
Elzyo Jardel Xavier Pires, ex-servidor da Câmara Municipal de Cuiabá alvo da Operação Ragnatela, que mirou membros do Comando Vermelho envolvidos na realização de shows em uma casa noturna, cogitou bsucar apoio do deputado Beto Dois a Um (União) para impedir a ação de uma promotora de Justiça que estava “prejudicando os eventos do grupo criminoso”. A proposta seria oferecer apoio à campanha de Beto, caso a promotora fosse removida.
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Na quarta-feira (5), a Câmara Municipal de Cuiabá exonerou o coordenador do cerimonial, Rodrigo de Souza Leal, além dos servidores comissionados Wilian Aparecido da Costa Pereira, o dono do Dallas Bar, e Elzyo Jardel Xavier Pires, que era promotor de eventos.
Consta no inquérito que Rodrigo Leal, Elzyo Jardel e outra pessoa estavam envolvidos na realização dos shows no Dallas Bar e em outros eventos organizados pela facção, que seriam custeados por Joadir Alves Gonçalves, vulgo “Jogador”, o chefe do esquema, e de Wilian Aparecido, vulgo “Gordão”.
Nos custos dos eventos já estaria incluído o valor pago como propina para servidores públicos. É apontado que Rodrigo Leal, indicado para um cargo na Câmara pelo vereador Paulo Henrique, era o elo entre a facção e agentes públicos que auxiliavam na realização dos shows.
A investigação também revelou as dificuldades que os suspeitos tiveram na realização de alguns eventos, principalmente por causa da atuação de uma promotora do Ministério Público contra poluição sonora, após denúncias de moradores incomodados com o som alto.
Um dos eventos, do dia 4 de junho de 2022, na Acrimat chegou a ser impedido pela Justiça, mas depois foi liberado. Também é citada a atuação da promotora em um show do cantor MC Poze.
Em uma conversa interceptada pelas forças policiais, Jardel Pires cita que um parlamentar de Brasília “mexeu o pau” para remover a promotora de Várzea Grande e por isso ela teria sido designada para uma promotoria em Cuiabá. Ele se queixou da representante do Ministério Público alegando que “ela odeia festa” e disse “Meu Deus do céu, cara, essa mulher vai… essa mulher vai cerca nós hein”.
Nesta conversa ele afirma que pretendia procurar autoridades do Estado para impedir a atuação da promotora. Jardel afirma que iria negociar um apoio à candidatura de Beto Dois a Um nas eleições. A proposta seria: “a gente apoia você pra deputado estadual, só que você arranca essa mulher de lá”. Na época Beto era secretário de Cultura Esporte e Lazer do Estado.
“Percebe-se novos xingamentos direcionados a promotora de Justiça e uma articulação para tentar afastá-la de suas funções. Na ligação, Jardel informa que pretende conversar com o Governador de Mato Grosso e com o deputado estadual de nome Beto, no intuito de realizar interferências na atuação do Ministério Público, inclusive, informa que vai propor a Beto em apoiá-lo nas eleições para deputado estadual e, em contrapartida, ele retira a promotora de sua atual função”, diz a polícia.
O tentou contato com o deputado Beto Dois a Um, mas até a publicação desta reportagem não houve resposta.
Operação Ragnatela
A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado de Mato Grosso (FICCO/MT) prendeu na manhã de quarta-feira (5) um total de 8 pessoas e cumpriu 36 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso e no Rio de Janeiro contra membros do Comando Vermelho que usavam casas noturnas em Cuiabá para lavar dinheiro do crime.
Ao todo, cerca de 400 policiais cumpre as ordens de prisão e de busca e apreensão. Há ainda sequestro de imóveis e veículos, bloqueio de contas bancárias, afastamento de servidores de cargos públicos e suspensão de atividades comerciais. As ordens judiciais foram expedidas pelo Núcleo de Inquéritos Policiais da Comarca de Cuiabá.
As investigações apontaram, por exemplo, que os criminosos que participavam da gestão das casas noturnas em Cuiabá utilizavam a estrutura para fazer show de cantores conhecidos, custeados pela facção criminosa em conjunto com um grupo de promoters.
Os acusados repassavam ordens para não que não fossem contratados alguns artistas de outros estados, com influência em outras organizações criminosas rivais, sob pena de represálias da facção.

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