
Rodinei Crescêncio
Em tempos de incerteza na Igreja Católica, Conclave, dirigido por Edward Berger, surge como uma ficção perturbadoramente atual. Baseado no livro homônimo de Robert Harris, o filme se desenrola nos corredores do Vaticano após a morte do Papa, acompanhando a disputa pelo poder entre os cardeais reunidos no conclave. Mais do que um thriller religioso, a obra expõe o intrincado jogo de interesses e alianças que permeia a sucessão papal, revelando a Igreja não apenas como uma instituição espiritual, mas como um ator fundamental na política global.
Os acontecimentos recentes envolvendo o Papa Francisco, com rumores de sua fragilidade física e desafios internos cada vez mais evidentes, tornam o filme ainda mais relevante. Se a ficção especula sobre o que acontece quando um pontífice morre, a realidade já indica um papado que se aproxima do seu fim, seja pela idade avançada de Francisco ou pela oposição interna a suas reformas. “ Conclave reflete essa tensão. O filme mostra que a escolha de um Papa não é apenas uma questão de fé, mas de poder. Diferentes correntes dentro da Igreja – conservadores, progressistas, nacionalistas – disputam o futuro da instituição”
O atual pontífice tem sido um defensor de pautas sociais, um crítico do capitalismo selvagem e da destruição ambiental, mas também enfrenta resistência feroz dentro do próprio Vaticano. Sua possível saída pode reconfigurar não apenas a Igreja, mas o próprio cenário político internacional.
Conclave reflete essa tensão. O filme mostra que a escolha de um Papa não é apenas uma questão de fé, mas de poder. Diferentes correntes dentro da Igreja – conservadores, progressistas, nacionalistas – disputam o futuro da instituição. Essa luta interna se reflete no mundo exterior: em tempos de polarização política, a Igreja continua sendo um pilar de influência, especialmente na Europa e na América Latina. O que ocorre entre as paredes do Vaticano reverbera em decisões de governos, na economia e até mesmo em conflitos diplomáticos.
Ao longo da história, a Igreja Católica teve papel crucial na legitimação de governantes, na mediação de conflitos e na formulação de doutrinas que influenciaram sociedades inteiras. Hoje, mesmo com a secularização crescente, o Vaticano segue sendo uma potência política, dono de uma rede de influência que ultrapassa fronteiras. O próximo Papa poderá reforçar ou enfraquecer essa posição, dependendo de sua orientação política e de sua capacidade de adaptação ao século XXI. Conclave nos lembra que, sob as vestes brancas e as tradições milenares, há um complexo jogo de xadrez em curso.
A grande força do filme está na sua habilidade de transformar o que poderia ser um drama burocrático em um suspense envolvente, no qual cada voto depositado na urna é um movimento calculado. Mas sua maior virtude está na pertinência do tema: enquanto a Igreja enfrenta uma crise de representatividade e um possível novo ciclo de transição, Conclave nos obriga a refletir sobre o que está em jogo. Se o papado de Francisco se encaminha para o fim, a pergunta que fica é: quem comandará a próxima fase da Igreja e quais serão as consequências para o mundo?
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Mauricio Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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