
Diálogos encontrados no celular do advogado Roberto Zampieri , assassinado em 2023, em Cuiabá, com o juiz da Comarca de Vila Rica (a 1.269 km de Cuiabá), Ivan Lúcio Amarante , revelou proximidade incomum entre os dois e indicou a influência indevida de Zampieri sobre o magistrado, com indícios de corrupção, lavagem de dinheiro e grave violação ao dever de imparcialidade judicial.
Conforme já publicado pelo , Ivan Lúcio estava afastado administrativamente por determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) desde outubro de 2024. Nessa quinta-feira (29), ele foi alvo de nova fase da Operação Sisamnes, da Polícia Federal, e foi afastado judicialmente em decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin Martins. Reprodução
Juiz Ivan Lucio Amarante, que encontra-se afastado do cargo por determinação do CNJ
Durante sessão extraordinária do Conselho Nacional de Justiça na terça-feira (27), o ministro Mauro Campbell Marques revelou alguns trechos dos diálogos entre Zampieri e Ivan Lúcio. Os diálogos indicam uma relação muito próxima entre os dois. O juiz era visto como “subserviente” ao advogado.
As mensagens foram encontradas no celular de Zampieri, que foi apreendido pela Polícia Civil após o homicídio do advogado, ocorrido em dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá. O celular foi deixado na cena do crime.
Em busca de pistas sobre o assassinato, a Polícia Civil se deparou com diálogos sobre a venda de decisões e sentenças. Todo o material foi encaminhado ao CNJ e à Polícia Federal.
Conforme o relatório do ministro Campbell, os diálogos demonstram que o advogado mantinha relação de amizade íntima e até mesmo controle sobre a atividade do magistrado. “Com frequência, Zampieri pautava a conduta do juiz, indicando os pedidos que deveriam ser ou não acolhidos e as teses jurídicas que deveriam ser por ele adotadas”, disse.
“O contexto dos diálogos, a frequência das interações e os termos utilizados deram corpo a um panorama abrangente de efetiva influência do causídico na atividade jurisdicional do magistrado, muito possivelmente, em razão do pagamento de vantagens indevidas para a prolação de decisões judiciais”, apontou o ministro.
Em uma conversa recuperada de junho de 2022, Zampieri ofereceu: “Se você precisar de algo com o Dr. Ivan, lá de Vila Rica, me fala. Ele é muito meu amigo, amigo mesmo. E resolve.”
Já em agosto de 2023, o juiz aconselhou Zampieri sobre combinar estratégias sobre processos: “Dá uma olhadinha com os assessores do senhor, se encontra uma outra saída além dessa que minha assessoria encontrou”, sugeriu o magistrado.
Outro diálogo, de outubro de 2023, meses antes do advogado ser morto, o juiz orienta Zampieri a burlar as diretrizes ordinárias de distribuição de petições para que ele próprio pudesse analisar e atender aos pedidos do advogado, negados anteriormente por um juiz plantonista. “O resto deixa comigo, kkkk” (sic).
Em seguida, o magistrado encaminha a decisão, nos termos combinados e ironiza: “Já determinei que ele mesmo reconsidere deferindo tudo, Dr!!!!….kkkkkk Tá na mão!!!” (sic).
Ainda conforme Campbell, análise de mensagens e movimentações bancárias revelou a existência de depósitos vultosos em contas da atual e da ex-esposa do magistrado, feitos por meio de empresas sem atividade operacional – indício de uso de terceiros para ocultar recursos ilícitos.
Apenas entre setembro de 2023 e julho de 2024, a atual esposa de Amarante, teria transferido R$ 750 mil ao juiz. A ex-esposa, por sua vez, teria feito repasses superiores a R$ 200 mil, também por meio de empresa de fachada.
Confira, abaixo , o momento de julgamento durante sessão do CNJ (a partir de 2h15min):
Operação Sisamnes
A Operação Sisamnes, deflagrada pela Polícia Federal em novembro do ano passado em Mato Grosso, mirou supostos crimes de organização criminosa, corrupção, exploração de prestígio e violação de sigilo funcional. Segundo a PF, as investigações apontam um suposto esquema de venda de decisões judiciais envolvendo advogados, lobistas, empresários, assessores, chefes de gabinete e magistrados.
A ação culminou no afastamento dos desembargadores Sebastião Moraes Filho e João Ferreira Filho, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Caso veio à tona após análise do celular do advogado Roberto Zampieri, executado em dezembro do ano passado.
O lobista Andreson Gonçalves também foi preso na operação. Ele foi transferido da Penitenciária Central do Estado para a Penitenciária Federal de Brasília.
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