Facção atua na vulnerabilidade da sociedade: Chega onde o Estado falha

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A crescente atuação das facções criminosas vem preocupando as autoridades mato-grossenses. Em novembro do ano passado, o governador Mauro Mendes (União) criou o programa Tolerância Zero ao Crime Organizado, um pacote de medidas para reforçar as ações de combate ao crime organizado no estado. No entanto, na avaliação do delegado Frederico Murta, titular da Gerência de Operações Especiais (GOE) da Polícia Civil, o maior perigo é o “assistencialismo” das facções, que acaba atraindo a população para o “lado deles”.

“Isso é uma característica de organizações criminosas desde sempre. Desde que o mundo é mundo, as organizações criminosas se fortalecem principalmente naquelas camadas sociais, naquelas áreas onde o Estado se faz ausente”, destaca o delegado, em entrevista ao portal durante visita à sede do , onde também concedeu entrevista ao Rdtv Cast .

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Um exemplo dessa atuação coordenada do crime organizado nos níveis mais carentes da sociedade é o que ocorreu em Cuiabá, onde a mulher apontada como primeira-dama do Comando Vermelho, Thaisa Souza de Almeida – casada há mais de 10 anos com Sandro da Silva Rabelo, o “Sandro Louco”, líder da facção em Mato Grosso – se incubia da atuação social do grupo, principalmente com entrega de cestas básicas, e era descrita como “caridosa” por familiares de membros do CV. Thaisa foi alvo da Operação Ativo Oculto , em 2023.

Para o delegado, as organizações criminosas suprem uma necessidade da população que o Estado falha em atender. Com isso a facção quer conseguir a confiança da sociedade. “O objetivo das organizações criminosas é conseguir garantir que aquelas pessoas estejam do seu lado e, por sua vez, conseguir uma rede de proteção”, explica. “ As pessoas veem como se fossem um ‘Robin Hood’, pegando para dar para o povo, mas não é. Ela [a facção] está garantindo uma rede de proteção” Delegado Frederico Murta

“Trazem para perto dela pessoas que estarão vulneráveis, pessoas carentes, para que elas sirvam como uma camada de proteção, uma rede de proteção para que eles possam exercer as suas atividades, que é o tráfico de drogas e outros crimes, tudo aquilo que for dar lucro para eles. Às vezes se confunde: as pessoas veem como se fossem um ‘Robin Hood’, pegando para dar para o povo, mas não é. Ela [a facção] está garantindo uma rede de proteção”, salienta.

O preço a se pagar por tamanha “caridade” e “ajuda” é caro. Segundo Murta, entre os perigos para a sociedade ao permitir que esse domínio aconteça está a dificuldade do trabalho da polícia e do Estado para chegar nos criminosos.

“Mais difícil é para a polícia conseguir informação, para a polícia chegar até esses indivíduos [quando algo acontece]. Eles acabam usando a casa de um cidadão de bem para guardar ilícitos, podem passar a cobrar algum tipo de taxa. Então, quanto maior é a rede de proteção, mais difícil é para o Estado alcançar”, afirma.

Infiltração na política

Outro movimento observado nos últimos anos em Mato Grosso é a tentativa de entrada das facções criminosas na política. No ano passado, o então vereador por Cuiabá, Paulo Henrique (MDB), foi preso durante a Operação Pubblicare, sendo investigado por atuar em prol do Comando Vermelho . “ Se for fazer uma análise de organizações criminosas do mundo afora, a partir do momento que eles conseguem efetivamente entrar no cenário político, torna-se muito mais difícil o combate” Delegado Frederico Murta

Neste ano, o promotor Adriano Roberto Alves, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Mato Grosso, revelou que cerca de 22 políticos do estado estão sendo investigados por suposta ligação com facções criminosas.  

Na avaliação do delegado Frederico Murta, as facções sempre vão buscar espaço e a infiltração na política é um dos elementos que eles costumam investir. “Eles colocam dinheiro e energia para conseguir esse espaço, para conseguir representantes que possam defender os seus interesses”, alerta.

De acordo com o delegado, tal infiltração se torna um problema ainda maior a ser combatido e exemplos disso podem ser vistos por todo o mundo.

“Se for fazer uma análise de organizações criminosas do mundo afora, a partir do momento que eles conseguem efetivamente entrar no cenário político, torna-se muito mais difícil o combate. Porque ali se tem pessoas que efetivamente têm a função de representar os interesses. Então, na hora de aprovar uma lei, alguma coisa ali que afete os interesses da organização criminosa, vai ter ali uma pessoa legitimamente constituída para fazer esse enfrentamento por eles”, completa.

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Link da Matéria – via RD News

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