O que é real na Era Pós-Moderna?

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Rodinei Crescêncio

O Google acaba de anunciar sua mais avançada ferramenta de geração de vídeos ultrarrealistas: o Veo, uma inteligência artificial capaz de criar vídeos com altíssima fidelidade visual, respeitando texturas, movimentos naturais e até mesmo nuances de iluminação. Diferente das gerações anteriores, que entregavam clipes com evidente aspecto sintético, o Veo gera sequências indistinguíveis da filmagem humana, bastando um comando de texto para que imagens complexas e narrativas inteiras sejam produzidas em minutos. Trata-se de um salto gigantesco no campo da síntese de mídia, colocando em xeque não apenas o futuro da produção audiovisual, mas também a própria noção de verdade na era digital.

Mais do que um avanço técnico, essa inovação representa uma transformação cultural profunda. O medo que muitos especialistas vinham apontando, de que em breve não seríamos mais capazes de distinguir o real do fabricado, já não é mais uma possibilidade futura: é a nossa rotina. Recentemente, viralizaram nas redes vídeos hiper-realistas de Barack Obama fazendo declarações polêmicas, ou de figuras públicas brasileiras como Lula e Bolsonaro em contextos completamente fabricados. Mesmo com o surgimento de ferramentas de detecção, esses conteúdos continuam a enganar milhões, compartilhados em velocidade vertiginosa, alimentando desinformação e teorias conspiratórias.

Como bem diagnosticou Jean Baudrillard, vivemos na era da simulacra, onde as representações não apenas imitam a realidade, mas a substituem. O que antes era o “mundo digital”, uma espécie de espaço paralelo onde nos aventurávamos eventualmente, hoje é o próprio mundo onde habitamos a maior parte do tempo. Compramos, nos relacionamos, aprendemos e trabalhamos online. O digital deixou de ser uma extensão do real: tornou-se o real. E, nesse ambiente, a distinção entre verdadeiro e falso se dilui perigosamente. “ Como bem diagnosticou Jean Baudrillard, vivemos na era da simulacra, onde as representações não apenas imitam a realidade, mas a substituem”

Nesse contexto, o Mito da Caverna, formulado por Platão há mais de dois mil anos, ganha um significado perturbadoramente atual. Para o filósofo, os prisioneiros da caverna tomavam as sombras projetadas na parede como se fossem a própria realidade, ignorando a verdadeira fonte de luz.

A proposta platônica era que, pela educação e pelo esforço intelectual, pudéssemos nos libertar dessas ilusões e contemplar o mundo das ideias, o mundo verdadeiro. No entanto, no cenário contemporâneo, as sombras são tão perfeitas, tão ultrarrealistas, que se confundem com a própria realidade, ou melhor, passam a ser indistinguíveis dela. Como, então, sair da caverna, se não há mais diferença sensível entre as projeções e aquilo que supomos ser o real? O modernismo, ao problematizar a subjetividade da percepção e a multiplicidade das verdades, já havia relativizado a ideia de uma realidade única; agora, a inteligência artificial parece ter levado essa relativização ao seu ápice, dissolvendo completamente as fronteiras entre o ser e a aparência.

Zygmunt Bauman nos alertou para a liquidez das relações humanas na modernidade tardia, mas talvez devêssemos falar agora em uma liquidez ainda mais radical: a da própria realidade. Quando uma IA é capaz de criar vídeos que nenhuma análise visual consegue identificar como falsos, o que resta do contrato social baseado na confiança nas imagens e nos registros audiovisuais? Como acreditar no que vemos?

Claro que há potencialidades extraordinárias nisso: cinema independente poderá criar obras com qualidade de blockbuster sem recursos milionários, a medicina poderá gerar simulações hiper-realistas para treinos cirúrgicos, a educação poderá oferecer experiências imersivas jamais imaginadas. Mas os riscos são, proporcionalmente, imensos. Especialmente num contexto como o brasileiro, que se aproxima de uma nova eleição presidencial em 2026.

Se já nas últimas eleições a disseminação de notícias falsas, impulsionadas por algoritmos e redes sociais, produziu efeitos concretos na percepção pública e nos resultados políticos, imagine o impacto de vídeos falsos, com qualidade tão perfeita que nem os olhos mais treinados conseguirão identificar. Como afirmou Hannah Arendt, o tecido social se rompe quando a verdade factual perde seu valor, e passamos a viver em um mundo onde fatos e ficções são indistinguíveis.

O desafio, portanto, é duplo: criar sistemas regulatórios e éticos que controlem o uso dessas tecnologias e, ao mesmo tempo, educar as sociedades para que lidem com um mundo onde a evidência visual não garante mais a veracidade. A inteligência artificial já nos colocou nesse território, agora, cabe a nós decidir como habitá-lo.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

Link da Matéria – via RD News

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