Não dá para apenas passar uma borracha nos traumas, explica psicóloga

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Falar de suicídio ainda é um tema que levanta receio e medo por parte da mídia. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. No mundo, o suicídio está entre a quarta causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos, enquanto no Brasil, entre 2016 e 2021 houve um aumento de quase 50% no número de mortes por essa causa entre os jovens de 15 a 19 anos, conforme dados do Ministério da Saúde. 

Com esse contexto de alta nos suicídios e uma chamada “crise de saúde mental no Brasil”, a psicóloga Gina Coelho traz sua visão profissional sobre o atual cenário no país, especialmente no Setembro Amarelo, mês em que mais se discute a saúde mental. Ela analisa a chamada “epidemia de diagnósticos”, além de chamar atenção para a banalização das doenças mentais. Por outro lado, Gina também fala sobre como a falta de acessos a direitos básicos afetam a saúde mental da população. 

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista
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Por que ainda é tão difícil falar sobre suicídio?

Porque tem o tabu, tem os estigmas. A saúde mental, óbvio que melhorou, mas falar de saúde mental ainda é tabu. Então, se alguém tentou suicídio, isso se torna algo silencioso dentro da família, ninguém toca no assunto. É como se fosse assim, se tocar, pode estimular a pessoa a tentar de novo. Então, é como se falar em suicídio estimulasse as pessoas a tentar o suicídio e como está envolvida a saúde mental nisso, falar de depressão, falar de ansiedade, falar de transtorno afetivo bipolar, existe todo um cuidado. As pessoas ficam pisando em ovos. 

E por que você acredita que ainda é um tabu? 

Porque é cultural e a maioria das coisas que não mudam, que se repetem, vêm de geração em geração. Hoje as pessoas já falam em psicologia, em psiquiatria com alguma naturalidade, muitos falam e compartilham que fazem terapia, que vão ao psiquiatra e são medicados. Então, aos poucos, o que muda é falar sobre. Quanto mais a gente fala, mais se naturaliza. 

Você acredita que essa criação cultural sobre suicídio ser um tabu tem um pano de fundo religioso?

Olha, o que eu vejo de pano de fundo é as pessoas falarem que quando a pessoa não está bem de saúde mental, está com depressão, por exemplo, é falta de Deus. Então eu vejo que a religião entra muito nisso. ‘Se você está assim, é porque é falta de Deus’. Isso é um desserviço, porque a pessoa demora mais ou até nem procura ajuda e acaba muitas vezes cometendo suicídio.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Quando se fala de saúde mental, essa discussão costuma ficar muito restrita a essa questão de desequilíbrio químico. Para além dessa questão mental, como as condições de vida, a falta de acesso, por exemplo, influencia na saúde mental das pessoas?

Diretamente. Se a pessoa está ou com uma depressão ou com uma ansiedade, embora seja química, ter uma ordem genética, o ambiente influencia muito. Como esse ambiente está impactando a pessoa, o que consequenciou uma depressão, uma ansiedade, entende? Essa pessoa socializa? Ela tem uma rede de apoio? Tem amigos? O trabalho é muito estressante? Ela sofre abuso? É um ambiente tóxico? Tudo isso está influenciando. Alimentação saudável, faz exercício físico? Então, peraí, o que eu preciso? Um estilo de vida? Mudar hábitos?

E tem a parte das políticas públicas, obviamente, e nós sabemos o quanto a população sofre porque não tem condições de vida justa, adequadas, o mínimo que a população precisa para viver. 

Há estudos que apontam uma crise de saúde mental no Brasil, como você disse, por exemplo, houve um aumento do afastamento do trabalho. O que tem motivado isso, na sua visão?

É multifatorial! A condição de trabalho dessa pessoa, e vai desde saneamento básico, essa pessoa tem condições, está tendo acesso à saúde física, atendimento da saúde física, da saúde mental…

Então, se você está num trabalho onde você sofre abuso, que é um ambiente tóxico, e você chega em casa,  não tem condições de prover tudo que o seu filho precisa, e tem a alimentação, estudo, saúde, tudo! Você vai adoecendo, vai ficando exausto, vai ficando depressivo. Então, eu acredito que o externo é o que mais impacta o consequencial de um diagnóstico.

Por exemplo: se uma pessoa tem uma genética para depressão, se ela tiver um externo, um ambiente que reforça só coisas que ela necessita, coisas boas para que ela tenha uma saúde mental, ela não vai desenvolver essa depressão. Agora, a população brasileira pega aquele ônibus, enfrenta aquele trânsito, acorda quatro horas da manhã para conseguir chegar no trabalho, depois, na hora que chega em casa, ainda tem que fazer as coisas de casa, então, é difícil.

Por outro lado, tem uma outra discussão de que na verdade não é uma crise de saúde mental, mas uma epidemia de diagnósticos. Como você analisa isso? É uma epidemia de diagnósticos ou na verdade, agora que a saúde mental está ganhando relevância para a população? 

Começa pela automedicação. O que é se automedicar? É naturalizar doenças. Antigamente, era mais comum naturalizar doenças físicas, e agora começaram a naturalizar a doença mental. ‘Ah, estou tão depressiva, estou com depressão, estou ansiosa’. Às vezes a gente não está ansioso, a gente está animado. Você vai fazer alguma coisa e fica naquela expectativa e isso não é uma ansiedade, é uma animação, uma euforia. E nisso, a gente sabe que as pessoas vão se automedicar. Muitas pessoas não vão buscar o médico, o psiquiatra, ela vai se automedicar na farmácia que ela consegue comprar remédio controlado sem receita. 

Então você acha que essa questão de diagnósticos vem da própria pessoa se autodiagnosticar e consequentemente se automedicar? 

Tem a indústria farmacêutica porque a gente sabe a potência que é. Então para eles, é bom que se estimule a consumir medicação. É o ambiente interagindo com o ser humano e o ser humano com o ambiente e vira essa epidemia de diagnósticos. Você quer ver? Uma coisa que é muito chata. É muito desrespeitoso. As pessoas quando falam assim, ‘ai, fulano é bipolar. Ai, essa menina é bipolar’. Sempre de modo pejorativo. ‘Ai, hoje eu estou bipolar’. Está naturalizando uma coisa e usando não para o bem, mas de forma desrespeitosa, inadequada. Só quem tem um transtorno afetivo bipolar sabe como é desafiador. As pessoas acham que é porque você mudou de ideia, porque você mudou de humor rapidamente. Não é isso. Então a gente vai diagnosticando, a gente vai naturalizando, usando palavras para um determinado diagnóstico, um transtorno, sendo que o transtorno não é aquilo que a gente está falando.

Já há pesquisas que demonstram que o jovem entre 16 e 24 anos é a faixa mais afetada por problemas de saúde mental. O que tem afetado tanto esses jovens? 

A gente sabe que a era digital trouxe um grande adoecimento, porque ela causa dependência, eles têm acesso a conteúdos perigosos, eles têm acesso a conteúdos, dependendo da idade, que não tem ainda cognição para entender aquilo que está vendo. E, às vezes, não conta para o pai, para a mãe, porque fica com medo. Então, eu creio que o digital, o excesso, tem levado a um adoecimento. Os adolescentes e as crianças estão com o cérebro em desenvolvimento, em construção, tanto de estrutura física quanto cognitiva. O cérebro vai ficar pronto lá pelos 25 anos de idade. Então, essa construção, essa estrutura do cérebro, ela vai ficar comprometida, ela vai ser atingida com esse excesso de digital. Outra coisa, o estilo parental dos pais, a permissividade.

Eles [adolescentes] não são preparados e educados para lidar com frustração, para receber o não. Então tudo é o fim do mundo, e todo mundo, o mundo gira em torno do umbigo dele. E ele sente tédio, não sabe lidar com as emoções, não sabe lidar com o tédio, não sabe lidar com a frustração. 

Além disso, há o excesso de atividades extracurriculares. Tem muitos adolescentes que têm uma agenda que, até para um adulto, é desafiadora. Muitos têm uma fuga muito grande em autolesão quando se sente frustrado, quando não tem o que quer, ou quando está sentindo-se deprimido. Então é um contexto que leva hoje os adolescentes a estarem bem adoecidos. E vamos consequenciar também a pandemia, o isolamento, perda de entes queridos. Muitos ficaram órfãos, então a pandemia acelerou um boom de adoecimento que ficaria lá para frente.

Rodinei Crescêncio/Rdnews   Muito se fala sobre esse tipo de educação para aprender a lidar com os seus sentimentos. Mas como ensinar adolescentes e crianças a lidarem com seus sentimentos quando muitas vezes nem os próprios adultos conseguem lidar?

Esses adolescentes e crianças estão sendo educados por pessoas adoecidas. O que nós vivemos hoje é uma sociedade adoecida em que a gente está intolerante, que não se tem empatia pelo outro, que qualquer coisa vira uma confusão. Nós estamos vivendo esse caos. E essas crianças e adolescentes são educadas por esses pais. Então o ideal seria esses responsáveis se cuidarem, irem num psicólogo, irem num psiquiatra, cuidar da saúde mental para ter o mínimo de condições de estar orientando uma criança e um adolescente. 

Os pais são tranquilos, a saúde mental está boa, mas o filho adoece. Aprenda a lidar com as emoções! Eu acho que os pais têm que se informar,os pais, se não sabem como fazer, busquem conhecimento. Então a gente estuda para tudo na vida, a gente faz pós-graduação, faz mestrado, mas e estudar para ser pai e mãe? Porque você nunca foi pai e mãe, você tem uma noção dentro do que os seus pais fizeram, mas você precisa construir o estilo parental, como você vai educar seu filho? 

Link da Matéria – via RD News

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