Páscoa perde sentido coletivo e vira prática superficial, avalia socióloga

Imagem

Freepik

A celebração da Semana Santa, que culmina neste Domingo de Páscoa (05), período tradicionalmente marcado por reflexão, jejum e espiritualidade, tem perdido seu significado mais profundo e se tornado uma prática automática, restrita a rituais superficiais. A avaliação é da socióloga Olga Lustosa, que vê um “desencanto profundo” na forma como a data vem sendo vivenciada atualmente. A Páscoa, que celebra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, acaba sendo reduzida, assim, na prática, à liturgia. “ Parar de consumir carne não te limpa em nada se o seu comportamento continua sendo marcado pelo individualismo e pela indiferença” Olga Lustosa

“As pessoas entendem que a renúncia é limitada, que é aquela coisa de evitar algo que você gosta muito, como carne e doce, fazer alguns pequenos sacrifícios”, afirma. No entanto, esse comportamento não se reflete em mudanças internas ou sociais. “Para além dessa dimensão, não há um envolvimento de utilizar esse período para uma reflexão mais social, de vida coletiva, de amor ao próximo, de humildade, de compaixão.”

A socióloga destaca que, embora tradições como evitar carne na Sexta-feira Santa ou praticar jejum durante a Quaresma ainda sejam seguidas, o sentido mais amplo da data – ligado à empatia, ao perdão e à transformação pessoal – tem sido deixado de lado. “Segue-se a tradição, guarda-se a sexta-feira, evita isso e aquilo, mas na prática, no interior, não há uma dimensão de aprender a perdoar, de cultivar melhores virtudes”, destacou.

Arquivo pessoal

A socióloga Olga Lustosa

Para Olga, houve uma perda significativa de valores associados ao período pascal, “quando nem sempre Cristo é colocado no centro desses momentos”, o que evidencia um distanciamento entre prática religiosa e vivência espiritual.

A análise da socióloga dialoga com o conceito de “modernidade líquida”, do pensador Zygmunt Bauman. De acordo com ela, a fragilidade das relações contemporâneas impacta diretamente a forma como as pessoas se conectam com valores religiosos. “O que marca essa geração hoje é a pressa. São laços que se desmancham com muita facilidade”, explica. Nesse cenário, segundo ela, práticas como a solidariedade e a comunhão acabam sendo pontuais, muitas vezes restritas a datas simbólicas. “ Segue-se a tradição, guarda-se a sexta-feira, evita isso e aquilo, mas na prática, no interior, não há uma dimensão de aprender a perdoar, de cultivar melhores virtudes” Olga Lustosa

Prática comercial

Outro ponto levantado é a transformação de costumes religiosos em práticas também comerciais. O consumo de peixe, por exemplo, tradicional no período, é uma das práticas citadas. “É cultural, é simbólico, mas já virou também comercial. Há pessoas que vivem esperando o ano para vender peixe”, observa. Para ela, o sacrifício alimentar, isoladamente, não promove mudança real. “Parar de consumir carne não te limpa em nada se o seu comportamento continua sendo marcado pelo individualismo e pela indiferença”.

Apesar das críticas, Olga reconhece que períodos como a Sexta-feira Santa, o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa ainda podem funcionar como gatilhos para reflexão e busca espiritual, especialmente em contextos de crise. “É um caminho natural nós todos acabarmos nos voltando para Deus”, afirma, citando iniciativas religiosas que acolhem pessoas em momentos de vulnerabilidade.

No entanto, ela reforça que o verdadeiro sentido da data está além dos rituais. Para a socióloga, Páscoa – e a todo o período que a antecede – deveria ser, sobretudo, um convite à prática contínua de valores humanos e coletivos – algo que, segundo ela, tem sido cada vez mais raro no cotidiano.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

Link da Matéria – via RD News

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*