O lugar que evitamos visitar; nós mesmos

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Vivemos em uma era de distrações milimetricamente desenhadas para nos afastar de nós mesmos. Entre o brilho das telas, a urgência dos compromissos e o ruído do excesso de informações, raramente nos permitimos um encontro silencioso com nós mesmos. O algoritmo e o ritmo frenético nos mantêm ocupados demais para que possamos nos notar. Evitar esse contato, porém, tem um custo invisível e alto: o sequestro da própria identidade e o afastamento de quem realmente somos.

 

O autoconhecimento costuma ser apresentado como um caminho rápido e romântico para a paz interior. A realidade, contudo, é menos confortável. Conhecer-se exige a coragem de atravessar territórios internos pouco visitados, onde se escondem dores antigas, lutos não elaborados e angústias frequentemente abafadas pela pressa cotidiana.

 

Fugimos desse encontro porque ele nos obriga a abandonar justificativas convenientes. Olhar para dentro significa reconhecer fragilidades, assumir erros e admitir limites que contrariam a imagem que construímos de nós mesmos para o mundo. É um exercício que confronta o ego e exige a maturidade de quem aceita ser humano, e não um personagem impecável.

 

Paradoxalmente, é nesse mesmo território sombreado que residem nossas maiores forças. As partes que tentamos esconder são, muitas vezes, as que guardam o maior potencial de transformação. Encarar a própria sombra é a condição necessária para compreender — e sustentar — a própria luz.

 

O psiquiatra Carl Jung sintetizou esse processo ao afirmar que “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. O despertar, no entanto, raramente é imediato. Ele começa com o desconforto, passa pela resistência e só então alcança a aceitação — etapa essencial para qualquer mudança consistente.

 

Aceitar-se não significa justificar erros ou negar responsabilidades. Trata-se de compreender a própria história com mais lucidez e compaixão. É reconhecer que muitas decisões foram tomadas com os recursos emocionais que tínhamos à época. A imperfeição, nesse sentido, não representa uma falha no sistema, mas a nossa própria condição humana.

 

Quando esse processo se aprofunda, ocorre a ressignificação. Experiências antes vividas como fracassos passam a ser compreendidas como aprendizado e fundamento para escolhas mais conscientes no presente. O passado deixa de ser um peso para se tornar raiz.

 

Há também uma dimensão espiritual nesse percurso. Não a de um julgamento externo, mas a de uma reconciliação interior com aquilo que nos transcende. Conhecer-se torna-se um ato de fé: a crença de que somos maiores que nossos traumas, mais fortes que nossos medos e plenamente capazes de reconstruir trajetórias.

 

A verdade interior tem efeito libertador. Ela rompe com a dependência excessiva de aprovação, reduz a armadilha da comparação constante e devolve o senso de autoria sobre a própria vida.

 

Em tempos de ansiedade coletiva e identidades frágeis, talvez o maior gesto de rebeldia e coragem seja este: interromper a fuga e aceitar o convite para olhar para dentro. Nem sempre é um caminho confortável. Mas é, sem dúvida, o único capaz de conduzir a uma vida mais íntegra, consciente e verdadeiramente livre.

 

Soraya Medeiros é jornalista.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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