2019 e 2024, observamos uma redução acentuada na precipitação, enquanto 2025 trouxe um cenário mais próximo da normalidade. Não há estudos científicos que indiquem uma alteração definitiva no padrão climático. O que existe é uma percepção de formação do La Niña, que costuma trazer mais umidade para a América do Sul, mas ele ainda não está confirmado. Portanto, devemos tratar os dados de 2025 como um resultado pontual, não como uma mudança consolidada.

Sesc Pantanal

A dinâmica cíclica do Pantanal, com períodos de cheia e seca, influencia diretamente no comportamento do fogo. Diante das cheias recentes, quais as previsões para os próximos anos em relação ao risco de incêndios?

Os ciclos de cheia e seca no Pantanal têm um papel determinante no comportamento do fogo. Em outros biomas também, mas no Pantanal esse papel é muito marcante. Em anos com enchentes maiores, o solo permanece mais úmido e a vegetação retém essa umidade, o que diminui a propagação das chamas. Em alguns casos, até mesmo focos iniciados em locais remotos, por raios, ou seja, com causa natural, extinguem-se sozinhos, sem necessidade de intervenção humana. Já em anos mais secos, a situação é oposta: os incêndios se espalham rapidamente, passando por diferentes tipos de vegetação, ganhando força nas áreas abertas (como campinas) e alcançando zonas florestais que, em condições normais, funcionariam como barreiras naturais. Ainda não é possível afirmar que as cheias recentes vão alterar a dinâmica do fogo nos próximos anos. Pelo contrário, considerando o contexto global das mudanças climáticas, as projeções indicam um aumento no risco de incêndios, tanto em frequência quanto em intensidade.

Essa redução se deve mais às condições climáticas favoráveis ou às medidas humanas, como ações preventivas e integração institucional? “ É preciso levar em conta os incêndios de 2020, que resultaram no fortalecimento significativo das instituições e mais investimentos em pessoal, equipamentos e capacitação”

A análise deve ser multifatorial. É preciso levar em conta os incêndios de 2020, que resultaram no fortalecimento significativo das instituições e mais investimentos em pessoal, equipamentos e capacitação. O Sesc Pantanal sempre investiu de forma contínua em sua infraestrutura e na formação de brigadistas qualificados para o enfrentamento de incêndios na região. De modo geral, podemos perceber, para além do Polo, temos equipes mais bem preparadas e presentes em campo, o que faz diferença no controle dos incêndios. Por outro lado, as condições climáticas favoráveis em 2025 tiveram um papel determinante. Um solo encharcado e uma vegetação com maior retenção de água reduzem a intensidade das chamas, permitindo que as equipes, que agora estão em maior quantidade e mais bem preparadas, atuem de forma mais eficiente. Acima de tudo, o investimento na prevenção segue sendo a principal bandeira do Polo Socioambiental Sesc Pantanal e é o que consideramos mais importante nesta pauta. A prevenção se faz de várias maneiras, seja na infraestrutura física, com ações de aberturas de aceiros, capacitação de brigadistas, aquisição de equipamentos, como também ações mais voltadas para educação, dialogando com vizinhos, com a comunidade, levando informações para escolas, explicando como, quando e se pode fazer o fogo. Esse conjunto de esforços tem um nome: Manejo Integrado do Fogo (MIF). Essa estratégia tem trazido avanços, mas o desafio permanece crescente, exigindo melhorias constantes na prevenção e combate, já que a tendência ainda aponta para um aumento dos incêndios ao longo dos anos. 

Sesc Pantanal

O senhor destacou que a prevenção tem custo menor que o combate. Quantos por cento é menor? Neste ano de 2025, houve diminuição no volume de recursos destinados ao combate direto, justamente por conta da queda nas ocorrências?

É muito difícil dar um número para isso, porque cada situação é uma situação. Enquanto a prevenção pode ser planejada, com investimentos em educação, workshops, material gráfico, treinamentos e capacitação para brigadistas e equipamentos, o combate é sempre uma emergência que não se prevê a grandiosidade, envolvendo custos imprevisíveis e altos, como uso de aeronaves, maquinário pesado, combustível, alimentação e deslocamento de equipes. Diferente de outros anos (2020 e 2024), em que tivemos operações que envolveram diferentes agências para o combate dos incêndios, em 2025 temos atuado de forma mais pontual, trabalhando integrado com o Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Mato Grosso. Nesta temporada, até o momento, atuamos com brigadistas e equipamentos em regiões próximas às áreas de conservação do Sesc Pantanal, dando uma rápida resposta para extinção dos focos.

Sesc Pantanal

Como o senhor avalia o papel das campanhas educativas no engajamento de comunidades locais, indígenas e fazendeiros? Ainda há resistência quanto à mudança de práticas relacionadas ao uso do fogo?

As campanhas educativas são ferramentas essenciais para a transformação de atitudes. No Polo Socioambiental Sesc Pantanal, realizamos anualmente a campanha de prevenção e combate a incêndios. Neste ano trabalhamos com o tema “O combate começa pela prevenção aos incêndios florestais” com o objetivo de fortalecer o trabalho feito com comunidades pantaneiras, povos indígenas e unidades de conservação, para conservar a biodiversidade, a saúde, a cultura e a história de quem vive no Pantanal. A educação ambiental é prioridade, com programas voltados a diferentes públicos: comunidades rurais, crianças em idade escolar, visitantes e gestores. Levar informação de qualidade permite mudanças de comportamento, reduzindo práticas inadequadas e promovendo o uso consciente do fogo, quando necessário.

O aumento da integração entre instituições públicas e privadas é um outro ponto de destaque. Que lacunas ainda precisam ser preenchidas para tornar essa rede de proteção mais eficiente? “ Mais do que identificar lacunas, o momento atual exige ampliar o envolvimento e aprimorar a comunicação entre todos os setores”

 

Nos últimos anos, houve avanços significativos na integração entre instituições, tanto em instâncias formais e públicas, quanto em espaços estratégicos, que atuam na coordenação ações durante os períodos mais críticos de incêndios florestais. Esse movimento também se refletiu na realização de eventos técnicos, como congressos, workshops e reuniões de trabalho, que têm registrado uma participação cada vez maior da sociedade civil. Além disso, houve fortalecimento das brigadas voluntárias, indígenas e comunitárias, com investimentos que melhoraram suas condições de atuação e segurança.

Os incêndios florestais são um problema coletivo, e sua solução depende da participação ativa de instituições públicas, privadas e da sociedade civil. É um sinal positivo perceber que, mesmo diante do aumento na frequência e intensidade dos incêndios, cresce também o engajamento de diferentes atores em prol da prevenção e do manejo adequado do fogo. Sesc Pantanal

Trabalho de educação ambiental nas escolas, realizado pelo Sesc Pantanal

Em relação aos incêndios devastadores de 2020, quais sequelas ainda são perceptíveis no Pantanal? A atual redução no número de incêndios já ajuda a acelerar a recuperação das áreas mais afetadas ou esse processo ainda será longo?

Desde 2019, temos observado anos mais secos e com incêndios florestais cada vez mais intensos. Antes, esses eventos ocorriam em intervalos mais espaçados, mas, a partir desse período, passaram a se repetir anualmente, o que provavelmente reflete os impactos das mudanças climáticas. O ano de 2020 foi especialmente marcante, deixando fortes impactos ambientais no Pantanal. Desde então, o Polo Socioambiental Sesc Pantanal promove pesquisas que acompanham possíveis impactos em ecossistemas. No entanto, é cedo para avaliar a recuperação do bioma como um todo, essa não pode ser simplesmente uma análise empírica, pois isso exige pesquisas científicas contínuas e dados de longo prazo. O Pantanal possui resiliência natural, mas a recuperação ecológica não ocorre em poucos anos. O bioma passa por períodos de seca e, consequentemente, tem maior probabilidade de incêndios e em outros períodos, de cheia, e tudo isso faz parte de sua dinâmica como um todo. Seria necessário um tempo maior do que o fragmento de 5 anos para uma análise completa. Para entender melhor esse ponto, é preciso fragmentar a análise: algumas pesquisas específicas, por exemplo, já trazem dados sobre grupos isolados, como jacarés ou o Cambarazal (formação florestal), mas avaliar o bioma de forma ampla exige mais tempo e estudos. “ Os maiores desafios para proteger o Pantanal e o Cerrado estão diretamente relacionados às mudanças no regime natural de cheias e secas, agravadas pelas mudanças climáticas”

Considerando o cenário das mudanças climáticas, que traz eventos extremos cada vez mais imprevisíveis, quais são os maiores desafios para manter o Pantanal e o Cerrado protegidos nos próximos anos?

Os maiores desafios para proteger o Pantanal e o Cerrado estão diretamente relacionados às mudanças no regime natural de cheias e secas, agravadas pelas mudanças climáticas. O Pantanal, que sempre teve um equilíbrio entre períodos de cheia e de seca, hoje enfrenta secas mais prolongadas e cheias cada vez menores. Isso torna o bioma mais vulnerável a incêndios de grande escala, como os que vimos a partir de 2019, além de afetar diretamente a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos da região. Segundo levantamento do MapBiomas, dados mensais sobre a superfície de água e de campos alagados mostram que de 1985 a 2023, último ano mapeado pelos pesquisadores, o bioma Pantanal está alagando uma área menor e ficando seco por um período maior no ano. Períodos de cheias cada vez menores e secas cada vez mais prolongadas, favorecem incêndios mais intensos. Essa situação é um alerta para que haja cada vez mais esforços pela prevenção. Nesse cenário, o desafio não é apenas combater os incêndios ou conservar áreas isoladas, mas pensar na paisagem como um todo, integrando conservação, uso sustentável e ciência. O futuro depende da união de esforços. 

Link da Matéria – via RD News

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