Fala machista expõe cenário em que presença feminina é questionada dentro e fora de campo

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Uma declaração machista reacendeu, nesta semana, o debate sobre a valorização e o respeito às mulheres na arbitragem do futebol brasileiro. O episódio ocorreu no sábado (21), após a derrota do Bragantino para o São Paulo, pelo Campeonato Paulista, quando o zagueiro Gustavo Marques criticou a escalação da árbitra Daiane Muniz, atribuindo à atuação feminina a eliminação da equipe na competição.

 

Ao afirmar que partidas “desse tamanho” não deveriam ser apitadas por mulheres, o jogador gerou forte repercussão negativa e críticas de entidades, profissionais do esporte e torcedores. O clube aplicou multa ao atleta, enquanto o caso segue sob análise da Federação Paulista de Futebol.

 

O episódio expõe um cenário ainda marcado pelo machismo estrutural dentro do futebol, especialmente na arbitragem, função historicamente ocupada por homens.

 

Realidade em Mato Grosso 

No estado, os números evidenciam a desigualdade. De acordo com a Federação Mato-grossense de Futebol (FMF), o quadro atual conta com apenas duas árbitras e três assistentes mulheres, frente a 60 homens nas funções.

 

A árbitra Fernanda Kruger, que atua há cerca de 10 anos na profissão, relata que, apesar do acolhimento institucional e do apoio dos colegas, o preconceito ainda é frequente em campo. “É um meio machista. A gente sofre preconceito de jogadores, comissões técnicas e da torcida. Mas, como profissional, me sinto respeitada dentro da federação”, afirma.

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Para Fernanda, a fala do jogador em relação a Daiane Muniz revela um pensamento ainda enraizado. “Aquilo foi um ato extremamente machista, uma fala de que futebol não é para mulher. No mundo em que vivemos hoje, isso é inadmissível”, avalia.

Fernanda representará o Mato Grosso, integrando a equipe de arbitragem de uma competição internacional. Pela primeira vez, o estado terá uma profissional do seu quadro em uma competição tão importante, como a Conmebol Libertadores Sub-20, disputada em Quito, no Equador, entre os dias 7 a 22 de março. 

Para ela, essa é a realização de um grande sonho. “É o momento de eu mostrar a minha competência, é um momento de eu mostrar meu profissionalismo, é um momento de eu mostrar quem é a Fernanda, é o momento de demonstrar tudo, tudo que trabalhei até hoje.”

 

A ex-árbitra e atual diretora da Escola de Arbitragem da FMF, Elisângela Almeida da Silva, está nas quatro linhas desde 1997, quando se tornou árbitra. Ela reforça que erros fazem parte do futebol, independentemente do gênero. No entanto, segundo ela, quando uma mulher erra, a repercussão costuma ser muito maior.

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“Ao se tratar de uma árbitra, qualquer falha é levada ao extremo. Muitas situações comuns acabam sendo usadas para questionar se ela deveria estar ali”, explica. Para Elisângela, essa pressão excessiva faz com que muitas mulheres desistam da carreira logo no começo. 

 

Entre os principais desafios para ampliar a presença feminina na arbitragem estão o medo da não aceitação, a pressão psicológica e a necessidade constante de provar competência em dobro. “A mulher sempre vai ter que fazer um pouco mais e ser melhor para ser tratada de forma igual”, resume Elisângela.

 
Elisângela foi a primeira mulher a bandeirar uma final de campeonato no Brasil. Para ela, a presença feminina precisa continuar nas equipes de arbitragem. “Espero que as mulheres vejam que elas podem sim, fazer isso, que elas devem estar onde desejam, por mais difícil que seja”. 

Apesar disso, casos como o de Daiane Muniz também têm potencial de fortalecer o debate e impulsionar mudanças. Para Fernanda Kruger, a repercussão negativa da fala machista pode servir como um marco. “Para nós, mulheres, isso acaba sendo um trampolim para mostrar que podemos e devemos estar onde quisermos, inclusive no futebol”, conclui.

 

O episódio reforça que a luta por igualdade na arbitragem não se resume à presença feminina em campo, mas passa, sobretudo, pelo respeito, pela valorização profissional e pela quebra de estereótipos ainda presentes no esporte mais popular do país.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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