
Rodinei Crescêncio
Símbolo de sofisticação, o nome Leila Malouf está ligado a memórias afetivas e é requisitado em momentos especiais. Aos 74 anos, a empresária e banqueteira homônima se alegra com o papel que tem entre a sociedade cuiabana, estando presentes nos sonhos e conquistas de muitos. Filha de libaneses, dona Leila atua no ramo de eventos e buffet há 30 anos. Juntos aos quatro filhos – Alan, Adel, Ariani e Alexa -, a banqueteira lidera um grupo de cinco empresas, com cerca de 450 colaboradores. Toda a trajetória foi regada com muita dedicação e traduzidas no livro “A Cozinha é Minha Vida”, lançado em setembro deste ano.
Ao , Leila contou sobre a origem do livro, a jornada de descobertas de sabores, e, sobretudo, sobre a alegria de continuar fazendo o que mais gosta: servir.
Veja, abaixo , os melhores momentos desta entrevista.
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Como foi revisitar a história da senhora para escrever este livro?
Há dois anos nós demos início ao projeto. A Adel, que é a minha filha mais velha, é a “culpada” de ter começado. É algo enxuto, mas foram 50 receitas que trazem muito de quando eu comecei e outras que perduram até hoje, que são pratos que não saem do nosso cardápio. Nós as revigoramos, demos uma cara nova e vamos em frente. São 50 receitas que estão no livro e fazem parte da história do buffet e da minha história de vida.
Rodinei Crescêncio
Teve alguma receita que a senhora escolheu colocar no livro em razão de alguma memória afetiva, tanto pessoalmente quanto para a empresa?
Nossa! Primeiro foi na parte afetiva. Eu sou a filha mais velha e minha família é toda descendente de libaneses, os meus avós maternos, paternos e a família do meu marido também. Então, eu tenho uma memória afetiva muito presente na minha vida quanto às minhas raízes. Quando eu faço um almoço em casa, logicamente tem as coisas prediletas da família. Meus netos, por exemplo, reclamam quando vão na minha casa no domingo e não tem quibe cru. Existem partes afetivas, mas tem coisas profissionais, do que fizemos durante esses 30 anos. São receitas que preservamos. Por exemplo: um filé, podemos fazer 30, 40, 50 tipos de filés diferentes, já que a base é a mesma. Nós trabalhamos para que as releituras façam com que o prato fique mais moderno, novo. “ No final, é o amor que a gente põe em cada prato, viu? É sempre bom ouvir isso de uma pessoa”
Já que a senhora comentou das raízes, a senhora conseguiu fazer alguma junção entre a culinária cuiabana e a libanesa? Ou foi algo que construiu o estilo da senhora como cozinheira e, posteriormente, da empresa?
Sim! Depois de casada, a partir de 1975, eu já fazia alguns pratos do nosso jeito. Quando você vai até o local, como eu fui ao Líbano várias vezes, e come, aprecia a comida da terra, você já vai criando o seu jeito e começa a fazer diferente do que você fazia antes. Essa junção das duas coisas, de ser de lá, depois juntar com as minhas receitas daqui do buffet e passar isso para o meu público, deu muito certo. Por exemplo, o charutinho de folha de uva. Não tinha como eu apresentar esse charutinho virado numa travessa. Aí ficamos anos e anos pensando como fazer, até que eu achei um jeito de fazer em uma panela de cerâmica de barro e que essa panela fosse para a mesa, porque a costela que a gente usa embaixo é que dá o sabor. Se você despeja numa travessa, sai um pouco do gosto. Nós mantivemos a receita, mas a elaboramos de uma outra forma.
E quanto aos ingredientes?
Os ingredientes são os mesmos. É a mesma carne, o mesmo arroz, a mesma folha de uva. O que nós fazemos é adaptar e elaborar de uma outra forma. As pessoas podem falar: “O seu charutinho é o melhor!”. No final, é o amor que a gente põe em cada prato, viu? É sempre bom ouvir isso de uma pessoa. Às vezes, eu não quero oferecer o charuto para um evento, mas a pessoa faz questão que tenha. São coisas assim que fazem parte da nossa história.
Como a senhora conseguiu unir a sofisticação das ocasiões especiais, que o seu nome e legado carregam, com o clima e valores de família? É um tipo de serviço que é chique, fino, mas, ao mesmo tempo, acolhe quem desfruta desse menu.
É uma empresa essencialmente familiar, só que com visões de gestão e de diretoria bem abrangentes. Todos os meus quatro filhos trabalham aqui. Cada um, quando voltou dos estudos, seja no exterior ou da vida lá fora, trouxe algo a acrescentar em sua própria área. O meu filho mais velho, Alan, nunca saiu, eu tenho o buffet porque ele me ajudou a construir. De lá pra cá, cada filha que veio, voltou quando casou e acrescentou a tudo isso. A primeira coisa é a união. Somos em cinco, só meu marido que não trabalha no buffet, mas sempre me deu total apoio. Hoje, eu tenho diretores, tem a Beatriz, tem o Gilmar, tem o Rogério, são pessoas que mais de 20 anos que trabalham com a gente. Eles são como um braço da família que também se alonga. A minha filha Ariani, como chefe de cozinha, tem as técnicas, e foi através dela que a gente aperfeiçoou, que veio vindo essa sofisticação a esses pratos especiais, que são feitos através de estudos, pesquisa, viagens. Eu acho que tudo isso é um acréscimo que vem de família, vem de união, amor, conhecimento e vem de persistência, claro.
Existe algum prato que no início da empresa era muito pedido e hoje já é considerado demodê?
Em 30 anos, nós vemos pratos que sempre fizemos, e outras coisas da caminhada mudarem. Mas tem coisas que não mudam. As novas receitas, as novas pesquisas fazem com que a gente use o ingrediente básico, mas para pratos diferentes. Um Boeuf Bourguignon que se faz em Paris, nós fazemos aqui. Só que, ao invés de fazer com pedaços de carne de segunda, aqui fazemos com filé. O molho é o mesmo molho, são os mesmos ingredientes, mas fica de uma maneira mais sofisticada. Quem vem aqui para fazer um evento quer algo que surpreenda seus convidados. Então, é importante a gente mostrar também para os convidados dele que eles foram homenageados com uma festa maravilhosa.
Eu tive a minha formatura neste buffet. Depois de tantos anos, eu ainda lembro o que eu comi, o que bebi, como estava a decoração. Para a senhora, como é estar presente nas ocasiões especiais das pessoas, fornecendo o cenário para as memórias mais importantes da vida delas?
É uma honra. Imagina, você que fez uma formatura três, quatro anos, lembra, esté aqui fresquinho na sua cabeça, imagine uma noiva ou os pais de um aniversário de 15 anos, que vêm com os sonhos e tem que sair tudo milimetricamente perfeito. Para essa pessoa, não tem outro dia, o dia é aquele, nós não podemos errar. O seu evento é único. O evento de uma noiva é único, de 15 anos é único, uma formatura é única e é muito importante que isso saia do jeito que o cliente quer. Para a gente o cliente é o rei.
E tudo com muito amor?
A palavra chave. Na cozinha ou você quer comer uma comida maravilhosa, que é o nosso caso, ou para você tanto faz comer um feijão com arroz bem feinho. A gente tem que sempre ter uma comida maravilhosa. Isso aí é fundamental e esse amor pelo que a gente faz é o que move, em qualquer profissão. É trabalhoso, mas estamos vencendo.

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