
Acabo de ver um vídeo do Axl Rose dando chilique em cima do palco. É de outubro deste ano, capaz de vocês já terem visto também. Confesso que nem procurei saber o que se passou para o “cantor” chegar ao ponto de jogar o microfone na bateria diante de um público pagante que, sim senhor, comprou um serviço e, portanto, têm o direito de recebê-lo bem-feito. A gente poderia entrar aqui numa discussão de que música é arte e arte não é serviço e a subjetividade do artista isso e aquilo.
Mas assim, minha gente, Axl Rose, sabe? Hoje não.
O que eu queria pensar aqui com vocês direitinho é esse lugar do masculino que se sente no direito de toda e qualquer coisa. O homem (se hétero branco) a quem quase nunca nada é negado.
Eu sei e vocês sabem onde chega essa incapacidade de frustração, né? Só essa semana, somente essa semana que passou, escolhendo 3 exemplos de memória, sem dar Google nenhum pra não estragar o resto do dia, teve isso aqui:
1. o caso do influenciador cheio de “saber sobre o relacionamentos” que agrediu a companheira – agressão filmada – e foi solto depois da audiência de custódia. Agrediu porque ela lhe negou o sexo. “Pra mim você não nega”, se escuta no vídeo;
2. o homem que não suportou ser chefiado por duas mulheres no Cefet-RJ e as matou. Antes, havia sido denunciado, foi
afastado, mas voltou ao trabalho e ainda entrou com um pedido de indenização pelo afastamento. Estão mortas as duas;
3. o ex-namorado que atropelou, passou por cima e arrastou uma mulher pela Marginal Tietê em São Paulo. 31 anos, mãe de 2 filhos.
“Tem coisa que é tão óbvia que a gente fica até meio na dúvida se precisa falar” me disse esse fim de semana uma pessoa queridíssima sobre outro assunto. Outro mais ou menos, era também sobre homens e seu lugar de “tudo posso, resolva aí pra mim”. É óbvio, minha gente, mas precisa falar.
Precisa falar muito, precisa causar mal estar, vergonha, precisa ser diferente. Boa semana assim mesmo, com raiva e peito pesado. E parem de comprar ingresso pra ver Axl Rose, clicar em vídeo de gente péssima nem que seja pra rir e chamar de calvo. Tem que frustrar. Essa gente tem que aprender a se frustrar.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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