
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Maio é o mês que comemora o Dia das Mães e nesta entrevista especial para o , a psicóloga Gina Coelho falou sobre a importância da mãe ter uma rede de apoio. Em certos momentos, a mulher se sente sobrecarregada e necessita de ajuda. Em Cuiabá como forma de contribuir, Gina tem disposto do seu tempo de forma voluntária no movimento Maio Furta-cor, que é uma campanha aberta para sensibilizar a população para a causa da saúde mental materna, processo esse que envolve a parte de acolher, compreender e intervir nas dificuldades daquela mãe. No decorrer da entrevista, Gina alerta o quão significativo é a mãe fazer atividades que vão além da maternidade e como encaixar o tempo de qualidade com os filhos e com ela mesma em sua rotina.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista
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As mães, sejam casadas ou mães solo, precisam de uma rede de apoio para auxiliar nas atividades do dia a dia. Qual é a importância da rede de apoio dentro da rotina de uma mãe? Porque nós somos mães, mas continuamos tendo todas as outras obrigações. Como a gente consegue ter tempo para tudo?
Mães são multitarefas. Eu não acho que é ruim ser multitarefa. Mas para ser multitarefa, a gente precisa aprender a se priorizar. O que é prioridade? O que eu preciso fazer hoje? O que eu posso deixar para amanhã? Ah, hoje não deu para fazer isso e isso. Está tudo bem, amanhã é outro dia. Então, começa na própria mulher. Ela enxergar a maternidade sem romancear. Porque nós somos educadas a romantizar a maternidade. Na verdade, não tem nada [romântico]. Ela é completamente emocional. A mulher fica com os hormônios alterados e fica sensível. O organismo prepara ela para isso. O nosso cérebro é inteligente. Ele prepara para esse momento. Então, não que ela [mãe] não consiga, mas que entenda que ser multitarefa, requer aprender a priorizar, e a prioridade deve ser ela [mãe].
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Como a autocobrança de uma mãe pode afetar a sua saúde mental? Porque, às vezes, ela não se perdoa e fica com o sentimento de culpa.
Exatamente. Vem a culpa materna. Eu costumo dizer que a mulher já tem uma tendência a se sentir culpada por algo ou por alguém. Algo que saiu do controle dela. E a maternidade talvez venha para mostrar que nós não temos controle de nada. Óbvio, se você se casa, você vai ter a sua família. Agora tem o marido, tem o bebê e os cuidados. É fundamental que você esteja bem consigo mesma. Porque aí você vai transbordar coisas legais para toda a família e para você mesma. É importante que a mulher se auto observe, se auto perceba, comece a exercer um autocuidado. Porque, às vezes a mulher se afasta desse autocuidado. O autocuidado, ele vai muito além de fazer coisas ou comprar coisas. Ir ao salão, de repente, se isso também não é mais uma carga social para ela se manter arrumada, se for prazeroso. Vai muito além disso. É a auto empatia, buscar a rede de apoio. A rede de apoio também é buscar outras mulheres que são mães e que sabem o que ela está sentindo, que vai conseguir validar isso. A maternidade é diferente da paternidade. O esposo pode estar envolvido na paternidade, porém é diferente. Eu tinha roda de mães e era justamente isso. A gente se reunia uma vez ao mês. Escolhia uma temática para a gente falar sobre aquilo, e paralelo um grupo no WhatsApp que elas ficavam compartilhando as dificuldades, ou só um desabafo. Porque às vezes você [mãe] só quer desabafar.
Então a rede de apoio não precisa ser, necessariamente, um familiar?
Não. Nós moramos em Cuiabá, é um lugar que tem muitas pessoas de fora. Então imagina, eu atendi muitas mães que não tinham nenhum familiar por perto. Era ela, o esposo e o filho, ou os filhos. Entrar em aulas de dança, aula de teatro ou coral, são lugares onde você vai socializar, vai conhecer mulheres e amigos que possam te apoiar. Nem que seja só para dormir, para [a pessoa] ficar com o bebê para dormir, ou tomar um bom banho tranquilamente. A rede de apoio pode ser amigos, pode ser a família. E o marido, o esposo, o pai, não é rede de apoio. Ele é um personagem ativo dentro dessa família, assim como a mãe.
No caso da mãe solo, como que isso se aplica? Como uma rede de apoio pode ajudar uma mãe solo? Ou ainda em casos de mulheres que são casadas, mas que vivem como mães solos. O que elas devem fazer nesse tipo de situação?
Eu creio que a rede de apoio é para todas as mães. A mãe solo vai estar ali entre outras mães que podem virar essa rede de apoio na rotina dela mesma. Porque na roda de conversa tivemos mães solo, que moravam aqui sem familiares por perto. No desenvolver desse autoconhecimento, dessa socialização com outras mães, ela conseguia que essa rede de apoio viesse dessas mulheres e de amigos também.
Você falou de um tema muito interessante: o pai não é rede de apoio, ele é um personagem ativo. Quando o pai faz o mínimo, ele é elevado e quando as mães não fazem o seu máximo, são consideradas negligentes. O que esse problema pode gerar dentro da família? De onde vem esse tipo de comportamento?
Do machismo estrutural, isso é fato. Na nossa cultura que é machista, a mulher é educada para servir. Então a mulher está fazendo mais do que obrigação, e o homem está ajudando. Isso é uma crença limitante da nossa cultura, porque o pai não ajuda, o pai faz a parte dele, divide as responsabilidades com a mãe, que é muito ruim para a mulher. Como por exemplo: “Nossa que marido, nossa que pai, como ele cuida”. Ninguém chega para a mãe e fala: “Nossa, que linda, como ela cuida”. Muito pelo contrário. Se a criança estiver sem uma blusinha, e começou a ficar friozinho: “Quem é a mãe dessa criança?”. Ninguém pensa quem é o pai dessa criança. Tudo isso a gente sabe que vem de um machismo estrutural, e isso gera muitos conflitos entre o casal e na família. Gera também um agravo para a saúde mental da mãe, porque nisso ela pode esgotar, pode entrar em um burnout parental. Várias coisas podem acontecer com essa mãe, que vão deixá-la doente e muitas vezes é visto como frescura. A mulher, como eu disse, está muitas vezes no pós-parto com os hormônios todos bagunçados. Ela fica mais vulnerável a ter uma depressão pós-parto ou uma ansiedade. Por isso, é importante elevar o nível de consciência da sociedade e das políticas públicas para a saúde mental materna.
Não só no período puerpério ou no pós-parto, mas na criação dos filhos, há muitas exigências pela sociedade. Qual é a importância de uma mãe cuidar da saúde mental? Por que isso é importante para a família que ela vive? Mas, sobretudo, para ela?
Por isso essa conscientização, ela não é só para a sociedade, mas para a própria mãe, dela se perceber como um ser e abraçar esse ser. A mãe precisa desenvolver esse autoconhecimento, nem que seja por leituras, por cursos ou pela terapia, que é muito importante. Precisa ir aprendendo a separar essa mulher da mãe. Para ela atender as necessidades dessa mulher, não ficar olhando só para as necessidades da mãe. Porque se ela não olhar para si, o caminho é o adoecimento, é o esgotamento.
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Diante da necessidade da mãe ter o olhar para a mulher que habita nela e não deixá-la de lado. Esta é uma bandeira do Maio Furta-cor?
Isso. O Maio Furta-cor é um movimento que já está no Brasil há cinco anos. Ele visa justamente isso, movimentar para a conscientização da saúde mental materna. No Brasil tem vários representantes voluntários, que estão espalhados. Maio é o mês que concentra nessa conscientização, por ser o mês das mães. Através de caminhadas, de rodas de conversas, palestras, simpósios, de várias formas. Para dar visibilidade de que é importante todos olharem para a saúde mental materna. Maio porque é o mês das mães e Furta-cor porque é a mãe, pelas várias habilidades e emoções, ela é colorida. Não tem uma cor que defina a mãe, é multicolores, ela é Furta-cor. Em Cuiabá, qualquer pessoa pode ser voluntário, não só mulheres, homens e empresas. Seria interessante seguir a ‘maiofurtacor.cba’, porque lá vai estar a nossa agenda, das coisas que vão estar acontecendo em maio.
Viralizou a questão de educação positiva. Você quer isso ou aquilo? Induzindo a criança a dar uma resposta preferencial para o pai. Além da educação permissiva também. Como que os pais estabelecem um limite na educação? Mas sem a mãe não se sentir à vontade e sem ser autoritária ou recorrer à violência?
Legal. Você está falando sobre os estilos parentais. Temos o autoritário, o permissivo, o caminho do meio, e o negligente. A gente busca passar para esses pais, que faz parte da psicoterapia infantil e adolescente, tentamos passar para eles e orientá-los no caminho do meio. Que é um caminho de firmeza e gentileza. Há uns sete ou oito anos, quando eu foquei nesse nicho, a educação positiva estava sendo muito falada, e todo mundo indo atrás, agora virou-se ao contrário. Que a educação positiva pode gerar filhos criados em permissividade. Só que essas opiniões vem realmente de gente que não entende sobre a educação positiva. A educação positiva é uma educação respeitosa, é inegociável. Não se bate em uma criança e nem se belisca. Evita-se muito, a todo custo, os gritos, os rótulos, o despertencimento dessa criança. Porque quando a gente faz uma criança se sentir mal, ela vai agir pior. Se a gente faz uma criança se sentir bem, ela vai colaborar. Então, a educação permissiva, sim. Ela leva a criar grandes reizinhos sem iniciativas. Sem saber sobre ou conseguir fazer resolução de problemas. Mas, não é o autoritarismo que vai ser. São dois polos, um polo e o outro polo. É pelo equilíbrio mesmo. Os pais não deixam de ser autoridades para os filhos, que é diferente de autoritarismo.
Como conseguimos nessa rotina encaixar um tempo de qualidade com a criança? Mas sem recorrer sempre a telas ou outras pessoas, que possa ser criado um vínculo da mãe, do pai, com a criança?
Eu costumo dizer que o vínculo afetivo é fortalecido na rotina. É no dia a dia, é nas entrelinhas. Eu não preciso agendar uma saída com meu filho uma vez por semana e achar que isso é um momento especial. É legal fazer um momento especial com cada filho, um momento especial da família. Mas, é nas entrelinhas da rotina mesmo, que eu [a mãe] estreito esse vínculo afetivo, por meio do respeito, de saber lidar com aquela criança, ter um tempo para ela todos os dias. E quando a gente fala em tempo, ele não precisa ser várias horas. É um tempo que você vai sentar no chão, vai brincar com seu filho de um joguinho, ou você vai jogar uma bola, vai pular na piscina, assistir um filme com ele. Como nós vamos arrumar um tempo para isso? É o que eu sempre digo. Ter filho, agora cria. O adulto às vezes se esquiva diante de tantas demandas. Então não tivesse filho. A gente tem que lidar com a realidade como ela é. Se tem filho, ele precisa ser educado dessa forma, para lá na frente você não ter problema, e ele não ser um adulto disfuncional. Vai fazer a comida, o lanche da noite, ou o jantar, chama a criança, alguma coisa ali ela vai conseguir fazer. Cortar um tomatinho com a faca sem ponta, de alguma forma vocês vão estar ali, confraternizando esse momento.
O vínculo da criança com os pais em momentos de descontração é benéfico na adolescência?
É benéfico. Muitos pais, quando já estão idosos, falam: “Ah, meu filho não vem me ver. Meu filho não me dá atenção”. Aí eu [psicóloga] já penso, vamos olhar como é que foi esse pai durante a infância e adolescência dessa criança. Eram pais presentes e agora estão cobrando presença? O filho aprende com a gente. Se eu não ensinei ele a ser presente, ele vai aprender a não ser presente na minha vida. Só que eu vou sentir apenas quando eu tiver parado de trabalhar, quando meu meio social diminuiu. Muitas vezes me torno um idoso solitário, mas muitas vezes é porque que eu não eduquei meu filho no sentido de estar presente. Rodinei Crescêncio/Rdnews
Hoje temos muitas mães influenciadoras, que mostram a sua rotina com seu filho. Nós enquanto seguidores só vemos a parte boa. Como essa exposição afeta e causa pressão para nós mulheres sermos mães perfeitas? Podendo influenciar até mesmo o casamento.
Eu adoro falar sobre isso. A maternidade pode sim, ser possível. Mas ela não vai ser possível se você ficar se rendendo as redes sociais, as influenciadoras. Você não vai ter uma maternidade possível, porque você vai ficar se comparando todo o tempo e se sentindo a pior mãe do mundo. A maternidade possível, ela só acontece se você aceitar que a maternidade é imperfeita. Não existe mãe perfeita, não é essa a busca. Quando você aprende o autocuidado, aprende a se priorizar, desenvolve o autoconhecimento. Você descobre que você é uma mãe possível. É a melhor mãe que você pode ser para aquele seu filho. Eu costumo falar: gente, para então de ver. Não segue mais mãe influencers. Segue pessoas que trazem conteúdo, que vai agregar a sua habilidade materna. E o que você vê que não está te fazendo bem, que não está deixando você uma mãe positiva para você mesma, uma mulher positiva, é melhor excluir. Porque maternidade perfeita não existe.

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