
O metanol, tipo de álcool encontrado nos casos de bebidas adulteradas em mais de um estado brasileiro e que já causou mortes por intoxicação pela substância, é o “irmão do mal” do próprio etanol, usado nas mesmas bebidas. A diferença entre os dois quem explica é o professor de Química da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Várzea Grande, Felipe Thomaz Aquino, que esclarece ainda que uma pequena diferença na composição dos álcoois causa muitos problemas a quem ingere o metanol.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
“A gente, na química, agrupa substâncias como se fossem famílias. O metanol é muito parecido com o etanol, como se fosse irmão dele, mas não são gêmeos idênticos. O metanol só tem um carbono a menos do que o etanol, que é o principal componente das bebidas alcoólicas gerais. E, no caso dos destilados, a porcentagem é um pouco maior. Muitas bebidas, como a vodka, por exemplo, os gins, são transparentes; essas substâncias não têm uma separação de fase. Estão ali imersas naquilo e você não consegue identificar visualmente. Os dois têm um cheiro muito parecido. No entanto, o metanol é muito tóxico para o nosso organismo”, pontua o educador.
O metanol é um composto químico formado por um átomo de carbono, três de hidrogênio e uma hidroxila; já o etanol é composto por dois carbonos, seis hidrogênios e um oxigênio. É justamente esse único carbono na composição que, de acordo com Felipe, torna a substância altamente tóxica, podendo causar danos graves quando ingerida pelo ser humano.
“O organismo metaboliza de maneira diferente o metanol. Ou seja, ele vai sofrer reações químicas do próprio corpo que vão levar à formação de substâncias diferentes. No caso do metanol, se forma um ácido fórmico. Isso pode levar a um processo chamado acidose metabólica. Essa acidose pode ir para a região do cérebro, pode ir para os pulmões e para outras regiões e afetar a questão do rim. Aí vão surgindo sintomas mais graves, que levam a pessoa a procurar o serviço de saúde, que é sempre a recomendação”, esclarece Felipe.
Rodinei Crescêncio/Rdnews
O ácido fórmico produzido a partir da metabolização do metanol dentro do organismo citado por Felipe é altamente corrosivo, podendo causar, diante de uma ministração errada, por exemplo, irritação nas vias respiratórias, queimaduras na pele e lesões oculares graves.
Felipe explica ainda que o metanol é um solvente regulado, de difícil acesso. O professor argumenta que até profissionais químicos como ele necessitam de uma licença específica para adquirir o material. O educador reforça ainda que o metanol usado nas adulterações recentes não é sequer o mesmo ministrado em laboratório, ou, como ele cita, “puro”.
“O metanol, por exemplo, para laboratório, que é mais concentrado, mais puro, requer uma licença da Polícia Federal. São reagentes controlados. Não é tão simples. Pode ser que eles estejam usando resíduos de outras indústrias, comprando não metanol puro, o que só piora a coisa. Às vezes, ele [metanol] é produzido em uma rota industrial como um subproduto. Então está sendo até descartado. A própria destilação vai levar um descarte do metanol e as pessoas estão os reutilizando”, analisa o professor.
Para Felipe, o que falta ainda é uma educação voltada à ciência, pois parte da comunidade sequer entende os riscos de uma ação como a adulteração de bebidas. “Falta do conhecimento mínimo de química, de ciência, de modo geral. E eu acho que isso é uma coisa grave, que mostra, mais uma vez, que aqui a gente não tem tanta fiscalização quanto deveria. A dica é sempre verificar a procedência, evitar marcas que não são muito conhecidas, ver se tem um rótulo, se tem prazo de validade”, alerta.
Fiscalização intensificada
Até o momento, não há casos confirmados de adulteração de bebidas com a substância em Mato Grosso. No entanto, ainda nesta semana, em Nova Mutum (a 243 km de Cuiabá), três homens foram presos em flagrante pelas Polícias Civil e Militar por falsificarem bebidas alcoólicas em um galpão clandestino. Não foi confirmado se o metanol estava sendo adicionado às bebidas. Mesmo assim, diante dos mais de 50 casos já registrados no país, o governador Mauro Mendes (Uniião Brasil) determinou que a fiscalização seja intensificada no estado.
Um alerta aos bares, restaurantes e setor hoteleiro também foi emitido pelo Ministério Público de Mato Grosso nessa quinta-feira (02), que pede pela adoção práticas rigorosas de controle e rastreabilidade na compra, recebimento e comercialização de bebidas alcoólicas. Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

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